A burguesia nasceu como uma espécie de “alienígena social”: não era nobre, nem clero, nem camponesa. Por séculos teve dinheiro sem ter voz política — e foi essa contradição que acabou produzindo as quatro grandes revoluções burguesas.
Revoluções Burguesas
Como a burguesia, rica e sem poder político, refez o Ocidente nas revoluções Inglesa, Americana, Industrial e Francesa.
Professor Guilherme AlmeidaDo que trata o curso
Por séculos, a burguesia teve dinheiro sem ter voz. Nascida nos burgos medievais, não era nobre, nem clero, nem camponesa, e cresceu executando o mercantilismo que os próprios reis absolutistas criaram, até derrubá-los. Neste curso introdutório, Guilherme Almeida parte das novas crenças do homem renascentista, lidas com a ajuda de Ortega y Gasset, e do pensamento político de Maquiavel, Bodin, Bossuet e Hobbes para mostrar como essa camada social ganhou força.
O percurso passa pelas invenções que favoreceram a burguesia (bússola, pólvora, relógio e prensa) e pelo protestantismo, que, sem a condenação católica à usura, a atraiu, como sustenta Max Weber. Na Inglaterra, de Henrique VIII e Elizabeth I aos Stuart, burguesias mercantil e financeira, gentry e puritanos entram em choque com Carlos I; seguem a execução do rei, a ditadura de Cromwell, a restauração e a Revolução Gloriosa, cujo Bill of Rights funda a monarquia parlamentar.
Da Revolução Inglesa nasce, com John Locke, o iluminismo, que os colonos americanos levariam à independência e à república presidencialista inspirada em Montesquieu. A mesma Inglaterra, livre dos entraves à burguesia, inaugura a Revolução Industrial, do artesanato à manufatura e à máquina a vapor. O curso termina na Revolução Francesa, dos três estados e da Bastilha ao Terror jacobino e ao 18 Brumário de Napoleão: depois dela, os valores burgueses e iluministas passam a fazer parte do DNA do Ocidente.
Para quem é
- Estudantes de história, direito ou ciências sociais que querem entender a formação do mundo moderno
- Pais e professores que buscam um fio condutor para apresentar as revoluções dos séculos XVII e XVIII
- Leitores que já ouviram falar em burguesia e iluminismo e querem ver o que liga uma coisa à outra
- Interessados em política que querem conhecer as origens da monarquia parlamentar e da separação de poderes
- Quem quer uma visão de conjunto antes de aprofundar o estudo da Revolução Francesa ou do século XIX
O que você vai aprender
- Por que só se pode falar em burguesia a partir dos burgos medievais, e não entre os mercadores da Antiguidade
- Como o mercantilismo criado pelos reis absolutistas fortaleceu a burguesia que acabaria por derrubá-los
- Como bússola, pólvora, relógio e prensa favoreceram a ascensão burguesa
- Por que o protestantismo atraiu os burgueses e o que diz a tese de Max Weber sobre a ética protestante
- Os interesses políticos por trás da ruptura de Henrique VIII com Roma e o papel de Elizabeth I no fortalecimento das burguesias
- As fases da Revolução Inglesa, de Carlos I e Cromwell à Revolução Gloriosa e ao Bill of Rights
- Por que, para o professor, o iluminismo nasce na Inglaterra com John Locke, e como chega à Revolução Americana
- O que distingue produção artesanal, manufatura e indústria, e por que a Revolução Industrial começou na Inglaterra
- As causas e as três fases da Revolução Francesa, com o papel de jacobinos e girondinos, até o 18 Brumário
Por que estudar isso hoje
Parlamento, separação de poderes, república presidencialista, declaração de direitos, livre mercado: boa parte das instituições e ideias com que ainda pensamos a política e a economia nasceu nos conflitos que este curso percorre. Conhecer essa história é perceber que nada disso é natural nem inevitável: foi conquistado, muitas vezes com violência, por uma camada social que tinha dinheiro e queria poder.
O curso também ajuda a desfazer simplificações comuns, como a de que Henrique VIII rompeu com Roma só por causa de um divórcio, a de que a Guerra dos Trinta Anos foi apenas religiosa ou a de que a Inconfidência Mineira se inspirou na Revolução Francesa. E lembra que, onde a burguesia venceu, seus valores entraram no DNA do Ocidente: entender como isso aconteceu é entender melhor o mundo em que vivemos.
As 9 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
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Aula 1 Do homem renascentista às revoluções burguesas
As revoluções burguesas decorrem das novas crenças do homem renascentista, analisadas à luz de Ortega y Gasset, como o antropocentrismo e o progresso material acima do espiritual, e do pensamento político de Maquiavel, Bodin, Bossuet e Hobbes. Nesse processo, a burguesia ganha força até a Revolução Inglesa.
Da etimologia de 'revolução', que vem de revolver, ao lema absolutista 'um rei, uma fé, uma lei', a introdução oferece conceitos básicos para acompanhar o curso.
revoluções burguesasRenascimentoabsolutismoantropocentrismoburguesia8 min -
Aula 2 A burguesia entre o mercantilismo e o absolutismo
Panorama das quatro revoluções burguesas (Inglesa, Americana, Industrial e Francesa) a partir da origem medieval da burguesia nos burgos. Mostra como essa camada, rica mas sem poder político, ganhou força ao executar o mercantilismo criado pelos reis absolutistas, que acabariam derrubados por ela.
Inclui um alerta sobre anacronismo: comerciantes existiam na Mesopotâmia e no Egito, mas só se pode falar em burguesia a partir da Idade Média europeia.
burguesiamercantilismoabsolutismoanacronismorevoluções burguesas15 min -
Aula 3 Protestantismo, invenções e a ascensão burguesa
Bússola, pólvora, relógio e prensa favorecem a burguesia, ilustrando a frase associada a McLuhan: “os homens criam as ferramentas e as ferramentas recriam os homens”. Com Weber, o protestantismo aparece como a religião que, sem a condenação católica à usura, atrai os burgueses e se expande até a Inglaterra anglicana.
Explica por que, na visão do professor, o anglicanismo é o protestantismo mais próximo do catolicismo: Henrique VIII precisou transformar aos poucos a fé de um reino católico havia séculos.
protestantismousuraMax Weberanglicanismoinvenções16 min -
Aula 4 Dos Tudor aos Stuart: parlamento e burguesias inglesas
Henrique VIII rompe com Roma menos pelo divórcio do que para ampliar seu poder, repartindo terras da Igreja entre nobres e parlamentares. Elizabeth I vende monopólios e protege corsários, fortalecendo as burguesias mercantil e financeira, até a chegada dos Stuart com Jaime I.
O parlamento inglês não nasceu com a Revolução Inglesa: tem raízes na Magna Carta de 1215, imposta a João Sem Terra para conter os gastos e os poderes da Coroa.
Henrique VIIIMagna Cartaparlamento inglêsElizabeth Imonopólios17 min -
Aula 5 Carlos I, puritanos e a Revolução Inglesa
Carlos I fecha o parlamento e vende monopólios só à burguesia financeira, afastando a burguesia mercantil, a gentry e os puritanos de Oliver Cromwell. Em paralelo à Guerra dos Trinta Anos, o conflito leva à prisão do rei e à ascensão de Cromwell.
A Guerra dos Trinta Anos não foi apenas de católicos contra protestantes, lembra o professor: a França católica saiu vencedora ao lado de potências protestantes.
Carlos IOliver Cromwellpuritanosgentrydiggers e levellers16 min -
Aula 6 Cromwell, restauração e Revolução Gloriosa
A execução de Carlos I em 1649, lida como separação simbólica da cabeça do corpo social, abre a ditadura de Cromwell, com o Ato de Navegação e a perseguição a antigos aliados. Seguem a restauração dos Stuart e a Revolução Gloriosa, cujo Bill of Rights funda a monarquia parlamentar.
Antes de subir ao cadafalso, Carlos I pediu uma peça de roupa a mais, para que o povo não confundisse seu tremor de frio com medo.
Oliver CromwellAto de NavegaçãoRevolução GloriosaBill of Rightsmonarquia parlamentar15 min -
Aula 7 Iluminismo inglês e a Revolução Americana
O iluminismo nasce na Inglaterra, defende o professor, com os Dois Tratados sobre o Governo Civil de John Locke, depois da revolução. Os impostos do rei George sobre os colonos levam à independência americana, que adapta Montesquieu na república presidencialista, e o apoio francês sai caro.
Cita a frase atribuída ao rei George, “matem alguns, mas não matem os líderes”, para mostrar o pragmatismo inglês que manteve o comércio com os novos Estados Unidos.
iluminismoJohn LockeRevolução AmericanapresidencialismoMontesquieu13 min -
Aula 8 Revolução Industrial: do artesanato à máquina a vapor
A Revolução Industrial, revolução no modo de produção, começa na Inglaterra porque a Revolução Inglesa removeu os entraves à burguesia. A aula distingue produção artesanal, manufatura e indústria e mostra o salto trazido pelo vapor de James Watt, o nascimento do marketing e o imperialismo britânico.
Abre com uma provocação: o século XVIII, tão fértil em economia, teria sido árido em beleza artística depois de Caravaggio e Velázquez.
Revolução Industrialmanufaturamáquina a vaporimperialismo britânico17 min -
Aula 9 Revolução Francesa: panorama da Bastilha ao Brumário
Panorama da Revolução Francesa: sociedade de três estados, ideais iluministas de Rousseau e Montesquieu e causas econômicas e políticas da crise. Percorre a tomada da Bastilha, a fase constitucional, o Terror jacobino de Robespierre, o Diretório e o golpe do 18 Brumário, com que Napoleão encerra a revolução.
Desfaz um equívoco: a Inconfidência Mineira, desbaratada meses antes da queda da Bastilha, não poderia ter se inspirado na Revolução Francesa, embora ambas bebam do iluminismo.
Revolução Francesatrês estadosTerrorDiretório18 Brumário18 min
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Curiosidades sobre o tema
O Parlamento inglês não é filho da Revolução Inglesa: é uma instituição medieval. Suas raízes estão na Magna Carta de 1215, que nobres e clero impuseram a João Sem Terra para limitar os poderes e os gastos da Coroa. A revolução do século XVII reconfigurou uma instituição que já tinha séculos.
O fish and chips não é tão antigo quanto parece: a batata, nativa das Américas, só chegou à Europa depois das grandes navegações, e o prato se firmou na Inglaterra apenas no século XIX. No curso, a história da alimentação serve de exemplo de como mudanças econômicas podem alterar até os hábitos à mesa.
Em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, Max Weber aponta uma afinidade entre a ética protestante e o espírito do capitalismo. O curso usa a tese para explicar por que regiões protestantes, e não Portugal, Espanha ou os reinos italianos, puxaram o desenvolvimento econômico moderno.
Henrique VIII não rompeu com Roma só por causa de Ana Bolena. A Igreja Católica controlava cerca de um quinto das terras da Inglaterra — e o rei precisava desse território para comprar a lealdade dos nobres.
Maria I da Inglaterra, meia-irmã mais velha de Elizabeth I, ganhou o apelido de “Maria Sangrenta” pelas perseguições religiosas do seu breve reinado. Uma das versões mais repetidas diz que o drink Bloody Mary homenageia a rainha, mas a origem do nome é incerta.
A palavra “greve” vem da Place de Grève, em Paris, praça à beira do Sena cujo nome se refere à margem de areia e cascalho do rio (grève, em francês). Ali se reuniam trabalhadores à procura de serviço, e “fazer greve” passou a designar a paralisação do trabalho. No curso, a praça aparece como um dos palcos da agitação de julho de 1789.
Os “Dois Tratados sobre o Governo Civil”, de John Locke, foram publicados em 1689, no desfecho da Revolução Inglesa. Para o professor, é um caso raro em que a teoria nasce do ato, e não o ato da teoria: o iluminismo sai dos escombros de uma revolução que não teve teoria prévia.
O lema “um rei, uma fé, uma lei”, antigo adágio da monarquia francesa que o curso associa a Bossuet, teórico do direito divino dos reis, parece feito para a Inglaterra de Henrique VIII, observa o professor: ali um rei criou a sua própria fé e impôs a sua própria lei.
Em 30 de janeiro de 1649, um dia gelado em Londres, Carlos I vestiu uma camisa a mais antes de subir ao cadafalso: não queria que o povo tomasse o tremor de frio por medo. Para o professor, cortar a cabeça do rei, cabeça do corpo social, foi o gesto simbólico que abriu a república de Cromwell.
O kilt escocês nasceu no fim do século XVI como uma grande manta de lã presa à cintura por um cinto, o great kilt; a versão curta, mais parecida com a saia de hoje, só se firmou por volta do século XVIII. No curso, o traje aparece como exemplo de como a economia da lã marcou até o vestuário das ilhas britânicas.
Ortega y Gasset escreveu que para diagnosticar a existência de um homem, de um povo ou de uma época, é preciso começar identificando o sistema de suas convicções e crenças. Aplicar essa lente ao homem renascentista é entender por que as revoluções burguesas eram quase inevitáveis.
Oliver Cromwell chegou ao poder pela mão do Parlamento e, em 1653, dissolveu esse mesmo Parlamento. Recusou a coroa, aceitou o título de Lorde Protetor e governou com mais poder do que muitos reis — perseguindo, inclusive, antigos aliados, como os niveladores e os escavadores.
A frase “os homens criam as ferramentas e as ferramentas recriam os homens”, associada a Marshall McLuhan, abre uma das aulas. Bússola, pólvora, prensa e relógio fizeram exatamente isso entre os séculos XV e XVIII — e a burguesia foi a principal beneficiária dessa recriação.
No exemplo dado no curso, uma manufatura inglesa que produzia cerca de 340 jardas de tecido por semana passou a mais de 1.200 quando o vapor chegou às fiandeiras. Com tanto produto no mercado, era preciso convencer alguém a comprar tudo aquilo: para o professor, é aí que o marketing ganha força.
Adam Smith publicou “A Riqueza das Nações” em 1776, o mesmo ano da Declaração de Independência dos Estados Unidos. No curso, Smith e sua “mão invisível do mercado” aparecem como sinal de que, depois das quatro revoluções, as ideias burguesas já estavam no centro da vida econômica.
Os colonos americanos que jogaram chá no porto de Boston se disfarçaram de indígenas. Como observa o professor com bom humor: imagine um descendente de inglês, pele branca, vestido de índio — não convence nem criança. O disfarce era simbólico, não eficaz.
A França ajudou, com dinheiro, navios e soldados, a independência dos Estados Unidos, apostando que assim arruinaria a economia inglesa. Mas ingleses e americanos logo retomaram o comércio, e a dívida da guerra pesou nas finanças da Coroa francesa às vésperas de 1789. O tiro saiu pela culatra.
Durante o Terror, na França revolucionária, a semana ganhou dez dias, os meses receberam novos nomes (Brumário, Termidor, Floreal) e até as cartas de baralho mudaram de figura. A revolução queria refazer o calendário da própria existência.
Em “A Ascensão do Dinheiro”, Niall Ferguson conta como Nathan Rothschild, em Londres, organizou o envio de ouro que sustentou as tropas de Wellington e os aliados na fase final das guerras contra Napoleão. O curso cita o exemplo para mostrar o peso dos banqueiros no mundo que as revoluções burguesas ajudaram a criar.
Guilherme Almeida
Guilherme Almeida é professor há mais de 20 anos, graduado em história e especialista em história geral.
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