A Revolta de Nika terminou num massacre: em 532, os revoltosos reunidos no hipódromo de Constantinopla foram encurralados pelas tropas de Justiniano, e milhares morreram ali mesmo. Para o curso, foi o ponto de partida da centralização de seu poder.
Império Bizantino
De Justiniano ao Cisma de 1054: como o Império Romano do Oriente sobreviveu ao Ocidente e o que deixou ao mundo cristão.
Professor Guilherme AlmeidaDo que trata o curso
O Império Bizantino, também chamado Império Romano do Oriente, foi o último grande movimento do poder de Roma. É assim que o professor Guilherme Almeida o apresenta neste curso breve e introdutório, continuação do curso sobre Roma. Por que o Ocidente caiu e o Oriente resistiu? Para o professor, a resposta está na economia: o Ocidente vivia da agricultura e atraía povos germânicos em busca de terras férteis, enquanto o Oriente vivia do comércio, com Constantinopla em posição privilegiada no estreito do Bósforo, entre o Mar Negro e o Mediterrâneo.
A primeira aula se concentra em Justiniano, que governou de 527 a 565. Sob ele, o império atinge sua maior extensão, com domínios no norte da África e na Itália; a Hagia Sofia se ergue como a maior igreja da cristandade de seu tempo; as leis romanas são reunidas no Corpus Juris Civilis; e a Revolta de Nika, esmagada em 532, abre caminho para um poder que se quer ao mesmo tempo temporal e espiritual, o cesaropapismo.
A segunda aula trata das correntes religiosas que agitaram o mundo bizantino (iconoclastas, monofisistas e arianos), da expansão islâmica a partir de 622, que faz o território do império encolher, e do Cisma de 1054, que separa a Igreja de Constantinopla, a Ortodoxa, da Igreja de Roma. O curso termina explicando por que a Ortodoxia se firmou na Rússia e por que o cristianismo não ganhou no Oriente a força que teve no Ocidente dos francos.
Para quem é
- Quem fez o curso sobre Roma e quer saber o que aconteceu com a metade oriental do Império
- Quem procura uma primeira visão, breve e clara, do Império Bizantino
- Católicos e ortodoxos interessados nas origens do Cisma de 1054
- Quem se pergunta por que o islã se firmou em antigas terras cristãs do Oriente
- Pais e educadores que querem situar Bizâncio entre a Antiguidade e a Idade Média
O que você vai aprender
- Por que, segundo o curso, o Império do Ocidente caiu e o do Oriente resistiu: agricultura de um lado, comércio do outro
- A posição estratégica de Constantinopla, no Bósforo, entre o Mar Negro e o Mediterrâneo
- Quem foi Justiniano e como seu império chegou à maior extensão, do norte da África à Itália
- O que foi o Corpus Juris Civilis, a compilação das leis romanas feita sob Justiniano
- O que foram a Revolta de Nika e o cesaropapismo, a união dos poderes temporal e espiritual no imperador
- A história da Hagia Sofia, de igreja a mesquita, museu e de novo mesquita
- O que distinguia iconoclastas, monofisistas e arianos
- Como a expansão islâmica, a partir de 622, fez o Império Bizantino encolher
- O que foi o Cisma de 1054 e por que a Igreja Ortodoxa é tão forte na Rússia
- Por que o cristianismo não teve no Oriente a força que ganhou no Ocidente dos francos
Por que estudar isso hoje
Bizâncio costuma ficar à sombra de Roma e da Europa medieval, mas é por ele que passam heranças decisivas. Foi sob Justiniano que as leis romanas foram reunidas no Corpus Juris Civilis, fonte de um direito ainda estudado hoje; foi em Constantinopla que se ergueu a Hagia Sofia, cuja história, de igreja a mesquita, museu e de novo mesquita, acompanha as viradas da relação entre Oriente e Ocidente.
O curso também ajuda a responder a perguntas que continuam atuais: por que a Rússia é ortodoxa, por que o islã se firmou em terras onde antes predominava o cristianismo, por que cristãos do Oriente e do Ocidente seguem caminhos distintos desde 1054. Em pouco tempo, oferece uma primeira chave de leitura para essas questões e um elo entre o estudo de Roma e o da Idade Média.
As 2 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
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Aula 1 Justiniano e o apogeu do Império Bizantino
Por que o Oriente sobreviveu à queda do Ocidente: a economia comercial e a posição de Constantinopla no Bósforo, diante de um Ocidente agrícola que atraía os germânicos. Sob Justiniano, o império chega à maior extensão, ergue a Hagia Sofia, reúne as leis romanas no Corpus Juris Civilis e esmaga a Revolta de Nika.
Acompanha o destino da Hagia Sofia, cujos mosaicos foram cobertos de gesso depois que ela virou mesquita e voltaram à vista quando Atatürk a fez museu.
ConstantinoplaJustinianoHagia SofiacesaropapismoRevolta de Nika14 min -
Aula 2 Heresias, expansão islâmica e o Cisma do Oriente
Três correntes religiosas que agitaram o mundo bizantino, iconoclastas, monofisistas e arianos, e a expansão islâmica que, a partir de 622, faz o império encolher. O Cisma de 1054 separa a Igreja Ortodoxa de Roma, e a ligação com a Rus de Kiev explica a força da Ortodoxia na Rússia.
Responde por que o cristianismo não se expandiu no Oriente como na Europa Ocidental, onde os francos deram à Igreja poder político, territorial e simbólico.
iconoclastiamonofisismoarianismoexpansão islâmicaCisma do Oriente10 min
Quanto você já sabe sobre Império Bizantino?
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Curiosidades sobre o tema
A marca esportiva Nike tem o nome da deusa grega da vitória. Da mesma raiz vem o grito “Nika!” (“vence!”), que batizou a revolta de 532 em Constantinopla, quase quinze séculos antes de existir um tênis.
A Hagia Sofia já foi igreja cristã, mesquita, museu e voltou a ser mesquita: quatro vidas em quase quinze séculos, e continua de pé.
Depois que a Hagia Sofia virou mesquita, muitos de seus mosaicos não foram destruídos, mas cobertos de gesso. Foi isso que permitiu redescobri-los e restaurá-los no século XX, quando Atatürk transformou o edifício em museu.
O Corpus Juris Civilis, compilado por ordem de Justiniano no século VI, reuniu leis da República e do Império Romano. Quase quinze séculos depois, continua a ser estudado nas faculdades de Direito.
Monofisistas e arianos erravam em direções opostas, segundo a Igreja: os primeiros viam em Cristo só a natureza divina; os segundos negavam que ele fosse plenamente Deus. O monofisismo teve a proteção da imperatriz Teodora; o arianismo era a fé dos reinos germânicos que Justiniano combateu.
Da Hégira, em 622, à morte de Maomé, em 632, passaram-se só dez anos, e praticamente toda a Península Arábica já estava sob domínio islâmico. Em cerca de um século, os exércitos muçulmanos chegavam à Península Ibérica e ao reino dos francos.
Istambul, a antiga Constantinopla, se estende pelas duas margens do Bósforo: atravessar o estreito de barco é, literalmente, passar da Europa para a Ásia. Não por acaso, o curso descreve a cidade como a parte mais oriental da Europa e a mais europeia do Oriente.
A Ortodoxia russa não nasceu na Rússia: veio de Constantinopla, adotada pelo príncipe Vladimir, da Rus de Kiev, no fim do século X. Depois da queda de Constantinopla, em 1453, Moscou passaria a ser apresentada como a “terceira Roma”.
O arianismo de Ário, presbítero de Alexandria no século IV, não tem nada a ver com a “raça ariana” do nazismo. Um vem do nome do sacerdote; o outro, de arya, termo sânscrito de que o racismo pseudocientífico do século XIX se apropriou.
Em 1054, o legado do papa, o cardeal Humberto, depositou sobre o altar da Hagia Sofia a bula que excomungava o patriarca Miguel Cerulário, que respondeu excomungando os legados. As excomunhões só foram levantadas em 1965, pelo papa Paulo VI e pelo patriarca Atenágoras.
Antes da expansão islâmica, Síria, Egito e Anatólia eram regiões majoritariamente cristãs. Para o curso, o cristianismo recuou no Oriente porque o islã tomou os antigos domínios bizantinos e porque ali a Igreja não encontrou o apoio que os francos lhe deram no Ocidente.
O curso abre com uma provocação: Roma não teria caído em 476, mas em 1806, quando, depois da vitória de Napoleão em Austerlitz, os Habsburgos dissolveram o Sacro Império Romano-Germânico, último herdeiro do título imperial romano no Ocidente.
O Império Bizantino caiu, mas o direito romano que Justiniano mandou compilar segue moldando contratos, heranças e processos nos países de tradição romano-germânica, como o Brasil.
Justiniano chegou ao trono graças ao tio, Justino, um camponês que fez carreira como soldado até se tornar imperador. Segundo o historiador Procópio, Justino mal sabia escrever o próprio nome.
Em português, “discussão bizantina” é aquela que se perde em sutilezas inúteis. A expressão alude às longas controvérsias teológicas do Império Bizantino, como as que o curso apresenta sobre as imagens e a natureza de Cristo.
Os mosaicos da Basílica de São Vital, em Ravena, concluídos por volta de 547, mostram Justiniano e Teodora cercados por suas cortes. Quase quinze séculos depois, continuam sendo a imagem mais conhecida do casal imperial.
Guilherme Almeida
Guilherme Almeida é professor há mais de 20 anos, graduado em história e especialista em história geral.
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