A civilização que legou ao Ocidente o direito romano e o latim começa, em seu próprio mito, com um irmão matando o outro. O nome “Roma” vem do assassino, não da vítima.
Roma
Da loba capitolina à queda do Ocidente: a formação de Roma e o solo em que o cristianismo floresceu.
Professor Guilherme AlmeidaDo que trata o curso
Roma deu ao Ocidente códigos de leis, padrões de burocracia, uma arte de fazer política sem igual na Antiguidade e o terreno em que o cristianismo floresceu. É dessa convicção que parte este curso introdutório do professor Guilherme Almeida, continuação do curso sobre a Grécia, ao mostrar como uma pequena cidade cercada por sete colinas se tornou império e romanizou os povos dominados, dando aos portos do Mediterrâneo, o Mare Nostrum, moeda, lei comercial e língua comuns.
O percurso começa nos mitos fundadores, lidos à luz da ideia de herança de Arnold Toynbee: a loba que amamenta Rômulo e Remo, o fratricídio e o rapto das sabinas. Passa pela monarquia, com seus patrícios, seu Senado de anciãos e suas leis orais, e pelo estupro de Lucrécia, que põe fim aos reis e dá origem à República, com seus dois cônsules e as conquistas dos plebeus, das Doze Tábuas à Lei Licínia.
As guerras púnicas contra Cartago fazem de Roma a senhora do Mediterrâneo, mas fortalecem os generais e abrem o declínio da República. Vêm a revolta de Espártaco, o primeiro triunvirato e Júlio César, que cruza o Rubicão, vence Pompeu e é assassinado em 44 a.C. como ditador vitalício, e não como imperador.
A última aula acompanha Otávio Augusto e a Pax Romana e conta a história do cristianismo no Império em três fases: a perseguição, que ganha força com Nero; a tolerância, com o Édito de Milão, de Constantino; e a oficialização, com Teodósio. O curso termina com as invasões germânicas e a queda do Ocidente em 476, lembra que o Oriente sobreviveria por quase mil anos e aponta para o curso seguinte, sobre os francos.
Para quem é
- Quem busca um panorama claro da história romana, da fundação à queda do Ocidente
- Quem fez o curso sobre a Grécia e quer seguir o fio da civilização ocidental
- Cristãos que querem conhecer o mundo em que a Igreja nasceu, foi perseguida e se tornou religião oficial
- Pais e educadores que procuram uma base segura para ensinar história antiga
- Leitores interessados nas raízes romanas da república, das leis e da vida pública
O que você vai aprender
- As três fases da história romana, monarquia, república e império, e o que muda na política de cada uma
- Uma leitura dos mitos fundadores (a loba capitolina, o fratricídio de Rômulo e o rapto das sabinas) como marcas do caráter romano
- Como se organizava a monarquia: patrícios, Senado, leis orais e uma escravidão nascida de dívidas e guerras, não de etnia
- Por que o estupro de Lucrécia pôs fim à monarquia e o que era a res publica governada por dois cônsules
- Como os plebeus conquistaram voz política, da revolta do Monte Sagrado às Doze Tábuas e à Lei Licínia
- O que estava em jogo nas guerras púnicas e por que a vitória sobre Cartago abriu o declínio da República
- A trajetória de Júlio César, do primeiro triunvirato ao Rubicão e ao assassinato, e por que ele não foi imperador
- As três fases da relação entre cristianismo e Império: perseguição, tolerância com o Édito de Milão e oficialização com Teodósio
- O que foi a Pax Romana de Otávio Augusto e como, séculos depois, as invasões germânicas levaram à queda do Ocidente em 476
Por que estudar isso hoje
Senado, república, plebe, cônsul, tribuno: muitas das palavras com que ainda pensamos a vida pública nasceram em Roma, assim como códigos de leis cujos ecos atravessam a Idade Média e chegam aos nossos dias. Acompanhar como essas instituições surgiram, e como a República se desfez nas mãos de generais cada vez mais poderosos, é um exercício precioso para quem quer pensar com clareza sobre poder, lei e bem comum.
Há ainda outra razão, especialmente para quem é cristão. Foi dentro das fronteiras romanas que a Igreja nasceu, foi perseguida por mais de dois séculos e se tornou religião oficial; sem esse cenário, a cristandade medieval, e a civilização que dela brotou, fica difícil de entender. Em poucas aulas, o curso oferece essa moldura a quem estuda e a quem ensina.
As 7 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
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Aula 1 Por que estudar a civilização romana
Roma como continuação da herança grega e chave para entender leis, burocracia e política no Ocidente, além do solo em que o cristianismo floresceu. Mostra como uma pequena cidade cercada por sete colinas virou império e romanizou os povos dominados, dando ao Mare Nostrum moeda, lei comercial e língua comuns.
Parte de uma tese que guia o curso inteiro: estudar Roma é olhar para boa parte do que vemos no espelho, das leis à maneira de fazer política.
romanizaçãoMare Nostrumherança gregacristianismoImpério Romano9 min -
Aula 2 Rômulo, Remo e a violência fundadora de Roma
Os mitos fundadores de Roma lidos à luz da herança como carma, de Arnold Toynbee: a loba capitolina que cria Rômulo e Remo, o fratricídio e o rapto das sabinas. Três violências, simbólica, física e sexual, que ajudariam a explicar a ferocidade da república e do império.
Compara a alcateia, em que os lobos mais velhos vão à frente e ditam o ritmo, ao Senado romano, que era uma assembleia de anciãos.
mitos fundadoresloba capitolinaRômulo e Remorapto das sabinasherança arcaica15 min -
Aula 3 A monarquia romana: patrícios, Senado e leis orais
A organização da monarquia romana: patrícios e um Senado de cem anciãos no topo; abaixo deles, comerciantes, estrangeiros e escravos. Roma vira ponto de convergência comercial, herda a religião grega com outros nomes, mistura religião e política e se rege por leis orais que excluíam os plebeus.
Explica por que a escravidão antiga, fruto de dívidas ou de guerras, quase nada tinha a ver com etnia, ao contrário da escravidão moderna.
monarquia romanapatrícios e plebeusSenadoescravidão antigareligião e política11 min -
Aula 4 Do estupro de Lucrécia à República Romana
A queda da monarquia, da trama de Túlia e Tarquínio, o Soberbo, ao estupro e suicídio de Lucrécia, abre a República em 509 a.C. Apresenta o consulado, a revolta do Monte Sagrado e as conquistas plebeias, das Doze Tábuas à Lei Licínia, até Cartago surgir no horizonte.
Sustenta que Roma deu voz política aos chamados “mal nascidos”, camada que na Grécia, no Egito e na Mesopotâmia não tinha participação alguma.
fim da monarquiaRepública RomanaconsuladoplebeusDoze Tábuas16 min -
Aula 5 Guerras púnicas e o declínio da República
As três guerras púnicas (264–146 a.C.) pelo controle do comércio no Mediterrâneo, da travessia dos Alpes por Aníbal à destruição de Cartago. A expansão fortalece os generais e volta a marginalizar os plebeus, abrindo o declínio da República, que passa pela revolta de Espártaco e chega ao primeiro triunvirato.
Contesta a leitura das conquistas plebeias como luta de classes: para o professor, patrícios e plebeus sabiam que o bem de Roma era o bem de todos.
guerras púnicasAníbalCartagodeclínio da Repúblicaprimeiro triunvirato23 min -
Aula 6 Júlio César, do Rubicão ao assassinato
O primeiro triunvirato e a ascensão de Júlio César: as campanhas na Gália, a travessia do Rubicão, a guerra civil contra Pompeu, morto no Egito, e a relação com Cleópatra. Ditador vitalício, e não imperador, César é assassinado em 44 a.C. numa trama do Senado.
Entre batalhas e intrigas, explica por que o sal valia tanto no mundo antigo e revive a pergunta de Cícero: “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”
primeiro triunviratoGáliaRubicãoguerra civilassassinato de César19 min -
Aula 7 Pax Romana, cristianismo e a queda do Ocidente
Da vitória de Otávio Augusto em Áccio, que inaugura a Pax Romana, à queda do Ocidente em 476, sob as invasões germânicas, enquanto o Oriente resiste. No caminho, o cristianismo passa por três fases no Império: perseguição desde Nero, tolerância com o Édito de Milão e oficialização com Teodósio.
Mostra por que uma fé tida de início como inofensiva passou a ser perseguida: ao negar divindade ao imperador, o cristianismo desafiava o fundamento do poder romano.
Pax Romanaperseguição aos cristãosÉdito de Milãoinvasões germânicasqueda do Ocidente22 min
Quanto você já sabe sobre Roma?
5 perguntas rápidas, sorteadas entre 30. Você vê a resposta na hora, com uma explicação curta. Dá para jogar quantas rodadas quiser.
Curiosidades sobre o tema
Antes de ser potência, Roma foi um pequeno povoado às margens do Tibre, entre sete colinas, rodeado por latinos, etruscos e sabinos. Nos cerca de dois séculos de monarquia, virou ponto de convergência do comércio da região: começava a fazer sentido o ditado “todos os caminhos levam a Roma”.
Quando você recebe seu “salário”, usa uma palavra ligada ao sal (em latim, salarium). A explicação mais difundida, lembrada no curso, é que parte do pagamento dos soldados romanos era feita em sal, conservante essencial de alimentos e moeda de troca aceita em toda parte.
O sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel na Bíblia, descreve uma estátua com pernas de ferro — símbolo da civilização que dominaria o mundo com violência e peso. Comentadores cristãos antigos viam ali Roma.
O “Rapto das Sabinas”, pintado por Jacques-Louis David e tantos outros, foi, segundo a lenda, um sequestro coletivo tramado pelo próprio Rômulo durante um banquete. O curso chama a atenção para o que costuma passar despercebido: boa parte da geração seguinte de romanos teria nascido dessa violência.
A República Romana durou quase 500 anos, de 509 a.C. até Otávio Augusto. E foi nela, depois das guerras púnicas, e não no Império, que começaram os grandes domínios territoriais de Roma: os imperadores ampliaram territórios que já eram imensos.
Boa parte do vocabulário político que usamos veio do latim da Roma antiga: candidato (de candidatus, “vestido de branco”, como se apresentava quem disputava um cargo), plebiscito, magistrado, tribunal, veto, senado e república.
Aníbal cruzou os Alpes com elefantes africanos. A maioria morreu no caminho, vítima do frio. Mesmo assim, o ato bastou para fazer dele um pesadelo na memória militar romana por séculos.
Depois de arrasar Cartago em 146 a.C., Roma vendeu os sobreviventes como escravos e fez da região território romano. O curso compara o gesto à damnatio memoriae, o “apagamento da memória” que imperadores aplicariam aos antecessores: o grande rival simplesmente sumiu.
O chefe gaulês Vercingetórix, que resistiu a César na Gália, levava no nome a terminação -rix, “rei” na língua dos gauleses. É essa terminação que os quadrinhos de Asterix e Obelix imitam nos nomes de seus gauleses, sempre às turras com os romanos.
O Rubicão, um pequeno rio perto de Rímini, marcava o limite que nenhum general podia cruzar à frente de suas tropas: ali o exército devia ser dispersado, para não ameaçar o Senado. Ao atravessá-lo com suas legiões, César teria dito: “A sorte está lançada”.
Cleópatra teve um filho com Júlio César, chamado Cesarião, que cresceu nos bastidores das guerras civis e foi morto por ordem de Otávio. A linhagem direta de César terminou no Egito.
Marco Júnio Brutus, um dos assassinos de César, dizia descender do Brutus que, quase cinco séculos antes, havia deposto o último rei de Roma. Nos dois casos, a justificativa foi a mesma: livrar Roma da tirania.
Otávio Augusto, considerado o maior dos imperadores, governou nas décadas em que Jesus nasceu na Judeia. Tibério, seu sucessor, foi o imperador no trono quando Cristo foi crucificado.
Duas figuras centrais do curso estão no seu calendário: julho homenageia Júlio César, e agosto, Otávio Augusto. Os meses se chamavam Quintilis e Sextilis, o quinto e o sexto do antigo calendário romano, e foram rebatizados em honra dos dois.
Antes de a cruz se difundir, um dos símbolos dos cristãos era o peixe, pintado e gravado nas catacumbas de Roma. Conta-se que bastava traçar um arco no chão; se o outro completasse o desenho, podia-se falar de Cristo sem medo.
Constantino legalizou o cristianismo em 313, e sua mãe, Santa Helena, era cristã; mas ele só foi batizado em 337, pouco antes de morrer. O curso vê nesse adiamento o peso da aura divina que cercava os imperadores.
Por quase mil anos a maior igreja da cristandade, a Hagia Sofia, erguida por Justiniano em Constantinopla, virou mesquita depois da conquista otomana de 1453, museu em 1934 e de novo mesquita em 2020.
Roma caiu no Ocidente em 476, mas o Império do Oriente, com capital em Constantinopla, durou quase mil anos a mais, até a conquista otomana de 1453. Falar em “queda do Império Romano” em 476 é contar só metade da história.
Guilherme Almeida
Guilherme Almeida é professor há mais de 20 anos, graduado em história e especialista em história geral.
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