O Brasil foi elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves em 1815, no contexto do Congresso de Viena. Com a corte portuguesa instalada no Rio de Janeiro, a mudança dava novo status ao território numa América agitada por movimentos de independência, que as potências reunidas em Viena queriam conter.
O Grande Século XIX
Do Congresso de Viena ao atentado de Sarajevo, o século que desenhou o mundo contemporâneo.
Professor Guilherme AlmeidaDo que trata o curso
O século XIX não é só a ponte entre a Era Napoleônica e a Primeira Guerra Mundial: é o tempo em que se desenharam os contornos do mundo contemporâneo. Em seis aulas curtas, o professor Guilherme Almeida percorre o período com um olhar assumidamente centrado na Europa, e sobretudo na França, por entender que dali partiram as ordenações que marcaram também a África, a Ásia e as Américas.
O curso parte do Congresso de Viena, que tenta restaurar a Europa anterior a 1789, e acompanha a força crescente da burguesia liberal nas revoluções de 1830 e 1848. Mostra depois como a aliança entre burguesia e aristocracia gera o nacionalismo, com seu tripé de matérias-primas, mercados e mão de obra barata, e como ele impulsiona o imperialismo na África e na Ásia, as unificações da Itália e da Alemanha, a Guerra Franco-Prussiana e o revanchismo francês. A Comuna de Paris e a miséria dos operários de Londres e dos mineiros de carvão revelam o avesso da prosperidade.
O percurso passa também pela filosofia, pela literatura e pela arte do fin de siècle, lidas com Ortega y Gasset e Christopher Dawson como sintomas de um “homem feito às pressas”, e termina na partilha da África e nas cinco crises entre potências que, somadas às alianças, fizeram de um atentado em Sarajevo o estopim da Primeira Guerra Mundial. Pelo caminho, o professor recorre a historiadores como René Rémond e Barbara Tuchman, a romances como Os Miseráveis e a filmes como Feliz Natal e Germinal.
Para quem é
- Quem se interessa por história e quer entender as raízes do século XX
- Leitores de romances do século XIX que desejam situar as obras em seu contexto
- Estudantes que buscam uma introdução rápida ao nacionalismo, ao imperialismo e às origens da Primeira Guerra Mundial
- Pais e educadores que querem uma visão de conjunto do período para acompanhar os estudos dos filhos
- Quem quer entender de onde vêm muitos conflitos da África contemporânea
O que você vai aprender
- O que o Congresso de Viena pretendia e por que não conseguiu devolver a Europa ao que era antes de 1789
- Como a burguesia liberal, herdeira do Iluminismo, ganhou força nas revoluções de 1830 e 1848, e por que a Primavera dos Povos não foi um movimento socialista
- O nacionalismo como aliança entre burguesia e aristocracia e seu tripé: matérias-primas, mercado consumidor e mão de obra livre e barata
- Como o nacionalismo impulsionou o imperialismo na África e na Ásia, das Guerras do Ópio à partilha da África no Congresso de Berlim
- As diferenças entre as unificações da Alemanha e da Itália, e o papel do Zollverein e da Guerra Austro-Prussiana
- A Guerra Franco-Prussiana, a questão da Alsácia-Lorena e a origem do revanchismo francês
- O avesso da prosperidade: a Comuna de Paris e a miséria dos operários e mineiros
- Como a filosofia, a literatura e o impressionismo expressaram a angústia do fin de siècle, lida com Ortega y Gasset e Christopher Dawson
- As cinco crises entre potências e o sistema de alianças que levaram à Primeira Guerra Mundial
Por que estudar isso hoje
Muito do que vemos no noticiário tem raízes no século XIX: fronteiras africanas traçadas sem respeito às etnias, rivalidades nacionais, a disputa entre potências por mercados e matérias-primas. Entender como se formaram o nacionalismo e o imperialismo, e como crises e alianças levaram a Europa à guerra em 1914, é ganhar vocabulário para ler o presente com mais precisão e menos espanto.
Há também uma dimensão mais íntima. O século XIX produziu o homem moderno, que Ortega y Gasset descreveu como “feito às pressas”, carente de um centro, e que Christopher Dawson associou à perda dos valores cristãos. Reconhecer esse processo ajuda a compreender não só o mundo, mas de onde vêm certas angústias e rupturas que ainda nos acompanham, inclusive na vida das famílias.
As 6 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
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Apresentação do curso Por que estudar o grande século XIX
O século XIX como chave para entender o mundo atual: um tempo de intensas transformações, examinado por Ortega y Gasset e Christopher Dawson, que viu nascer a sociologia, a antropologia e a psicanálise.
Dos escombros das revoluções e guerras do século XIX, sustenta o professor, nasceu a identidade europeia do século XX.
século XIXmundo contemporâneociências humanasEuropa3 min -
Aula 1 Do Congresso de Viena à Primavera dos Povos
O Congresso de Viena tenta devolver a Europa ao que era antes de 1789, mas a burguesia liberal, herdeira do Iluminismo, já está no jogo político. Seguem-se a restauração dos Bourbons, a revolução de 1830, o rei burguês Luís Filipe e a Primavera dos Povos de 1848, obra de liberais, e não de socialistas.
Um congresso de diplomatas em Viena ajuda a explicar por que, em 1815, o Brasil foi elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves.
Congresso de VienaliberalismoRevolução de 1830Primavera dos Povosburguesia18 min -
Aula 2 Nacionalismo, imperialismo e as unificações alemã e italiana
O conceito freudiano de herança arcaica explica o apelo de Napoleão III. O nacionalismo, aliança entre burguesia e aristocracia, busca matérias-primas, mercados e mão de obra assalariada: daí o imperialismo na África e na Ásia, as Guerras do Ópio e as unificações da Itália e da Alemanha, esta preparada pelo Zollverein.
Para mostrar como a escola fabricava patriotas, o professor indica a abertura do filme Feliz Natal, com três crianças recitando lições nacionalistas.
nacionalismoimperialismoGuerras do Ópiounificação alemãZollverein20 min -
Aula 3 Alsácia-Lorena, Guerra Franco-Prussiana e revanchismo francês
Às vésperas da unificação, o expansionismo prussiano se volta para a própria Europa: a Alsácia-Lorena, rica em ferro e carvão, está no centro da Guerra Franco-Prussiana, que termina com o Império Alemão proclamado em Versalhes e dá origem ao revanchismo francês. Em paralelo, forma-se o Império Austro-Húngaro.
Proclamar o Império Alemão na Sala dos Espelhos de Versalhes foi uma humilhação cujo eco, lembra o professor, chegaria ao Tratado de Versalhes, em 1919.
unificação alemãAlsácia-LorenaGuerra Franco-PrussianarevanchismoImpério Austro-Húngaro16 min -
Aula 4 Crises europeias, Comuna de Paris e miséria operária
O nacionalismo leva as potências ao choque: revanchismo francês, rivalidade russo-austríaca movida pelo pan-eslavismo e disputa industrial anglo-alemã. Na França, a Comuna de Paris dura setenta dias, inspirada mais por Os Miseráveis que por Marx; em Londres e nas minas, a miséria operária revela o avesso da prosperidade.
Mineiros que desciam com velas e gaiolas de pequenos animais para detectar gás mostram, num detalhe, o perigo diário do trabalho industrial.
nacionalismopan-eslavismoComuna de Parisquestão operáriarevanchismo15 min -
Aula 5 Fin de siècle: angústia, literatura e impressionismo
A angústia do fim do século XIX, visível em Nietzsche e Kafka, é explicada com Ortega y Gasset, pelo “homem feito às pressas”, e com Dawson, pela perda dos valores cristãos. A literatura, de Flaubert aos russos, e o impressionismo reagem ao caos, que também faz nascer a sociologia, a antropologia e a psicanálise.
O Julgamento das Nações, de Dawson, e A Rebelião das Massas, de Ortega, devem ser lidos juntos: segundo o professor, completam-se como queijo com goiabada.
fin de sièclecrise existencialimpressionismoliteratura realistapsicanálise18 min -
Aula 6 Partilha da África e as cinco crises pré-guerra
O Congresso de Berlim (1884-1885) reparte a África sem respeitar as etnias, e o Congo de Leopoldo II expõe a violência colonial. Cinco crises entre potências, do revanchismo francês ao choque entre Áustria-Hungria e Sérvia, somadas ao jogo de alianças, fazem do assassinato de Francisco Ferdinando o estopim da Primeira Guerra Mundial.
O projeto da ferrovia Berlim-Istambul-Bagdá e o estreito de Dardanelos explicam por que alemães, ingleses e russos entraram em rota de colisão.
partilha da ÁfricaCongo Belgaimperialismocrises pré-guerraPrimeira Guerra Mundial18 min
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Curiosidades sobre o tema
O irmão de Luís XVI, que voltou ao trono com a restauração da monarquia após a queda de Napoleão, é considerado um dos reis mais fracos, se não o mais fraco, da história da França. Luís XVIII reinou mais como nome que como força.
Em “A Liberdade Guiando o Povo”, de Delacroix, a figura feminina com os seios à mostra simboliza a desamarração da identidade tradicional — uma liberdade que rompe inclusive com as convenções do vestuário feminino. Notre-Dame aparece ao fundo, observando.
A famosa Primavera dos Povos, de 1848, é frequentemente apresentada como movimento socialista. Não foi. Foi a burguesia liberal que a articulou — e atribuir-lhe leitura marxista é, segundo o curso, anacronismo puro.
Em 1848, Karl Marx e Friedrich Engels publicaram o Manifesto Comunista. No mesmo ano, a onda revolucionária atingiu Paris, Viena e Berlim, agitou a Inglaterra e ecoou até no Brasil, com a Revolução Praieira, mas quase nenhum dos revolucionários tinha lido os dois autores.
Na Londres do fim do século XIX, descreve Barbara Tuchman em A Torre do Orgulho, famílias operárias dormiam em camas de palha e comiam em mesas feitas de caixote. Sem sapatos para todos, as crianças se revezavam: a menina saía, voltava, e só então o irmão podia sair.
Segundo o curso, o fim da escravidão no século XIX deve-se também a um cálculo econômico: trabalhadores assalariados, ainda que mal pagos, consomem, e a indústria precisava ampliar seu mercado. A ética e o lucro caminharam juntos.
A frase “o sol nunca se põe no Império Britânico” não era exagero retórico. No auge, o império chegou a cobrir cerca de um quarto das terras do planeta: quando anoitecia em Londres, ainda era dia em Bombaim.
Nas duas Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860), a Inglaterra obrigou a China, pela força das armas, a manter aberto o comércio da droga que o governo chinês tentava proibir. O episódio resume a lógica do imperialismo: mercados abertos à força e produtos controlados pelos europeus, destinados ao consumo dos povos submetidos.
A Alemanha como Estado unificado só existe desde 1871. Antes disso, o mundo germânico se dividia em dezenas de reinos, ducados e cidades livres, como a Prússia, a Baviera, Hamburgo e Lübeck, e a Áustria disputava com a Prússia a liderança desse universo.
Antes da unificação política, os Estados alemães criaram uma união aduaneira chamada Zollverein. Foi, em certo sentido, um Mercosul ou uma União Europeia avant la lettre: comércio sem tarifas entre a cidade de Lübeck, no norte, e o reino da Baviera, no sul.
Os alemães proclamaram seu Império no coração simbólico da França: a Sala dos Espelhos, em Versalhes. A humilhação alimentou o revanchismo francês, e a França daria o troco em 1919, ao fazer a Alemanha derrotada assinar o tratado de paz na mesma sala.
O despacho de Ems, de julho de 1870, era um relato enviado a Bismarck sobre o encontro do rei Guilherme I da Prússia com o embaixador francês. Bismarck o encurtou e o divulgou à imprensa de modo que soasse ofensivo aos franceses, como ele mesmo contaria em suas memórias; dias depois, a França declarou guerra à Prússia.
Garibaldi conquistou o sul da Itália em 1860, mas foi afastado da condução política da unificação, que ficou com Vítor Emanuel II e Cavour, à frente do reino de Piemonte-Sardenha, no norte, a região mais rica da península.
Bandeiras nacionais, hinos e currículos escolares como os conhecemos hoje são, em grande medida, frutos do século XIX. Italianos e alemães foram, em boa parte, “fabricados” como cidadãos amantes da pátria pela escola e pelo serviço militar.
A Áustria poderia ter feito parte da Alemanha. Foi excluída do projeto unificador depois de perder a Guerra Austro-Prussiana, de 1866, e essa derrota ajuda a explicar por que Áustria e Alemanha são hoje países separados, apesar de partilharem língua e raízes culturais.
A Comuna de Paris durou pouco mais de setenta dias, de março a maio de 1871, antes de ser esmagada pelo governo de Thiers, instalado em Versalhes. Foi a primeira experiência, na Europa, de um governo de inspiração socialista.
Segundo o historiador francês René Rémond, os revolucionários parisienses de 1871 liam menos O Capital e mais Os Miseráveis, de Victor Hugo. O romance pesou mais que a teoria econômica no imaginário popular.
Nas minas de carvão do século XIX, os mineiros desciam com velas ou gaiolas com pequenos animais: se a chama crescia ou os animais passavam mal, era sinal de gás, sem cheiro e mortal, e hora de sair da mina.
Os mineiros de carvão acordavam às quatro da manhã, desciam às minas às cinco e saíam às oito da noite. Só viam a luz do sol aos domingos. Foi nesse tipo de jornada que a Europa construiu sua aparente prosperidade da Belle Époque.
Guilherme Almeida
Guilherme Almeida é professor há mais de 20 anos, graduado em história e especialista em história geral.
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