Tomás Antônio Gonzaga foi preso em maio de 1789, quando o casamento com Maria Doroteia, a Marília dos poemas, estava marcado para o fim daquele mês. Condenado por envolvimento na Inconfidência Mineira e degredado para Moçambique, lá se casou, em 1793, com outra mulher.
Literatura Brasileira e de Língua Portuguesa
De Marília de Dirceu a Dois Irmãos, com Pessoa e Honwana: nove obras em português lidas de perto, três aulas para cada uma.
Professor Fabio UlaninDo que trata o curso
O curso percorre nove obras escritas em português, sete delas brasileiras, das liras árcades de Tomás Antônio Gonzaga aos contos do moçambicano Luís Bernardo Honwana. Cada obra recebe três aulas, com o mesmo método: primeiro o contexto histórico, estético e biográfico; depois, a leitura em voz alta de poemas e trechos escolhidos, comentados de perto.
Não é um roteiro de resumos. Fabio Ulanin compara e relaciona: aproxima o humanitismo de Quincas Borba do pessimismo de Schopenhauer, lê a memória de Miguilim em Campo Geral com Santo Agostinho e a cadeia de obediência nos contos de Honwana com a banalidade do mal de Hannah Arendt. E avisa quando uma interpretação é pessoal ou quando usa um conceito só como ferramenta de análise.
Entre um extremo e outro estão Quincas Borba, de Machado de Assis; Mensagem, de Fernando Pessoa; Alguma Poesia, estreia de Carlos Drummond de Andrade; Angústia, de Graciliano Ramos; o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles; Campo Geral, de Guimarães Rosa; e Dois Irmãos, de Milton Hatoum. As obras conversam entre si: Marília de Dirceu reaparece no Romanceiro, Quincas Borba volta na leitura de Angústia, e o engajamento de Graciliano serve de contraponto aos contos de Honwana.
As aulas nasceram como preparação para a FUVEST, mas foram gravadas como uma explicação de cada obra que serve a qualquer leitor, em qualquer época. O curso parte de uma convicção: literatura se aprende lendo, e ler bem pede contexto, comparação e tempo.
Para quem é
- Estudantes do ensino médio e universitários que querem ler estas obras com profundidade
- Professores de literatura que querem aprofundar a análise dessas obras ou levar as aulas para a sala
- Pais que acompanham os estudos dos filhos e querem entender o que eles estão lendo
- Leitores que conhecem os títulos e querem lê-los com atenção crítica e histórica
Veja uma aula antes de decidir
O que você vai aprender
- Situar cada obra em seu momento histórico e estético, do arcadismo à literatura contemporânea, e ler um romance recente quando as escolas literárias já não servem de apoio
- Ler Marília de Dirceu pela idealização da natureza, pela mitologia usada como alegoria, pelo carpe diem e por um lirismo amoroso que caminha para o projeto de casamento
- Reconhecer a ironia de Machado de Assis e o papel do humanitismo em Quincas Borba, aproximado do darwinismo social e do pessimismo de Schopenhauer
- Entender os heterônimos de Fernando Pessoa e a estrutura de Mensagem em três partes, com o sebastianismo e o Quinto Império
- Ler Alguma Poesia pelo gauche drummondiano, pela poesia do cotidiano e pela ironia contra o nacionalismo romântico e a poesia oficial
- Distinguir neorrealismo, realismo socialista e literatura engajada a partir de Angústia, e ler o romance pela pessoa transformada em mercadoria e pelo delírio do narrador
- Reconhecer no Romanceiro da Inconfidência a tradição medieval, barroca e simbolista e o tema do poder da palavra, que liberta e condena
- Analisar Campo Geral pela oralidade, pela memória segundo Santo Agostinho e pelas dualidades entre belo e feio, bem e mal
- Ler Dois Irmãos como história de rivalidade e decadência familiar, com a casa como mapa da hierarquia social de Manaus
- Compreender como os contos de Honwana mostram a hierarquia colonial reproduzida no cotidiano, até entre crianças, à luz da banalidade do mal de Hannah Arendt
Por que estudar isso hoje
Ler estas obras só para cumprir uma lista de leituras é desperdiçar o que elas têm a oferecer. Juntas, estas nove obras mostram como a língua portuguesa, em três continentes e ao longo de mais de dois séculos, deu nome ao amor, à injustiça, à memória, à fé, ao poder colonial e à identidade de um povo.
Quem as atravessa com um guia atento aprende a ler textos difíceis sem ansiedade, a seguir o argumento de um poema longo, a desconfiar de rótulos e a perceber como escolhas formais, uma redondilha medieval, um verso livre, o nome de um personagem, carregam sentido. É uma habilidade que serve a quem estuda, mas serve sobretudo a quem quer ler com precisão e escrever com clareza.
As 27 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
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Apresentação do curso Nove obras da literatura em português
Convite para o percurso pelas nove obras, do arcadismo ao pós-modernismo, cada uma estudada em profundidade.
Pensado para estudantes, mas também para pais que acompanham os filhos e para professores que querem aprofundar a leitura dessas obras.
literatura brasileiraliteraturas de língua portuguesaleitura comentada2 min -
Aula 1 Tomás Antônio Gonzaga e a estética árcade
Vida de Tomás Antônio Gonzaga, do noivado com Maria Doroteia à prisão pela Inconfidência Mineira e ao degredo em Moçambique, percurso que se reflete nas três partes de Marília de Dirceu. O arcadismo surge como resposta ao barroco, inspirado no Iluminismo e no bom selvagem de Rousseau, com a idealização da vida pastoril.
Explica por que um magistrado de Vila Rica escreve como o pastor Dirceu: o sonho árcade de uma vida simples, em harmonia com a natureza, contra os excessos do barroco.
arcadismoMarília de DirceuInconfidência MineiraIluminismobom selvagem20 min -
Aula 2 Política, mitologia e natureza em Marília de Dirceu
O arcadismo tem também um sentido político, ligado à independência americana e à Revolução Francesa, e troca a religião pela mitologia grega, usada como alegoria. Nas liras de Marília de Dirceu, a amada aparece como natureza encarnada, e o amor, como lei natural a que ninguém escapa.
Destaca a lira em que Dirceu pergunta se só Marília quer ficar isenta da lei da natureza e compara esse amor árcade à Ilha dos Amores de Camões.
arcadismomitologianaturezalirismo amorosoRevolução Francesa20 min -
Aula 3 Tempo, casamento e prisão em Marília de Dirceu
Nas liras de Marília de Dirceu, o amor natural se converte em projeto de casamento pequeno-burguês: as liras 14, 18 e 22 tratam da passagem do tempo, do carpe diem e da velhice ao lado da amada. Na segunda parte, escrita na prisão, Dirceu proclama inocência e só teme perder Marília.
Ouve no “tudo passa” de uma das liras um eco de Heráclito e um prenúncio do romantismo, que o professor liga à dor e à morte, não ao amor eterno.
carpe diempassagem do tempocasamentoprisão de Dirceupré-romantismo25 min -
Aula 4 Machado, o realismo e Quincas Borba
Quincas Borba, segundo romance realista de Machado de Assis, é apresentado a partir do realismo como crítica social e ao espírito romântico, com Flaubert, Zola e o determinismo de Taine. Seguem a biografia do autor e o enredo: a ruína de Rubião, explorado pela elite carioca até a loucura.
Retrata um Machado que tinha tudo para não dar certo, gago, epilético, descendente de escravos alforriados, e pergunta: Quincas Borba é o homem ou o cão?
realismodeterminismobiografia de Machadoenredo de Quincas Borbaelite carioca30 min -
Aula 5 Humanitismo e relações sociais em Quincas Borba
O humanitismo de Quincas Borba, resumido em “ao vencedor, as batatas”, é aproximado do darwinismo social, de Freud e do pessimismo de Schopenhauer. Nos capítulos iniciais, Rubião oscila entre culpa e sentimento de posse, e o criado espanhol cedido por Palha expõe relações de poder herdadas da escravidão.
Mostra por que as estatuetas de bronze de Mefistófeles e Fausto na sala de Rubião resumem o pacto que ele faz para ser aceito na sociedade da corte.
humanitismodarwinismo socialSchopenhauerescravidãorelações de poder31 min -
Aula 6 Sofia, Palha e a sedução em Quincas Borba
O suposto triângulo entre Rubião, Sofia e Cristiano Palha é lido como jogo calculado: Sofia, mulher realista como Virgília, contrasta com heroínas de temperamento romântico, como Emma Bovary e Luísa. A declaração no jardim, a dívida de Palha e a loucura final de Rubião mostram a sociedade ficando com as batatas.
Até os nomes contam: Rubião remete ao vermelho da vergonha e da ingenuidade, e Sofia, à sabedoria com que ela usa a própria beleza.
Sofia e Palhaseduçãopersonagens femininascrítica ao romantismoloucura de Rubião31 min -
Aula 7 Fernando Pessoa, os heterônimos e Mensagem
Fernando Pessoa, da infância na África do Sul aos heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, com a distinção entre poeta e voz poética e a lenda do dia triunfal. Mensagem aparece como um único poema em três partes, de grafia arcaica e horizonte profético ligado ao Quinto Império.
Conta como o menino Pessoa mandava pelo correio cartas a dois amigos imaginários, um inglês e um francês, inimigos entre si, e depois respondia por eles.
heterônimosvoz poéticaestrutura de MensagemQuinto Impériobiografia de Pessoa21 min -
Aula 8 Ulisses, Dom Sebastião e o Infante em Mensagem
Poemas do Brasão apresentam a Europa com o rosto de Portugal, as figuras fundadoras Ulisses, Viriato e o conde D. Henrique, e D. Sebastião como ruína e origem do sebastianismo. Em Mar Português, o poema “O Infante”, que diz faltar cumprir-se Portugal, é lido como chave de todo o livro.
Mostra como o verbo sagrou-te, no poema do Infante, junta a ideia de consagração divina e o nome de Sagres, ligado às navegações.
BrasãoMar Portuguêssebastianismomito fundadornavegações21 min -
Aula 9 O Encoberto: profecia e misticismo em Mensagem
A terceira parte de Mensagem é lida como profecia mística: a rosa e a cruz do Encoberto, o Desejado como Galaaz em busca do Graal e os avisos de Bandarra, de Vieira e do próprio Pessoa, até “Nevoeiro”, que proclama ter chegado a hora de cumprir-se Portugal.
Termina com uma tese pessoal do professor: Mensagem é um único grande poema, e o império que ela anuncia talvez seja a própria língua portuguesa.
O EncobertosebastianismomisticismoprofeciaQuinto Império23 min -
Aula 10 Drummond, modernismo e a poesia do cotidiano
Alguma Poesia (1930), estreia de Carlos Drummond de Andrade, é situada na geração de 30, entre a ruptura da Semana de 22 e as crises políticas da época. Poemas como “Cidadezinha qualquer”, “Quadrilha” e “Anedota búlgara” mostram a busca da poesia na linguagem simples do cotidiano.
Conta a reação de Manuel Bandeira ao soneto que pediu ao jovem Drummond e o dia em que o poeta fugiu com as atas de um congresso comunista.
Alguma Poesiageração de 30modernismocotidianometalinguagem23 min -
Aula 11 Drummond gauche e a crítica à poesia oficial
O “Poema de sete faces” é lido como guia do livro: o anjo torto que manda o poeta ser gauche, o simbolismo do número sete e a angústia de não se ajustar ao mundo. “Também já fui brasileiro” e “Política literária” ironizam o nacionalismo romântico e a poesia oficial parnasiana.
Traz a anedota de Lima Barreto zombando da retórica pomposa de Coelho Neto num discurso no Fluminense, retrato do estilo que o modernismo rejeitou.
Poema de sete facesgauchenacionalismoparnasianismopoema-piada23 min -
Aula 12 Política e identidade em Europa, França e Bahia
Em versos quase taquigráficos, “Europa, França e Bahia” passa pelo império britânico, pela guerra anunciada, pelo fascismo e pela Rússia bolchevique até a voz poética perceber que esqueceu a “Canção do exílio”. “Sentimental”, poema sobre um país onde sonhar é proibido, completa a face política de Drummond.
Lê o poema como alerta sobre a antropofagia modernista: de tanto devorar França, Inglaterra e Rússia, o brasileiro esqueceu o próprio sabiá.
poesia engajadaidentidade nacionalantropofagiaCanção do exílioera Vargas22 min -
Aula 13 Graciliano Ramos, engajamento e o delírio de Angústia
Graciliano Ramos, neorrealista e comunista, faz a ideologia sustentar a narrativa sem virar propaganda, ao contrário da trilogia engajada de Jorge Amado. Angústia (1936) é resumido como triângulo entre Luís da Silva, Marina e Julião Tavares, talvez delírio do narrador, cuja moral pequeno-burguesa aparece já nas primeiras páginas.
Conta como Lenin e Trotsky, leitores de Goethe e Shakespeare, resistiram a impor uma estética oficial, e explica por que o professor desconfia de rótulos literários.
neorrealismoliteratura engajadarealismo socialistapequena burguesiaenredo de Angústia29 min -
Aula 14 Angústia e a pessoa transformada em mercadoria
A cena da livraria, em que Luís da Silva vê pessoas exibindo títulos e preços, revela a pessoa feita mercadoria, lida à luz de Walter Benjamin e da “Teoria do medalhão”, de Machado. Seguem o delírio contra Julião Tavares, o contraste social visto do bonde e a atração reprimida por Marina.
Usa o dândi parisiense que passeava com uma lagosta na coleira e o visual punk vendido em shopping para mostrar como o capitalismo converte tudo em produto.
mercadoriacapitalismodândi e flâneurcontraste socialLuís da Silva30 min -
Aula 15 Valor de troca, vingança e delírio em Angústia
Os conceitos marxistas de valor de uso e valor de troca explicam como Julião Tavares compra e descarta Marina. A fantasia de execução pós-revolucionária e o enforcamento na bruma sustentam a hipótese de que o romance inteiro seja delírio de Luís da Silva, lida à luz da sombra de Jung.
Para explicar o valor de troca, conta o caso de uma primeira edição de Machado de Assis com erro tipográfico que o autor corrigiu à mão em parte dos exemplares.
valor de trocadelírionarrador não confiávelsombra junguianaliteratura engajada28 min -
Aula 16 Romanceiro da Inconfidência: tradição, simbolismo e forma
O Romanceiro da Inconfidência (1953) é situado no neossimbolismo ligado à revista Festa e lido como obra que fala do próprio tempo. Romances de forma medieval, redondilhas, paradoxos barrocos e sinestesias somam séculos de tradição em dois ciclos: o do ouro e de Tiradentes, e o de Gonzaga e Marília.
Cita a provocação de Ruy Castro de que o Rio de Janeiro dispensou uma Semana de 22 porque já era moderno, ao contrário da provinciana São Paulo.
neossimbolismorevista Festaromance medievalsinestesiaInconfidência Mineira19 min -
Aula 17 Fala inicial, Cenário e o poder das palavras
A “Fala inicial” constrói com sons e imagens de morte o labirinto da Inconfidência e pergunta quem julga e quem é culpado. “Cenário”, em tercetos à maneira de Dante, nasce da viagem de Cecília a Ouro Preto, e o “Romance LIII ou Das palavras aéreas” mostra a palavra que cria e destrói.
Compara o poeta ao historiador: chamar de sinistro o 21 de abril já é um julgamento que nenhum relato histórico frio faria.
musicalidadeterza rimapalavra poéticaTiradentespoesia e história22 min -
Aula 18 Das palavras aéreas à inconformada Marília
“Das palavras aéreas” mostra a palavra que liberta e resiste à censura, mas também condena, exila e ergue a forca de Tiradentes. “Da inconformada Marília” dá voz à noiva abandonada, e o Romanceiro é lido como reflexo das tensões e esperanças do Brasil dos anos 1950.
Lembra que Gonzaga se casou em Moçambique, o que dá peso ao refrão em que Marília só admite ser esquecida se o noivo tiver perdido o juízo.
palavra poéticacensuraTiradentesMaríliaanos 195025 min -
Aula 19 Campo Geral: Miguilim, o Mutum e as dualidades
Campo Geral, novela de Corpo de Baile, é apresentada pela linguagem oral que mistura o erudito e o sertanejo e pelo enredo: Miguilim, o bilhete do tio Terêz, a morte de Dito, a miopia descoberta. A abertura revela um narrador distante, um tempo posterior à escravidão e dualidades como belo e feio.
Sugere ler Guimarães Rosa em voz alta, como quem ouve causos ao redor da fogueira, porque a leitura silenciosa perde o ritmo e a graça da história.
oralidadeMiguilimCorpo de Bailedualidadesnarrador29 min -
Aula 20 Santo Agostinho e a memória em Campo Geral
As lembranças esgarçadas de Miguilim são lidas pelos quatro níveis de memória de Santo Agostinho, dos sentidos à consciência de si, até os óculos revelarem que o Mutum era bonito. A epígrafe de Plotino e a hipótese de que o narrador seja o médico, uma espécie de proto-Guimarães Rosa, completam a leitura.
Ilustra a memória agostiniana com uma lembrança do próprio professor: a última noite na casa antiga, vendo TV com o pai sobre um cobertor azul.
memóriaSanto AgostinhoPlotinonarradoróculos de Miguilim32 min -
Aula 21 Infância, morte e fé em Campo Geral
A relação entre Miguilim e o irmão Dito guia a leitura de cenas de mentira, castigo, medo da morte e fé popular, como as rezas na tempestade e a simpatia do osso de galinha. A definição de bem e mal dada por Dito e os óculos selam a perda da inocência.
Quando Miguilim inventa que os presentes caíram num córrego com jacaré, Dito diz que prefere a história com jacaré: de novo, a tensão entre literatura e realidade.
infânciamorte de Ditoreligiosidade popularbem e malperda da inocência34 min -
Aula 22 Dois Irmãos: intertexto, família e história do Brasil
Sem o apoio das escolas literárias, a leitura de Dois Irmãos se orienta pela obra aberta e pelos limites da interpretação de Umberto Eco. A rivalidade de Yaqub e Omar ecoa Caim e Abel e Esaú e Jacó, e a decadência da família libanesa em Manaus pode espelhar a do Brasil.
Explica como a compra da órfã Domingas a uma madre superiora, em pleno século XX, remete à tradição brasileira dos agregados e da família estendida.
obra abertaintertextualidadeimigração libanesaagregadosManaus29 min -
Aula 23 Yaqub e Omar: retorno, rivalidade e a cicatriz
A volta de Yaqub do Líbano, em 1945, rústico e sem falar português, contrasta com o audacioso Omar, preferido de Zana. Da infância à disputa por Lívia, a rivalidade leva à garrafada que deixa em Yaqub uma cicatriz, eco da marca de Caim, e à vingança depois do golpe de 1964.
Mostra como um gesto mínimo, Lívia alisando um selo raro entre os gêmeos, basta para acender o ciúme de Omar e selar a rivalidade.
rivalidadeciúmemarca de CaimZanaManaus31 min -
Aula 24 A geografia da casa em Dois Irmãos
A distribuição dos espaços da casa espelha a hierarquia social: quartos iguais para os gêmeos, um aposento à parte para Rânia e o quintal para Domingas e Nael, que raramente se senta à mesa. A modernização de Manaus, com a Zona Franca, arrasta a família e a cultura local para a ruína.
Mostra como, na casa dos Reinoso, os macacos enjaulados parecem valer mais que as empregadas caboclas, que os patrões nem se dão ao trabalho de educar.
hierarquia socialagregadosespaço da casaZona Francaidentidade cultural35 min -
Aula 25 Honwana, o Cão-Tinhoso e a hierarquia colonial
Nós Matamos o Cão-Tinhoso (1964), de Luís Bernardo Honwana, militante da Frelimo, reúne contos de testemunho que buscam descolonizar mentes sem cair no panfleto. No conto-título, a morte do cão sarnento e os cargos grafados com maiúscula revelam a hierarquia entre colonizadores, “não pretos” e pretos.
Contrasta Honwana com Graciliano Ramos: em Angústia o marxismo estrutura o romance, enquanto nos contos moçambicanos ninguém é herói ou vilão por definição.
literatura moçambicanacolonialismodescolonizaçãoliteratura engajadahierarquia colonial29 min -
Aula 26 O Cão-Tinhoso e a banalidade do mal
A marcha das crianças no conto-título reproduz a hierarquia colonial: a vontade do administrador vira ordem do veterinário, que Quim impõe ao narrador, e os meninos negros são enxotados com insultos. Essa cadeia de obediência é lida à luz da banalidade do mal de Hannah Arendt.
Um detalhe diz muito: o narrador não sabe se deve se levantar cada vez que a professora passa atrás dele no intervalo, retrato da obediência subserviente.
colonialismoobediênciabanalidade do malracismohierarquia30 min -
Aula 27 Micropoder e linguagem nos contos de Honwana
Em “Dina”, o capataz branco retarda o almoço dos trabalhadores, se aproveita da filha do velho Madala e, bêbado, os rebaixa de rapazes a cachorros: é o micropoder colonial. “As mãos dos pretos” reúne explicações racistas para as palmas claras, desmontadas pela mãe do narrador.
Mostra como uma mesma frase, sobre a impossibilidade de trabalhar de joelhos, passa do murmúrio submisso ao sibilo de raiva na boca de Madala.
micropoderlinguagem e poderracismocolonização mentalliteratura moçambicana34 min
Quanto você já sabe sobre Literatura Brasileira e de Língua Portuguesa?
5 perguntas rápidas, sorteadas entre 31. Você vê a resposta na hora, com uma explicação curta. Dá para jogar quantas rodadas quiser.
Curiosidades sobre o tema
Vários poetas árcades de Minas estiveram envolvidos na Inconfidência Mineira: além de Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, que morreu na prisão em 1789, e Alvarenga Peixoto, degredado para a África.
A ideia do “bom selvagem”, associada ao filósofo Jean-Jacques Rousseau, é uma das inspirações do arcadismo: o homem seria naturalmente puro e teria sido corrompido pela civilização, daí o sonho de uma vida simples, entre pastores.
A independência dos Estados Unidos, em 1776, e as ideias iluministas inspiraram os inconfidentes mineiros, que sonhavam com um governo livre da metrópole portuguesa. A Revolução Francesa só começaria em julho de 1789, meses depois de a conspiração ser denunciada.
Machado de Assis, neto de escravos alforriados, gago e epilético, nasceu pobre no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Tinha tudo para não dar certo, diz o curso, e tornou-se o maior escritor brasileiro e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.
Fernando Pessoa deu aos heterônimos biografias completas, com data de nascimento, profissão, aparência física e até horóscopo. Cada um tinha estilo próprio e, em certo sentido, era uma pessoa real para ele.
Fernando Pessoa passou a infância em Durban, na África do Sul, onde foi educado em inglês. Segundo o curso, o menino mandava pelo correio cartas a dois amigos imaginários, um inglês e um francês, inimigos entre si, e depois respondia por eles.
Dom Sebastião, rei de Portugal, desapareceu em 1578 na batalha de Alcácer-Quibir, no norte da África. As dúvidas sobre sua morte deram origem ao sebastianismo, a crença de que o rei voltaria para salvar o país, que Pessoa retoma em Mensagem.
A frase “Minha pátria é a língua portuguesa” é de Fernando Pessoa, mas está no Livro do Desassossego, atribuído a Bernardo Soares, que ele chamava de semi-heterônimo. Ela ecoa a tese do curso de que o império anunciado em Mensagem talvez seja a própria língua.
Em Mensagem, na seção Os Avisos, Fernando Pessoa se coloca na linhagem dos profetas de Portugal, ao lado de Bandarra, sapateiro de Trancoso no século XVI, e do padre Antônio Vieira, anunciando o Quinto Império.
O poema “No meio do caminho”, de Alguma Poesia, provocou zombarias por décadas depois de sair na Revista de Antropofagia, em 1928. Em 1967, Drummond reuniu ataques e elogios num livro que chamou de biografia do poema.
Angústia chegou às livrarias em 1936, quando Graciliano Ramos estava preso: detido em março daquele ano, depois do levante comunista de 1935, passou cerca de onze meses na cadeia sem acusação formal. Só entraria no Partido Comunista em 1945, e a prisão viraria livro em Memórias do Cárcere, publicado após sua morte, em 1953.
Cecília Meireles esteve ligada ao grupo da revista Festa, lançada no Rio em 1927, de orientação espiritualista, que queria um modernismo sem romper com a herança simbolista. Daí o neossimbolismo que o curso reconhece no Romanceiro da Inconfidência.
Para o curso, Guimarães Rosa deve ser lido em voz alta, como quem ouve causos ao redor da fogueira: a leitura silenciosa perde o ritmo e a graça de uma prosa que mistura a fala do sertão e o vocabulário erudito.
O curso levanta a hipótese de que o narrador de Campo Geral seja o médico que examina Miguilim e lhe empresta os óculos, uma espécie de proto-Guimarães Rosa: o próprio escritor foi médico no interior de Minas Gerais antes de seguir a carreira diplomática.
Campo Geral faz parte de Corpo de Baile (1956). Edições posteriores dividiram o conjunto em três volumes, e a novela passou a sair ao lado da história de Manuelzão, em Manuelzão e Miguilim, divisão comercial que o professor lamenta.
A teoria de Santo Agostinho sobre os níveis de memória, das impressões dos sentidos à consciência de si, guia a leitura de Campo Geral no curso: Miguilim passa por esses graus até que os óculos lhe mostram que o Mutum era bonito.
Para ler Dois Irmãos, romance de 2000 que nenhuma escola literária explica, o curso recorre a Umberto Eco: a obra é aberta a muitas leituras, mas a interpretação tem limites, e é o próprio texto que os impõe.
Luís Bernardo Honwana publicou Nós Matamos o Cão-Tinhoso em 1964, com pouco mais de 20 anos. No mesmo ano aderiu à Frelimo e foi preso pelas autoridades coloniais portuguesas, ficando na cadeia até 1967.
Para acompanhar Honwana, o professor recomenda a História Geral da África, coleção publicada pela Unesco, e Os Cus de Judas, romance em que o português António Lobo Antunes narra a guerra colonial em Angola.
Fabio Ulanin
Fabio Ulanin é professor há mais de 30 anos, mestre em crítica literária pela PUC-SP e especializado em literatura brasileira e portuguesa.
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