Napoleão tratava a religião como questão de governo. Em 1800, diante do Conselho de Estado, disse: “Foi me fazendo católico que acabei com a guerra da Vendeia, me fazendo muçulmano que me estabeleci no Egito (...). Se governasse o povo judeu, reconstruiria o templo de Salomão.”
Era Napoleônica
Napoleão do Consulado aos Cem Dias: o carisma, o Estado forte e as guerras que redesenharam a Europa.
Professor Guilherme AlmeidaDo que trata o curso
Napoleão divide os franceses até hoje, entre paixões contra e a favor. Guilherme Almeida o apresenta como figura de passagem: filho das revoluções burguesas, ele fecha o século XVIII e abre o XIX. O curso parte da Córsega e da escola militar de Brienne e mostra como, desde a ponte de Arcole, o jovem general se tornou um líder a quem os soldados eram mais fiéis do que à própria República. No caos do Diretório, o 18 Brumário o leva ao Consulado, e a dominação carismática de Max Weber ajuda a entender um apelo que atravessava todas as camadas sociais.
A segunda aula acompanha o Consulado como a construção de um Estado forte: o Código Civil, que favorece a propriedade e a burguesia; a concordata, que reaproxima a Igreja, mas a submete ao Estado; o Banco da França, os liceus, o investimento no exército, na marinha e nas ciências; a Paz de Amiens com a Inglaterra. O professor destaca a habilidade de Napoleão para falar a todos os grupos sociais e cercar-se de articuladores como Talleyrand e Fouché, e mostra o caminho até o Império e a escolha do título de imperador, e não de rei.
A última aula vai do apogeu à queda. A autocoroação em Notre-Dame, lida no grande quadro de Jacques-Louis David, põe o poder temporal acima do espiritual. Vêm Austerlitz e Iena e o impasse com a Inglaterra, senhora dos mares: o bloqueio continental leva à invasão de Portugal, que traz a família real ao Brasil, e à desastrosa campanha da Rússia. O percurso termina com a abdicação, Elba, os Cem Dias, Waterloo, lida com a ajuda de Stefan Zweig, o exílio em Santa Helena e o Congresso de Viena.
Para quem é
- Quem quer entender a passagem do século XVIII para o XIX e o desfecho do ciclo revolucionário francês.
- Estudantes que buscam uma visão de conjunto do período napoleônico, além do livro didático.
- Quem quer saber por que a vinda da família real portuguesa ao Brasil passa pela política de Napoleão.
- Interessados em liderança, carisma e na construção simbólica do poder.
- Quem acompanhou os cursos do professor sobre as revoluções burguesas e o mercantilismo e quer seguir adiante.
O que você vai aprender
- As três fases do governo napoleônico (Consulado, Império e Cem Dias) e o que marca cada uma.
- Como a ascensão de Napoleão, de Arcole ao 18 Brumário, se explica pelo carisma, à luz da dominação carismática de Max Weber.
- Como o Consulado construiu um Estado forte: Código Civil, concordata com a Igreja, Banco da França, liceus, exército e marinha.
- O papel de articuladores como Talleyrand e Fouché e o caminho do Consulado ao Império, até o plebiscito de 1804.
- Por que Napoleão se fez imperador, e não rei, e o que simboliza a autocoroação em Notre-Dame.
- Como ler o quadro da coroação de Jacques-Louis David e outros retratos como peças de propaganda política.
- O que foi o bloqueio continental e como ele levou a família real portuguesa ao Brasil.
- Por que a campanha da Rússia, diante da tática de terra arrasada, marcou o início do fim.
- Como se deu a queda: abdicação, Elba, Cem Dias, Waterloo, Santa Helena e Congresso de Viena.
Por que estudar isso hoje
Muito do que ainda nos cerca passa por Napoleão: o Estado centralizado, que organiza a economia, a educação e as leis; o Código Civil; a figura do líder que se legitima pelo carisma e pelo voto popular, e não pelo sangue. Estudar o período é entender como a Revolução Francesa terminou e como começou a Europa do século XIX, redesenhada por suas guerras e, depois, pelo Congresso de Viena.
Para nós, brasileiros, há ainda um laço direto: foi o bloqueio continental que trouxe a família real portuguesa para o Brasil e pôs em marcha o caminho da independência. E a trajetória de Napoleão, do general que se mistura aos soldados ao imperador que deixa de ouvir seus conselheiros, é também uma lição sobre os usos e os limites do poder carismático.
As 3 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
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Apresentação do curso Napoleão entre a era moderna e a contemporânea
Apresentação do curso, que divide o período napoleônico em Consulado, Império e Cem Dias e mostra Napoleão como governante quase absoluto, capaz de dialogar ao mesmo tempo com Igreja, nobreza, burguesia e povo.
A derrota de Napoleão e o Congresso de Viena, sugere o professor, inauguraram de certo modo o direito internacional e as organizações entre nações.
Napoleão BonaparteConsuladoImpérioCem DiasCongresso de Viena3 min -
Aula 1 A ascensão de Napoleão até o Consulado
Da Córsega e da escola militar de Brienne à ponte de Arcole, onde nasce sua lenda, Napoleão conquista soldados mais fiéis a ele que à República. No caos do Diretório, o 18 Brumário cria o Consulado; a dominação carismática de Weber explica seu apelo, reforçado pela Paz de Amiens e por reformas internas.
Um general que desce do cavalo, ergue o estandarte caído e avança à frente da tropa: a cena de Arcole explica a devoção dos soldados a Napoleão.
Napoleão BonaparteDiretório18 BrumárioConsuladoliderança carismática17 min -
Aula 2 O Consulado e a construção do Estado napoleônico
No Consulado (1799-1804), Napoleão fortalece o Estado com o Código Civil, a concordata com a Igreja, o Banco da França e o investimento militar e científico. Cercado de articuladores como Talleyrand e Fouché, explora politicamente um atentado, fecha jornais e chega, pelo plebiscito de 1804, ao título de imperador.
Por que imperador, e não rei? Sem sangue real, explica o professor, Napoleão só podia receber do povo o título imperial, enquanto a realeza supõe dinastia.
ConsuladoCódigo CivilconcordataTalleyrand e Fouchéplebiscito de 180419 min -
Aula 3 Apogeu e queda do Império napoleônico
A autocoroação, analisada no quadro de David, simboliza o poder temporal acima do espiritual. O Império se expande em Austerlitz e Iena, mas esbarra na Inglaterra: o bloqueio continental leva à invasão de Portugal e à campanha da Rússia, seguidas da abdicação, de Elba, dos Cem Dias, de Waterloo e de Santa Helena.
Stefan Zweig ajuda a ler Waterloo: a derrota teria dependido da obediência cega do marechal Grouchy, que preferiu cumprir ordens a marchar contra os prussianos.
autocoroaçãobloqueio continentalcampanha da RússiaWaterlooCem Dias30 min
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Curiosidades sobre o tema
A Córsega só passou a fazer parte da França um ano antes do nascimento de Napoleão. Por uma diferença de meses, o homem que se tornaria sinônimo da França nasceu, juridicamente, francês — seu irmão mais velho, Joseph, nascera antes da cessão da ilha.
A fama de baixinho de Napoleão é, em boa parte, um mito. Ele media 5 pés e 2 polegadas nas unidades francesas da época, cerca de 1,68 m, um pouco acima da média dos franceses de então. A confusão com as polegadas inglesas, menores, e as caricaturas britânicas ajudaram a encolhê-lo.
Max Weber, em “Economia e Sociedade”, classifica três tipos de dominação: legal, tradicional e carismática. Napoleão é um dos casos mais perfeitos do terceiro tipo na história moderna — seu poder vinha menos do cargo do que da pessoa.
No painel da coroação, Jacques-Louis David colocou no balcão de honra a mãe de Napoleão. Só que ela não estava lá: tinha boicotado a cerimônia por desprezo à nora. O quadro mais famoso do reinado, portanto, é, em parte, ficção encomendada.
O famoso retrato de Napoleão com a mão sob o colete tem, ao fundo, um relógio marcando pouco mais das quatro. Não da tarde — da manhã. A vela acesa e curta indica que o imperador trabalhava antes do nascer do sol.
Promulgado em 1804, o Código Civil dos franceses, depois chamado Código Napoleão, serviu de modelo a códigos de muitos países da Europa e da América Latina e continua em vigor na França, com inúmeras reformas. Poucas leis influenciaram a vida cotidiana de tanta gente por tanto tempo.
Stefan Zweig, em “Momentos Decisivos da Humanidade”, dedicou um capítulo curto e fulminante a Waterloo. Sua tese: o império caiu por causa de minutos de hesitação de um general que obedecia demais.
Napoleão entrou na Rússia em 1812 com cerca de 600 mil soldados. Voltaram 30 mil. A maior parte das perdas não veio dos combates, mas da fome, do frio e das doenças, agravados por uma tática de terra arrasada que não dependia de bala.
Talleyrand foi bispo sob Luís XVI, deputado na Revolução, ministro das Relações Exteriores do Diretório e de Napoleão e, de novo, ministro com a volta de Luís XVIII. Os desafetos o chamavam de “rato traidor”. Sobreviveu a todos esses regimes e morreu em sua cama, em 1838.
A vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808 foi, em essência, um efeito colateral da política externa de Napoleão. O Bloqueio Continental contra a Inglaterra empurrou o príncipe regente D. João, futuro D. João VI, para o Atlântico — e a independência brasileira começou a ser desenhada ali.
A referência bibliográfica do curso é o “Napoleão” de Max Gallo, biografia romanceada em quatro volumes. É de Gallo a ideia, retomada nas aulas, de que a figura do grande líder começa a nascer na ponte de Arcole.
Na sagração de 1804, o papa Pio VII viajou de Roma a Paris para ungir Napoleão — e viu o imperador pôr a coroa na própria cabeça. Para o curso, o gesto põe o poder temporal acima do espiritual.
Joseph Fouché, ministro da polícia, votou pela morte de Luís XVI na Convenção. Anos depois, apoiou a elevação de Napoleão a imperador. Em 1815, ajudou a devolver o trono a Luís XVIII, irmão do rei guilhotinado. Política, para ele, era ofício, não convicção.
A palavra “chauvinismo”, usada hoje para qualquer fanatismo nacionalista, vem de Nicolas Chauvin — um soldado napoleônico (talvez fictício) cuja devoção cega ao imperador virou caricatura no teatro francês do século XIX.
Jacques-Louis David, o pintor oficial de Napoleão, havia sido antes o “pintor da Revolução” — autor de “A Morte de Marat”. Preso após a queda de Robespierre, deu a volta por cima e se tornou o primeiro pintor do imperador. A arte política costuma ser flexível quanto à fonte do poder, desde que o poder seja real.
Na anedota contada no curso, Caulaincourt se espanta com a calma de Napoleão diante de um relato preocupante e ouve a explicação: o imperador tinha 150 mil homens pagos e prontos nos quartéis para esmagar qualquer inimigo, sem precisar convocar ninguém.
O Hôtel des Invalides, onde repousa Napoleão hoje, foi originalmente um hospital construído por Luís XIV para abrigar soldados mutilados em batalha. O imperador que multiplicou as guerras dorme cercado dos veteranos das suas.
Os elegantes liceus franceses, que ainda existem como espinha dorsal do ensino secundário na França, foram criação napoleônica. O modelo se espalhou pelo mundo, inclusive influenciando o ensino médio brasileiro.
A minissérie “Napoléon” (2002), indicada no fim do curso, adapta justamente a biografia de Max Gallo. Tem Christian Clavier no papel principal, Isabella Rossellini como Josefina, Gérard Depardieu como Fouché e John Malkovich como Talleyrand.
Guilherme Almeida
Guilherme Almeida é professor há mais de 20 anos, graduado em história e especialista em história geral.
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