Na regra de ouro do mercantilismo, o acúmulo de metais, a Espanha saiu na frente: nos domínios de astecas, maias e incas, encontrou ouro e prata de imediato, enquanto Portugal precisou transformar pau-brasil, açúcar e especiarias em metal.
Mercantilismo
Como a corrida por metais preciosos e mercados moldou a economia moderna, das navegações à Revolução Industrial.
Professor Guilherme AlmeidaDo que trata o curso
Entre as Grandes Navegações e a Revolução Francesa, a economia europeia girou em torno de uma ideia: uma nação é rica quando acumula metais preciosos. Neste curso introdutório, o professor Guilherme Almeida começa por fixar conceitos, como mercado, capitalismo e sujeito histórico, e apresenta as quatro regras do mercantilismo: acúmulo de metais e pedras preciosas, balança comercial favorável, mais exportações que importações e protecionismo. Ter colônias, lembra ele, ajudava, mas não era condição.
Portugal e Espanha abrem a primeira fase. A partilha do mundo pela bula Inter Caetera e pelo Tratado de Tordesilhas deu à Espanha o ouro e a prata dos domínios de astecas, maias e incas, enquanto Portugal precisou converter em metal o pau-brasil, o açúcar e as especiarias do Oriente, deixando aos holandeses o refino e o lucro final do açúcar.
O curso cruza economia e religião. Com Max Weber, mostra como os freios católicos à usura contiveram ibéricos e italianos, enquanto o capitalismo florescia no mundo protestante; com Christopher Dawson e Barbara Tuchman, discute a crise do papado que abriu caminho à Reforma. No centro de tudo está a burguesia, camada social nascida nos burgos medievais e agente prático do mercantilismo, num tempo em que a medida da riqueza deixa de ser a terra e passa a ser o metal acumulado.
Na segunda fase, a Holanda, com poucas colônias, torna-se a grande transportadora dos mares, e a França ensaia conquistas tímidas no Brasil. A Inglaterra reage com o Ato de Navegação e, com a Revolução Inglesa, abre à burguesia o comando das finanças, com o Tesouro e o Banco da Inglaterra: dali sai, menos de um século depois, a Revolução Industrial, enquanto Portugal e Espanha seguem presos ao pacto colonial.
Para quem é
- Estudantes do ensino médio e vestibulandos que querem entender o mercantilismo com conceitos claros.
- Professores de história que buscam uma síntese curta ligando economia, religião e política na Idade Moderna.
- Pais que acompanham os estudos dos filhos e querem revisar o tema em pouco mais de uma hora.
- Leitores curiosos sobre como o capitalismo se formou antes da Revolução Industrial.
O que você vai aprender
- Por que o mercado é tão antigo quanto a humanidade e o que torna o mercantilismo próprio da Idade Moderna.
- As quatro regras do mercantilismo e por que ter colônias não era condição para praticá-lo.
- Como a bula Inter Caetera e o Tratado de Tordesilhas dividiram o Novo Mundo entre Portugal e Espanha.
- Por que a Espanha teve ouro e prata de imediato, enquanto Portugal precisou converter pau-brasil, açúcar e especiarias em metal.
- A tese de Max Weber sobre a ética protestante e o peso dos freios católicos à usura.
- A origem medieval da burguesia, a diferença entre camada e classe social e a troca da terra pelo metal como medida de riqueza.
- Como a Holanda se tornou a transportadora dos mares e como o Ato de Navegação inglês respondeu a isso.
- O que foi o pacto colonial e a diferença entre colônias de exploração e de povoamento.
- Por que a Revolução Industrial começou na Inglaterra, e não nos países ibéricos.
Por que estudar isso hoje
Muitas perguntas atuais sobre riqueza e desenvolvimento têm raízes nesse período: por que algumas nações passaram a vender produtos manufaturados e outras ficaram como fornecedoras de matéria-prima, por que a Revolução Industrial nasceu na Inglaterra e por que o Brasil foi, desde cedo, uma colônia voltada para a extração. O mercantilismo ajuda a entender o ponto de partida dessas diferenças.
O curso também mostra que a economia não anda sozinha. Religião, moral e política pesaram nas escolhas de cada país, e a pergunta sobre os limites morais do lucro, que o professor apresenta a partir dos freios católicos à usura, continua atual.
As 4 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
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Apresentação do curso O mercantilismo, das navegações à Revolução Industrial
O plano do curso, introdutório e em quatro aulas: a burguesia, Portugal e Espanha depois de Tordesilhas, Holanda, Inglaterra e França, as regras do metalismo e da balança comercial e a passagem para as revoluções industriais.
Em três minutos, o professor Guilherme Almeida mostra o roteiro: da corrida atlântica por metais preciosos à virada que levou às revoluções industriais.
mercantilismoburguesiaTratado de Tordesilhasmetalismobalança comercial3 min -
Aula 1 O que é mercantilismo e suas quatro regras
Do mercado, tão antigo quanto a humanidade, e da economia como sujeito histórico chega-se ao mercantilismo da Idade Moderna, de 1453 a 1789, com antecedentes na tomada de Ceuta. Quatro regras o definem: acúmulo de metais preciosos, balança comercial favorável, mais exportações que importações e protecionismo; ter colônias não é essencial.
Das conchas usadas como moeda na África ao escambo medieval e à economia virtual do Google e do Uber, cada época reinventa o modo de fazer mercado.
mercadosujeito históricoIdade Modernametalismoprotecionismo13 min -
Aula 2 Portugal e Espanha: açúcar, ouro e Tordesilhas
Portugal e Espanha, primeiras potências mercantis, diferem pelos produtos de suas terras: a Espanha obtém ouro e prata nos domínios de astecas, maias e incas, enquanto Portugal precisa converter pau-brasil, açúcar e especiarias em metais. Entram a bula Inter Caetera, o Tratado de Tordesilhas e o avanço dos bandeirantes.
Por que Portugal, dono de canaviais imensos em Pernambuco, deixou aos holandeses o refino e o lucro final do açúcar?
Portugal e EspanhaTratado de Tordesilhasmetalismo e bulionismociclo do açúcarbandeirantes17 min -
Aula 3 Protestantismo, burguesia e a nova ideia de riqueza
Segundo Max Weber, o capitalismo floresce no mundo protestante, sem os freios católicos à usura que contiveram ibéricos e italianos; a partilha do Novo Mundo chancelada pelo papa abre brecha para a Reforma. A burguesia, nascida nos burgos medievais, põe o mercantilismo em prática, e a riqueza deixa de ser terra para ser metal.
“Onde está no testamento de Adão a exclusão da França?”, teria perguntado Francisco I diante da partilha do mundo entre Portugal e Espanha.
ética protestanteusuraReformaburguesiariqueza15 min -
Aula 4 Holanda, Inglaterra e o caminho para a indústria
Na segunda fase do mercantilismo, a Holanda, com poucas colônias, vira a transportadora dos mares, até o Ato de Navegação de Cromwell afastá-la dos portos ingleses. Com a Revolução Inglesa, a burguesia assume o Tesouro e o Banco da Inglaterra e prepara a Revolução Industrial, enquanto os ibéricos seguem presos ao pacto colonial.
A globalização é mais antiga do que se pensa: os manuais de medicina de Avicena, vindos da Pérsia, ainda eram usados em Salamanca no século XVII.
HolandaAto de NavegaçãoRevolução Inglesapacto colonialRevolução Industrial20 min
Quanto você já sabe sobre Mercantilismo?
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Curiosidades sobre o tema
A primeira aventura mercantilista portuguesa, lembra o professor, não foi nos mares distantes, mas na tomada da pequena Ceuta, no Marrocos, em 1415, em busca de tinturas para tecidos e de novos produtos.
Entre um quarto e um terço do território da Holanda fica abaixo do nível do mar, em terras conquistadas com diques. Essa convivência antiga com o mar ajuda a explicar por que os holandeses dominaram o comércio marítimo no século XVII.
Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber associa o grande desenvolvimento do capitalismo aos países protestantes. O curso completa o quadro com o contraste católico: a condenação da usura funcionava como freio ao lucro em Portugal, na Espanha e nos Estados italianos.
Pela bula Inter Caetera, de 1493, o que hoje é o Brasil ficaria quase inteiro do lado espanhol. Portugal não aceitou, e o Tratado de Tordesilhas, em 1494, empurrou a linha para 370 léguas a oeste de Cabo Verde, garantindo aos portugueses o litoral brasileiro.
O papa Alexandre VI, que assinou as bulas de 1493 sobre o Novo Mundo, era espanhol: Rodrigo Borgia. Seu filho César Borgia, governante violento e calculista, inspirou Maquiavel ao escrever O Príncipe.
Na Idade Média, a riqueza de um nobre se media em terras: rei tem reinado, duque tem ducado, conde tem condado. O mercantilismo inverteu essa lógica, e a riqueza passou a ser medida em metais preciosos.
Em A Marcha da Insensatez, Barbara Tuchman dedica um capítulo aos seis papas renascentistas, mostrando como sua má gestão criou terreno fértil para a explosão protestante de 1517.
Portugal produzia açúcar em escala enorme, mas deixava o refino para a Holanda, e com ele o lucro do produto final. O motivo, segundo o professor, não era falta de capacidade: a produção da matéria-prima já rendia tanto que investir na tecnologia do refino parecia desnecessário.
No escambo medieval, trocava-se mercadoria por mercadoria: três novelos de lã, por exemplo, por meia saca de trigo. Na África, conchas raras e panos faziam as vezes de moeda.
No século XVII, com Portugal sob a coroa espanhola durante a União Ibérica, os holandeses, que já refinavam na Europa o açúcar brasileiro, ocuparam o Nordeste do Brasil, coração da produção açucareira.
A referência bibliográfica do curso é A Ascensão do Dinheiro, do historiador Niall Ferguson, que conta a história do dinheiro e do crédito — inclusive como os Rothschild ajudaram a financiar a Inglaterra contra Napoleão.
O calvinismo recebeu nomes diferentes em cada país: huguenote na França, puritano na Inglaterra, presbiteriano na Escócia. Na Inglaterra, foram os puritanos que deram nome à primeira etapa da Revolução Inglesa.
O rei Francisco I da França, irritado com a partilha do Novo Mundo entre Portugal e Espanha, perguntou onde estaria no testamento de Adão a cláusula que excluía a França. Era um ataque direto à divisão feita sob a chancela do papa.
Os manuais de medicina escritos por Avicena no século XI, na Pérsia, ainda eram usados como referência na Universidade de Salamanca em pleno século XVII. A globalização do saber é mais antiga do que se imagina.
No século XVII, a Holanda foi a grande transportadora dos mares: para mandar tecido ou vinho a outro país, era mais rápido, barato e seguro contratar um navio holandês do que montar uma frota própria.
O Ato de Navegação de 1651, aprovado na república puritana liderada por Oliver Cromwell, determinou que as mercadorias só entrassem na Inglaterra em navios ingleses ou do país de origem: era o fim da Holanda como intermediária do comércio inglês.
Para explicar a quebra da unidade cristã, o curso recorre ao historiador Christopher Dawson: quando Lutero divulgou suas 95 teses em Wittenberg, em 1517, encontrou príncipes, reis e burgueses prontos a romper com Roma, sem romper com o cristianismo.
Das Índias e da China, Portugal trazia para a Europa uma enxurrada de especiarias e luxos, como cravo, canela e seda, que depois convertia em metais preciosos, seguindo a regra de ouro do mercantilismo.
Ao receber o trono inglês em 1689, Guilherme de Orange e Maria Stuart tiveram de aceitar a Declaração de Direitos, convertida no mesmo ano na Bill of Rights, que limitou os poderes do rei e firmou o modelo de monarquia parlamentar.
Guilherme Almeida
Guilherme Almeida é professor há mais de 20 anos, graduado em história e especialista em história geral.
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