Os antigos Arquivos Secretos do Vaticano, rebatizados em 2019 de Arquivo Apostólico Vaticano, ocupam mais de 85 quilômetros de prateleiras, com livros, pergaminhos e documentos de toda ordem. É num acervo desse tamanho que um único documento, como o Manuscrito de Chinon, pode mudar o que se sabia sobre um tema.
Como Estudar História
O que é a história, como ela é escrita e como estudá-la com método, sem cair em anacronismos e narrativas prontas.
Professor Raphael TononDo que trata o curso
Não dá para estudar história sem saber antes o que ela é. O curso começa por aí: Raphael Tonon parte de Heródoto, que reuniu numa obra a memória do passado para formar os jovens gregos, e mostra por que a história é ciência, mas não exata. Ela reconstrói o passado por aproximação e muda quando surge um documento novo, como o Manuscrito de Chinon, que alterou o que se dizia sobre o fim dos templários. Contra a visão positivista, que reduz a história a grandes personagens e grandes feitos, o curso adota a definição de Marc Bloch e Jacques Le Goff: o estudo do homem e de sua ação no tempo.
Daí o percurso passa por Tucídides e o primeiro método crítico das fontes, pela cronologia como primeiro passo de qualquer estudo e pelas correntes historiográficas, do positivismo à Escola dos Annales e à Nova História. O professor distingue o tempo cronológico, de divisões arbitrárias, do tempo histórico, das permanências, e aponta o anacronismo como o grande inimigo de quem lê o passado. Com Peter Burke e Carlo Ginzburg, discute o que faz um bom historiador e para que serve a história, e mostra como narrativas recortadas, dos mitos escolares aos best-sellers, manipulam a memória.
A parte final é prática. Depois de tratar da militância no ensino, e de aconselhar o estudo paralelo em vez do confronto, o curso propõe um método (ler todos os dias, interpretar, cruzar informações e meditar sobre o que se leu, com leituras simultâneas) e um roteiro de 21 passos: não se fechar em poucos autores, cultivar a honestidade intelectual, montar uma lista de clássicos de Heródoto a Frei Vicente do Salvador, fixar metas pequenas e constantes, resumir à mão, aprender idiomas, conferir autores e bibliografias e confrontar visões divergentes. Não há atalho, insiste o professor: estudar é um processo lento, e o objetivo não é acumular dados, mas tornar-se melhor.
Para quem é
- Pais que educam os filhos em casa e precisam de uma base segura para ensinar história
- Universitários que querem estudar por conta própria e ler com critério o que ouvem em sala
- Autodidatas que gostam de história, mas ainda não têm método para avaliar autores e fontes
- Estudantes de filosofia, direito ou ciências que precisam situar autores e descobertas no seu tempo
- Quem quer começar uma vida de estudos séria, sem atalhos nem receitas prontas
Veja uma aula antes de decidir
O que você vai aprender
- Por que a história é ciência, mas não exata, e como um único documento pode mudar a historiografia
- O que separa a visão positivista da definição de Marc Bloch e Jacques Le Goff: o homem e sua ação no tempo
- Como distinguir positivismo, Escola dos Annales e Nova História, e reconhecer a linha de um autor
- Por que a cronologia é o primeiro passo de qualquer estudo, até de filosofia e ciências
- A diferença entre tempo cronológico e tempo histórico, e como evitar o anacronismo
- Os traços do bom historiador segundo Peter Burke e as funções da história em Burke e Carlo Ginzburg
- Como narrativas recortadas manipulam a memória e por que ler autores de linhas diferentes
- Por que começar por obras narrativas e fontes primárias antes das interpretações críticas
- Um roteiro de 21 passos: metas diárias, leitura simultânea, meditação, resumos à mão, idiomas e checagem de autores e bibliografias
- Uma lista inicial de clássicos, de Heródoto e Tucídides a Frei Vicente do Salvador e aos historiadores do Brasil
Por que estudar isso hoje
Nunca foi tão fácil encontrar versões do passado, em vídeos, livros de sucesso e discussões nas redes, e tão difícil saber em qual confiar. Muitas se sustentam só porque parecem lógicas: o papa que teria mandado matar os gatos da Europa, o imperador que teria morrido de sífilis, a frase que Galileu teria murmurado depois do julgamento. O curso ensina a fazer a pergunta que desmonta essas histórias: onde está o documento?
Mas o método vai além da checagem. Quem aprende a situar um fato no seu tempo, a desconfiar do anacronismo e a ler autores de linhas diferentes passa a julgar o passado com mais justiça e o presente com mais lucidez. Para os pais que educam em casa, é a base para ensinar história aos filhos sem repetir narrativas prontas; para qualquer estudante, é o começo de uma vida intelectual construída com paciência, e não com fórmulas.
As 8 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
-
Aula 1 Conceito de história: de Heródoto a Le Goff
A história é ciência em movimento, não exata: reconstrói o passado por aproximação e muda com novos documentos, como o Manuscrito de Chinon. Contra a visão positivista, adota-se a definição de Le Goff, estudo do homem e sua ação no tempo, e Heródoto ilustra o uso formativo do passado.
A história dos dois espartanos que foram à Pérsia oferecer a vida, mas não a honra, mostra como Heródoto narrava para formar os jovens.
conceito de históriapositivismoHeródototempláriosdocumentos34 min -
Aula 2 Cronologia: o primeiro passo para estudar história
Separada da filosofia só no século XIX, a história tem método próprio, mas não dita o futuro, como argumenta Marc Bloch. Tucídides aparece como criador do primeiro método crítico, a cronologia como primeiro passo de estudo, e a Nova História como visão mais completa que a leitura sociológica materialista.
Kant, Mendel e o Teorema de Tales ilustram como conhecer o contexto histórico de um autor ou descoberta facilita entender até filosofia e matemática.
filosofia da históriacronologiaTucídidesNova Históriaideologia34 min -
Aula 3 Tempo cronológico, tempo histórico e anacronismo
Entre positivismo, Escola dos Annales e Nova História, esta aparece como a corrente mais abrangente, e Tucídides, ao analisar criticamente a Guerra do Peloponeso, vai além da narração de Heródoto. O tempo cronológico, de divisões arbitrárias, difere do tempo histórico, das permanências, e o anacronismo é o grande inimigo.
As Congadas, com cantos sobre lutas entre católicos e muçulmanos, aparecem como herança medieval viva no Brasil, um país que não teve Idade Média.
correntes historiográficastempo históricoperiodizaçãoanacronismopermanências36 min -
Aula 4 Estudo sem atalhos e o bom historiador
Longe das receitas rápidas, estudar é, como diz Santo Agostinho, um processo lento e doloroso de purificação moral, que exige disciplina e autoconhecimento. Georges Duby e Peter Burke embasam a discussão sobre o valor da história e o bom historiador, com critérios para avaliar autores e fontes.
Ler Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas ajuda a estudar história, defende o professor, porque alimenta a imaginação que Burke considera essencial ao bom historiador.
vida intelectualdisciplina de estudofunção da históriapapel do historiadorfontes47 min -
Aula 5 Funções da história e manipulação da memória
Segundo Peter Burke, a história deve preencher lacunas, analisar evidências com neutralidade e atentar aos detalhes, como mostram as exumações de Dom Pedro I e Leopoldina. Narrativas recortadas manipulam a memória, e a defesa é ler autores diversos, sem apologia nem criticismo cegos; Carlo Ginzburg completa as funções da história.
O mito de que o papa Gregório IX mandou matar os gatos e assim espalhou a peste negra é desmontado com uma pergunta simples: onde está o documento?
funções da históriamanipulação da memóriamitos históricosmicro-históriaDom Pedro II39 min -
Aula 6 Militância no ensino e a verdade histórica
Com o ensino de história ideologizado e professores que se veem mais como agentes políticos que como mestres, o melhor é estudar por conta, sem confrontos, e compartilhar o que se aprende. Aprender fatos antes de interpretações, argumentar com base sólida e cultivar humildade e constância completam o percurso.
Quando estudante, o professor passou a tirar só nota seis depois de confrontar um docente que trocava filosofia política pela história de um partido.
ideologização do ensinomilitânciafatos e narrativasGalileuhumildade intelectual30 min -
Aula 7 Ler, interpretar e meditar: caminhos para estudar história
Estudar história exige leitura diária, esforço interpretativo e cruzamento de informações, meditando sobre o lido, com o objetivo de tornar-se melhor, e não só acumular dados. Somam-se a leitura simultânea de vários livros, a distinção entre bibliografia primária e secundária e os primeiros de 21 passos, como honestidade intelectual.
Freiras que beijavam a abadessa ao professar votos e o 'selinho' dos juramentos feudais mostram como gestos mudam de sentido ao longo do tempo.
leiturainterpretaçãomeditaçãoleitura simultâneahonestidade intelectual36 min -
Aula 8 Clássicos, metas e hábitos para estudar história
A segunda parte dos 21 passos para estudar história inclui montar uma lista de clássicos, de Heródoto a Frei Vicente do Salvador, buscar pares e mentores, fixar metas de leitura, resumir à mão, explorar outras áreas, música e idiomas, aproveitar o tempo, checar autores e bibliografias e confrontar visões divergentes.
Santo Afonso de Ligório lendo enquanto fazia a barba e um livro sobre a Idade Média que usava ficção como fonte ilustram dois dos conselhos finais.
clássicosmetas de leituraanotaçõesidiomasanálise de bibliografia52 min
Quanto você já sabe sobre Como Estudar História?
5 perguntas rápidas, sorteadas entre 30. Você vê a resposta na hora, com uma explicação curta. Dá para jogar quantas rodadas quiser.
Curiosidades sobre o tema
A famosa frase “Eppur si muove” (“E, no entanto, ela se move”), que Galileu teria murmurado depois de renegar suas ideias diante da Inquisição, não aparece em nenhum documento da época. Especialistas como Mariano Artigas e William Shea, que reconstruíram o processo a partir das atas, tratam o episódio como lenda.
Na Idade Média, o beijo na boca podia selar um compromisso público, como no juramento de fidelidade entre senhor e vassalo, sem nenhuma conotação erótica. O professor usa o exemplo, e a palavra “selinho”, para mostrar como um mesmo gesto muda de sentido ao longo do tempo.
Quem deseja iniciar uma vida intelectual séria precisa, antes de tudo, passar pelos clássicos universais: a Ilíada, a Odisseia, a Divina Comédia, as Confissões de Agostinho, a República de Platão. Estas obras dialogam com o leitor de qualquer época porque retratam a realidade humana em sua essência.
Em 2001, a historiadora italiana Barbara Frale localizou nos arquivos do Vaticano um pergaminho de 1308, publicado em 2007, que mudou a história dos templários: nele, três cardeais enviados pelo papa Clemente V absolvem Jacques de Molay e outros chefes da ordem. A execução de Molay, em 1314, foi obra do rei Filipe IV da França, e não do papa.
A exumação de D. Pedro I e da imperatriz Leopoldina, feita em 2012, derrubou lendas antigas. Não havia fratura alguma nos ossos de Leopoldina, o que desmente a versão de que ela teria quebrado o fêmur ao cair, ou ser empurrada, escada abaixo. Em D. Pedro, os exames acharam quatro costelas quebradas em quedas de cavalo, que podem ter agravado a tuberculose que o matou — e não a sífilis, como alguns chegaram a afirmar.
As Congadas, festas ligadas às antigas irmandades de negros de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, ainda sobrevivem em cidades de Minas Gerais, São Paulo e outras regiões. Em várias delas, cantos e danças com bastões evocam combates entre cristãos e mouros — uma herança medieval que chegou ao Brasil com os portugueses.
Immanuel Kant seguia uma rotina tão rígida de leitura, escrita e aulas que, segundo a tradição, os vizinhos de Königsberg acertavam o relógio pelo seu passeio diário. Para o curso, conhecer essa vida metódica ajuda a entender o método minucioso da Crítica da Razão Pura.
Jacques Le Goff, um dos maiores medievalistas do século XX e nome central da Nova História, não era homem de fé: declarava-se agnóstico. Ainda assim, escreveu biografias respeitosas e hoje clássicas de São Luís IX e de São Francisco de Assis, exemplo da isenção que o curso espera de um historiador.
Para o professor, toda ideologia, venha de que lado vier, afasta a pessoa da realidade: mascara os fatos, faz tomar o falso por verdadeiro e oferece narrativas que parecem lógicas, mas não se apoiam em documentos.
Heródoto conta que dois espartanos se ofereceram para ir à Pérsia e entregar a própria vida ao rei, em reparação pelo assassinato de arautos persas em Esparta. No curso, o episódio mostra para que Heródoto narrava o passado: formar os jovens no senso de honra e de pertença à cidade.
Segundo uma tradição antiga, a entrada da Academia de Platão advertia: “Não entre aqui quem não souber geometria”. O professor lembra que Platão via na matemática e na música caminhos para ordenar o raciocínio, e aconselha quem estuda a aprender sempre algo novo, de preferência no campo da música.
Conta-se que Santo Afonso de Ligório, um dos escritores mais fecundos do século XVIII, fazia a barba com a navalha numa mão e o livro na outra, para não perder tempo. Hoje, com fones de ouvido e podcasts, esse aproveitamento ficou ao alcance de qualquer um.
A história de que o Papa Gregório IX teria mandado matar todos os gatos da Europa, provocando a Peste Negra ao multiplicar os ratos, é fictícia. Não existe documento papal algum nesse sentido — mas a lenda circula até hoje em vídeos virais.
Filipe II da Macedônia confiou a educação do filho Alexandre ao filósofo Aristóteles. Segundo o curso, isso ajuda a entender por que Alexandre, ao formar seu império, espalhou a cultura grega pelos territórios conquistados, dando início ao período helenístico.
A ideia de uma “Idade Média” nasceu entre os humanistas do Renascimento, que chamavam de “médio” o período entre a Antiguidade, que admiravam, e o seu próprio tempo. Como toda periodização, é uma convenção de quem veio depois: ninguém, em 476, foi dormir na Antiguidade e acordou na Idade Média.
Em “Como Ler Livros”, Mortimer Adler propõe uma regra que o curso retoma: antes de concordar ou discordar de um autor, é preciso poder dizer, com honestidade, “eu entendi”. Para o professor, concordar ou discordar depressa demais é uma das mazelas do nosso tempo.
O Código Da Vinci abre com uma nota que apresenta como exatas as descrições de documentos e rituais secretos do romance, e muitos leitores tomaram por história a tese de que a dinastia merovíngia, surgida no século V, guardaria a descendência de Jesus. Para o professor, é o tipo de narrativa que convence por parecer lógica; a defesa é montar a cronologia e perguntar pelos documentos.
A Constituição de 1824, do Brasil monárquico, foi a mais duradoura da história do país: vigorou por 65 anos, até a proclamação da República. Desde então, o Brasil já teve seis constituições.
Raphael Tonon
Raphael Tonon é professor há mais de 18 anos, formado em filosofia e em história, com experiência na rede estadual paulista e no ensino particular.
Cursos relacionados
Temas vizinhos, próximos passos da trilha e cursos da mesma área.
História das Mentalidades Evandro Faustino 14 aulas
Brasil: Mapas e Cartas Jorge Pimentel Cintra 6 aulas
Gregos: o Fundamento do Ocidente Guilherme Almeida 6 aulas
Alta Idade Média Guilherme Almeida 4 aulas
O Fim da Educação Fausto Zamboni 15 aulas
Baixa Idade Média Guilherme Almeida 3 aulas
Revoluções Burguesas Guilherme Almeida 9 aulas
Era Napoleônica Guilherme Almeida 3 aulas Comece agora
Compre só este curso ou escolha o Acesso Completo e estude todos os 37 cursos da Tutora.
Como Estudar História
R$ 199,40
à vista ou parcelado no cartão
- 8 aulas em vídeo (5h08)
- 7 dias de garantia
- Compra segura pela Hotmart
Os 37 cursos da Tutora
R$ 598,80
por ano, em até 12x no cartão
- Acesso a todos os 37 cursos do catálogo
- Plano anual: renova até você cancelar
- 7 dias de garantia
- Compra segura pela Hotmart
Na Hotmart, aparece como “Cursos da Tutora”.