A Ilíada não conta a Guerra de Troia inteira. Cobre cerca de cinquenta dias do último ano do conflito, centrados na cólera de Aquiles, e termina com o funeral de Heitor, sem narrar o cavalo de madeira nem a queda da cidade.
As Grandes Epopeias da Antiguidade Clássica
Uma leitura comentada, canto a canto, da Ilíada, da Odisseia e da Eneida, os poemas que educaram gregos e romanos.
Professor Mauro KellerDo que trata o curso
Há cerca de 2.700 anos, poemas nascidos de uma longa tradição oral ganharam a forma que conhecemos. A Ilíada e a Odisseia, atribuídas a Homero, e a Eneida, que Virgílio compôs sete séculos depois seguindo seus passos, educaram gerações de gregos e romanos e continuam a habitar a imaginação do Ocidente. O curso parte do gênero épico e da Guerra de Troia, pano de fundo comum às três epopeias, e explica por que vale a pena ler Homero hoje e como fazê-lo: que traduções escolher e como acolher um mundo povoado de deuses e heróis.
Com o professor Mauro Keller, o aluno percorre a Ilíada da cólera de Aquiles ao encontro com Príamo, acompanha a Odisseia canto a canto, da viagem de Telêmaco ao reencontro de Ulisses com Penélope e Laertes, e lê a Eneida livro a livro, da queda de Troia ao duelo final entre Eneias e Turno. Os trechos são lidos em voz alta, nas traduções de Frederico Lourenço e de Tassilo Orpheu Spalding, e comentados com atenção aos personagens, aos deuses e às ideias que movem a ação: honra e glória, desmedida e justa medida, pietas e fatum.
Cada episódio serve de ponto de partida para perguntas de ética, política e direito: o que o Ciclope, incapaz de reconhecer o outro, ensina sobre a vida em sociedade; por que Ulisses pede para ser amarrado ao mastro; se a partida de Eneias é traição ou fidelidade. O professor dialoga com estudiosos como Werner Jaeger, Bruno Snell, Moses Finley, Bernard Knox e Pierre Grimal, sem deixar de tomar posição própria, e encerra o percurso nos versos finais da Eneida, em que o verbo condere, enterrar e fundar, revela o preço da fundação de Roma.
Para quem é
- Quem sempre quis ler Homero e Virgílio e não sabia por onde começar
- Leitores que querem ler os clássicos por inteiro, com um guia canto a canto
- Estudantes de humanidades em busca de contato direto com os poemas fundadores do Ocidente
- Professores de literatura, história ou filosofia que queiram trabalhar esses textos em sala
- Pais e educadores interessados nas histórias que formaram gerações de gregos e romanos
- Quem gosta de pensar ética, política e direito a partir de grandes narrativas
Veja uma aula antes de decidir
O que você vai aprender
- O que caracteriza o gênero épico e como a Guerra de Troia serve de pano de fundo às três epopeias
- Os sinais da origem oral dos poemas homéricos: o hexâmetro datílico, as fórmulas e os epítetos repetidos
- Como escolher traduções de Homero e Virgílio em português e ler os poemas sem travar na primeira página
- O código heroico grego, com honra, glória, aristeia e híbris, e a escolha de Aquiles entre uma vida longa e uma vida gloriosa
- As diferenças entre a Ilíada e a Odisseia, do tom e da estrutura narrativa ao papel dos deuses
- A ler episódios da Odisseia como questões éticas e políticas: o Ciclope e o reconhecimento do outro, as sereias e o sentido das instituições, Cila e Caríbdis e o dilema do mal menor
- Pietas e fatum como chaves da Eneida, e por que o fatum de Virgílio, ao contrário da moira homérica, não anula a liberdade humana
- O contexto da Eneida: as guerras civis, a encomenda de Augusto e a dívida de Virgílio com Homero
- A comparar o heroísmo individual grego com a disciplina coletiva romana
- Como as epopeias ecoaram na cultura posterior, de Santo Agostinho e Dante a Camões, Bernini e Purcell
Por que estudar isso hoje
Durante séculos, gregos e romanos aprenderam com esses poemas o que eram coragem, honra, fidelidade e dever. Homero foi o grande educador da Grécia: Platão, Aristóteles, Sófocles, Tucídides e Péricles tiveram a formação plasmada nele, e Virgílio nunca deixou de ser lido na Europa, de Santo Agostinho a Dante. Conhecer as epopeias é entender de onde vêm muitas das imagens e expressões com que ainda pensamos, do presente de grego ao canto da sereia, do mentor ao voto de Minerva.
Mais do que isso, elas propõem perguntas sem respondê-las por nós. Vale mais uma vida longa e anônima ou uma vida breve e gloriosa? Por que Ulisses recusa a imortalidade para voltar a uma esposa mortal? O que obriga Eneias a partir, contra o próprio coração? Lidas por inteiro e com um guia, essas histórias exercitam o juízo moral e mostram também o que ainda faltava ao mundo antigo, como a ideia da dignidade de toda pessoa humana, que só amadureceria com o cristianismo.
As 14 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
-
Introdução ao curso Ilíada, Odisseia e Eneida: o plano do curso
Apresentação das três grandes epopeias da Antiguidade, a Ilíada e a Odisseia, de Homero, e a Eneida, de Virgílio, do método do curso, das traduções adotadas (Frederico Lourenço e Tassilo Orpheu Spalding), do vínculo entre Grécia e Roma e da atualidade desses clássicos.
O objetivo é declarado logo de saída: que, ao fim do curso, o aluno tenha lido por inteiro as três epopeias, e não apenas ouvido falar delas.
epopeiaHomeroVirgíliotraduçõesclássicos11 min -
Aula 1 Por que ler Homero, e como lê-lo
O gênero épico e a Guerra de Troia como pano de fundo das três epopeias; os méritos literários de Homero, do hexâmetro à tradição oral; o sentido da escolha de Aquiles; Homero como educador da Grécia; e conselhos de leitura, das traduções à suspensão da descrença diante dos deuses.
Desfaz um equívoco comum: a Ilíada não narra a Guerra de Troia inteira, só uns cinquenta dias do último ano do conflito.
poesia épicaGuerra de Troiahexâmetro datílicoHomero educadortraduções2 partes nesta aula
- Parte 1: Gênero épico e méritos literários de Homero · 56 min O gênero épico e a Guerra de Troia como pano de fundo das três epopeias, com as escolhas decisivas de Aquiles, Ulisses e Eneias. Como motivos para ler Homero, aponta os méritos literários, dos diálogos ao hexâmetro datílico da tradição oral, e temas eternos como a morte.
- Parte 2: Homero, educador da Grécia, e como lê-lo · 56 min A escolha de Aquiles lida como primado da intensidade e da virtude sobre a duração da vida; Homero como educador da Grécia e sua transmissão até o Renascimento. Aconselha traduções que não travem a leitura e a suspensão da descrença diante dos deuses e da cultura heroica.
1h52 -
Aula 3 A Ilíada, da cólera de Aquiles a Príamo
A Ilíada em trechos comentados: a disputa entre Aquiles e Agamêmnon à luz da honra, a despedida de Heitor e Andrômaca, a embaixada recusada, a híbris de Pátroclo, o escudo de Aquiles, a morte de Heitor e o encontro com Príamo, em que Aquiles aprende o perdão.
Sem jamais dizê-lo abertamente, Homero condena a guerra: a prova está em cenas como a de Heitor tirando o elmo que assustara o filho pequeno.
cólera de AquileshonraHeitor e Andrômacahíbrisperdão2 partes nesta aula
- Parte 1: Ilíada: cólera de Aquiles e despedida de Heitor · 54 min Os cantos 1, 3, 6 e 9 da Ilíada: a disputa entre Aquiles e Agamêmnon, lida à luz da honra, o duelo entre Páris e Menelau, a despedida de Heitor e Andrômaca e a embaixada recusada por Aquiles. Sustenta que Homero, por seu silêncio eloquente, condena a guerra.
- Parte 2: Da morte de Pátroclo ao resgate de Heitor · 56 min A segunda metade da Ilíada em trechos comentados: a híbris de Pátroclo, o luto e a decisão de Aquiles, o escudo que celebra a paz, a morte de Heitor e o encontro com Príamo, em que Aquiles aprende o perdão. Conclui que a Ilíada antecipa a tragédia grega.
1h49 -
Aula 4 A Odisseia: estrutura e Telemaquia
As diferenças entre a Odisseia e a Ilíada, do tom romanesco à estrutura não linear e ao papel dos deuses; em seguida, a Telemaquia (cantos 1 a 4): o proêmio, a assembleia dos deuses, Atena disfarçada de Mentor, Telêmaco diante dos pretendentes e as visitas a Nestor e a Menelau.
Quando Telêmaco manda a mãe de volta aos aposentos, a aula ouve ali um grito de maioridade de quem, no fundo, continua inseguro.
estrutura da Odisseiaintervenção divinaTelemaquiapretendentesAtena e Mentor2 partes nesta aula
- Parte 1: Odisseia: estrutura e diferenças em relação à Ilíada · 49 min Seis diferenças entre a Odisseia e a Ilíada: dez anos narrados em menos versos, tom romanesco em vez de trágico, estrutura não linear em três partes, deuses menos determinantes, ajuda divina condicionada à virtude e elogio da família e do cotidiano. Relembra também o papel de Ulisses na Ilíada.
- Parte 2: A Telemaquia: Telêmaco em busca do pai · 39 min Os cantos 1 a 4 da Odisseia em trechos comentados: o proêmio e a astúcia de Ulisses, a assembleia dos deuses, em que Zeus culpa a loucura humana pelo sofrimento excessivo, Atena disfarçada de Mentor, Telêmaco diante dos pretendentes e as visitas a Nestor, Menelau e Helena.
1h27 -
Aula 5 Calipso, Nausícaa e a corte dos feácios
Os cantos 5 a 8 da Odisseia: Ulisses recusa a imortalidade oferecida por Calipso para voltar a Penélope, naufraga, encontra Nausícaa e é acolhido pelos feácios, povo hospitaleiro; o aedo Demódoco, os jogos e a provocação de Euríalo abrem uma reflexão sobre a honra grega.
A figura de Demódoco, lida como alter ego de Homero, explica por que os gregos associavam cegueira e sabedoria e de onde vem a lenda do poeta cego.
CalipsoNausícaahospitalidadeDemódocohonra e glória2 partes nesta aula
- Parte 1: Odisseia: Calipso, o naufrágio e Nausícaa · 51 min Os cantos 5 a 7 da Odisseia em trechos comentados: Calipso liberta Ulisses, que recusa a imortalidade para voltar a Penélope; o naufrágio provocado por Poseidon; o encontro com Nausícaa e a chegada ao palácio dos feácios, povo utópico e hospitaleiro, onde Alcínoo elogia a justa medida.
- Parte 2: Demódoco, os jogos feácios e a glória grega · 45 min Canto VIII da Odisseia: o aedo cego Demódoco, os jogos dos feácios e o canto dos amores de Ares e Afrodite. A provocação de Euríalo abre a reflexão sobre a honra grega, vista com Werner Jaeger como ação que acrescenta ser, e sobre se Homero acreditava nos deuses.
1h36 -
Aula 6 Do Ciclope às sereias
Os cantos 9 a 12 da Odisseia, narrados por Ulisses aos feácios: lotófagos, Ciclope, Circe, a descida ao Hades, as sereias, Cila e Caríbdis e o gado do Sol. Cada episódio abre uma questão: o reconhecimento do outro, a sobrevivência da alma, o sentido das instituições, o mal menor e os absolutos morais.
A célebre fala de Aquiles no Hades, que preferiria ser servo de um pobre a reinar sobre os mortos, é relida como constatação, não como arrependimento.
Polifemo e o ardil de NinguémCirceHadessereiasabsolutos morais2 partes nesta aula
- Parte 1: Do Ciclope a Circe: Ulisses narra suas aventuras · 1h06 Cantos IX e X da Odisseia: Ulisses narra aos feácios os episódios dos cícones, lotófagos, Ciclope, Éolo, lestrígones e Circe. Destaca-se o ardil de 'Ninguém': para Polifemo, sem pólis nem leis, o outro não é alguém, e sem esse reconhecimento não há compaixão, hospitalidade nem sociedade.
- Parte 2: Do Hades às sereias: alma, tentação e dilemas · 1h15 Cantos XI e XII: contra Bruno Snell, argumenta que Homero já concebia a identidade que sobrevive à morte; Ulisses amarrado ao mastro ilustra a defesa contra a tentação e a legitimidade racional das instituições; Cila e Caríbdis, o dilema do mal menor; o gado do Sol, um absoluto moral.
2h20 -
Aula 7 Ítaca, o disfarce e o reencontro com Telêmaco
Os cantos 13 a 16 da Odisseia: os feácios levam Ulisses a Ítaca e são punidos por Poseidon; Atena o disfarça de mendigo, Eumeu o acolhe e Telêmaco reencontra o pai. Em discussão, o antropomorfismo dos deuses, as mentiras de Ulisses e a ética das virtudes diante da ética das normas.
Com Jacinto Choza, o disfarce de Ulisses ganha alcance universal: todo ser humano caminha incógnito, pois sua verdade mais profunda escapa ao juízo alheio.
Poseidon e os feáciosantropomorfismo dos deusesEumeumentiras de Ulissesética das virtudes2 partes nesta aula
- Parte 1: Poseidon, os feácios e o antropomorfismo dos deuses · 36 min Canto XIII: os feácios levam Ulisses a Ítaca e Poseidon os pune com aval de Zeus, sinal, para Bernard Knox, de que os deuses não evoluem moralmente da Ilíada à Odisseia. Discute o antropomorfismo olímpico, a consciência moral independente da religião e o anseio grego por algo mais elevado.
- Parte 2: O retorno disfarçado e o reencontro com Telêmaco · 1h04 Cantos XIII a XVI: Atena disfarça Ulisses de mendigo, Eumeu o acolhe, Telêmaco volta de Esparta e reencontra o pai. Comentam-se as mentiras de Ulisses, a ética das virtudes diante da ética das normas e a fala de Menelau sobre hospitalidade, que antecipa a mesotes aristotélica.
1h39 -
Aula 8 O mendigo no palácio e a cicatriz
Os cantos 17 a 20 da Odisseia: disfarçado de mendigo, Ulisses entra no palácio, é reconhecido pelo cão Argos, suporta os insultos dos pretendentes, vence o mendigo Iro e conversa com Penélope sem se revelar, até ser reconhecido por Euricleia pela cicatriz. Em foco, a ambiguidade de Penélope e o autocontrole de Ulisses.
Cada afronta sofrida pelo mendigo prepara o leitor para aceitar o massacre final, um recurso de suspense que muitos autores adotariam depois.
cão ArgospretendentesPenélopecicatriz e Euricleiaautocontrole2 partes nesta aula
- Parte 1: O mendigo no palácio: Argos, Iro e pretendentes · 49 min Cantos XVII e XVIII: disfarçado de mendigo, Ulisses entra no palácio, é reconhecido pelo cão Argos, suporta as agressões de Melântio e Antínoo e vence o mendigo Iro. Os pretendentes são descritos como os playboys da época, e Penélope, num súbito acesso de vaidade, revela sua face ambígua.
- Parte 2: Penélope, a cicatriz e a paciência de Ulisses · 47 min Cantos XIX e XX: Ulisses esconde as armas, conversa com Penélope sem se revelar e é reconhecido por Euricleia pela cicatriz. Discutem-se a ambiguidade de Penélope, a contenção de Ulisses ('aguenta, coração') e o boieiro Filécio, disposto a emigrar numa época em que o exílio era pena duríssima.
1h35 -
Aula 9 O arco, a vingança e o desfecho
Os cantos 21 a 24 da Odisseia: a prova do arco e o massacre dos pretendentes, violência própria de um mundo anterior à ideia cristã da dignidade da pessoa; depois, a prova do leito de oliveira, com que Penélope reconhece o marido, o reencontro com Laertes e a paz imposta por Atena.
Em meio à chacina, Ulisses impede a ama de exultar sobre os mortos, por ser coisa ímpia: um limite moral inesperado no auge da vingança.
prova do arcomassacre dos pretendentesdignidade humanaleito de oliveiracaráter de Ulisses2 partes nesta aula
- Parte 1: O arco e o massacre dos pretendentes · 54 min Cantos XXI e XXII: a prova do arco proposta por Penélope, a vitória do mendigo Ulisses e o massacre dos pretendentes e das servas infiéis. A violência desproporcional é lida no contexto pré-cristão, anterior à noção de transcendência da pessoa humana, terceiro pilar da civilização ocidental.
- Parte 2: Penélope, Laertes e o desfecho da Odisseia · 36 min Cantos XXIII e XXIV: Penélope reconhece Ulisses pela prova do leito de oliveira, as almas dos pretendentes chegam ao Hades, Ulisses reencontra Laertes e Atena impõe a paz. Encerra com um balanço de Ulisses como herói da astúcia, da ousadia sem temeridade e da inteligência prática.
1h30 -
Aula 10 Virgílio, Augusto e as chaves da Eneida
Introdução à Eneida: Virgílio como clássico por excelência, segundo T. S. Eliot, as traduções recomendadas, a vida do poeta e a encomenda de Augusto após as guerras civis. Pietas e fatum aparecem como chaves do poema, e a Quarta Écloga explica por que os cristãos viram em Virgílio um profeta pagão.
A piada, contada por Ezra Pound, do aluno que tomou Eneias por padre tem fundo de verdade: o herói é um sacerdote, intermediário entre seu povo e os deuses.
conceito de clássicotraduções da EneidaAugustopietasfatum e moira2 partes nesta aula
- Parte 1: A Eneida: clássico por excelência e projeto augustano · 57 min Virgílio é, segundo T. S. Eliot, o clássico por excelência, e a comparação com Homero lhe dá vantagem no acabamento formal, não na criatividade. Seguem-se recomendações de tradução, a biografia do poeta e a encomenda de Augusto, após as guerras civis: glorificar Roma e a origem troiana dos Júlios.
- Parte 2: Pietas e fatum, as chaves da Eneida · 33 min Pietas e fatum resumem a Eneida: defende que o poema, mais que propaganda de Augusto, encarna a devoção romana a deuses, pátria e família e concebe um destino guiado por inteligência, ao contrário da moira homérica. Mostra como a Quarta Écloga fez de Virgílio um profeta pagão para os cristãos.
1h30 -
Aula 11 Livros 1 a 6: a Odisseia romana
A primeira metade da Eneida, a “Odisseia romana”: o livro 1 até o banquete de Dido, a queda de Troia e a fuga de Eneias com o pai nas costas, as errâncias, a paixão de Dido, com a partida do herói defendida como ato de pietas, os jogos fúnebres e a descida ao Hades.
O “Arma virumque cano” de Virgílio ecoa em “As armas e os barões assinalados”, de Camões, onde “barões” significa varões.
proêmio e Junoqueda de TroiaDidopietasdescida ao Hades3 partes nesta aula
- Parte 1: Eneias na Ilíada e o livro 1 da Eneida · 1h10 Na Ilíada, Eneias é salvo pelos deuses por estar fadado a sobreviver, semente da lenda de sua vinda à Itália. O livro 1 é comentado do proêmio ao banquete de Dido, com destaque para um Eneias que esconde a própria dor e para o paralelo com a Odisseia.
- Parte 2: Queda de Troia, errâncias e tragédia de Dido · 1h03 Livros 2 a 4: a queda de Troia e a fuga de Eneias com o pai nas costas, as errâncias até a morte de Anquises e a paixão de Dido. Defende a partida de Eneias como ato de pietas e destaca que a rainha se mata contra os fados.
- Parte 3: Jogos fúnebres e a descida ao Hades · 48 min O livro 5 traz os jogos em honra de Anquises e a revolta das mulheres; o livro 6, a descida ao Hades com a Sibila. Destaca o silêncio de Dido diante de Eneias, o Tártaro que inspirou Dante, os Campos Elísios, a metempsicose e o desfile de futuros romanos.
3h -
Aula 12 Chegada ao Lácio e o escudo de Eneias
Os livros 7 e 8 abrem a “Ilíada romana”: Eneias chega ao Lácio e é acolhido pelo rei Latino, mas a Fúria Alecto, enviada por Juno, inflama Amata e Turno e provoca a guerra. Eneias busca a aliança de Evandro e recebe de Vênus um escudo com a história futura de Roma.
Ao contrário de Homero, Virgílio não deixa os fados anularem a liberdade: Turno, por exemplo, não é mera vítima de Alecto, pois sua vaidade preparou o terreno.
Lácio e rei LatinoAlecto e Turnoportas de JanoEvandro e Palanteliberdade e destino2 partes nesta aula
- Parte 1: Chegada ao Lácio e a guerra instigada por Alecto · 49 min O livro 7 abre a “Ilíada romana”: Eneias chega ao Tibre, numa Itália fragmentada em pequenos reinos, e é bem acolhido pelo rei Latino. A Fúria Alecto, enviada por Juno, inflama Amata e Turno e provoca o primeiro confronto; a própria Juno abre as portas do templo de Jano.
- Parte 2: Evandro, o escudo de Eneias e a liberdade humana · 35 min No livro 8, Eneias busca a aliança de Evandro, rei árcade no futuro Palatino, que lhe confia o filho Palante, e Vênus obtém de Vulcano um escudo com a história futura de Roma. Defende que, em Virgílio, ao contrário de Homero, os fados não anulam a liberdade humana.
1h23 -
Aula 13 Niso e Euríalo e a fúria de Eneias
Os livros 9 e 10 da Eneida: o ataque de Turno ao acampamento troiano, a trágica aventura de Niso e Euríalo e a disciplina romana diante da aristeia individual; depois, a assembleia dos deuses, o fatum virgiliano distinto da moira homérica e a morte de Palante, que torna Eneias um guerreiro furioso.
O gemido de Eneias diante do jovem Lauso, que ele acabara de matar, mostra que Virgílio não quis fazer do herói o sábio impassível dos estoicos.
Niso e Euríalodisciplina romanafatum e moiraestoicismomorte de Palante2 partes nesta aula
- Parte 1: Niso, Euríalo e o cerco ao acampamento troiano · 59 min No livro 9, Turno ataca o acampamento troiano na ausência de Eneias, e as naves se transformam em ninfas. Destaca a trágica aventura de Niso e Euríalo, o “sic itur ad astra” dito a Ascânio e as fileiras cerradas, virtude romana, que repelem a aristeia individual de Turno.
- Parte 2: O fatum virgiliano e a fúria de Eneias · 1h16 O livro 10 da Eneida, da assembleia dos deuses à morte de Mesêncio. A partir do veredito de Júpiter, distingue o fatum virgiliano, palavra de uma inteligência próxima do logos estoico, da moira homérica, e mostra como a morte de Palante torna Eneias um guerreiro furioso.
2h15 -
Aula 14 Camila, Turno e o fim da Eneida
Os livros 11 e 12 da Eneida: o luto por Palante e a magnanimidade de Eneias na trégua, o debate entre Drances e Turno, a morte de Camila e o duelo final, em que Eneias mata Turno ao ver o boldrié de Palante, cólera que não anula sua pietas.
Nos versos finais, o verbo condere significa ao mesmo tempo enterrar a espada e fundar: a fundação de Roma cobra seu preço em sangue.
luto por PalanteDrances e TurnoCamilamorte de Turnopietas e gravitas2 partes nesta aula
- Parte 1: Luto por Palante, Drances e a morte de Camila · 45 min Livro 11 da Eneida: o luto por Palante, a trégua que revela a magnanimidade de Eneias, o lamento de Evandro, a recusa de Diomedes em combatê-lo, o debate entre Drances e Turno e a morte de Camila, cujo efeito psicológico inverte o cerco.
- Parte 2: O fim da Eneida: Turno, pietas e gravitas · 1h17 Livro 12 da Eneida: o pacto rompido por Juturna e o duelo em que Eneias mata Turno ao ver o boldrié de Palante. Defende que essa cólera não anula a pietas do herói e lê no verbo condere, enterrar e fundar, o preço da fundação de Roma.
2h01
Quanto você já sabe sobre As Grandes Epopeias da Antiguidade Clássica?
5 perguntas rápidas, sorteadas entre 29. Você vê a resposta na hora, com uma explicação curta. Dá para jogar quantas rodadas quiser.
Curiosidades sobre o tema
Não sabemos ao certo se Homero existiu. Os poemas que levam seu nome, compostos provavelmente entre 800 e 700 a.C., nasceram de uma longa tradição de poesia oral, cantada de memória por aedos antes de ser fixada por escrito.
Os cantadores do sertão nordestino, que declamam e improvisam de memória, e a milonga do pampa gaúcho guardam algo da técnica de Homero: um ritmo fixo dentro do qual o poeta recorda, repete e inventa.
Homero raramente diz abertamente o que pensa. Na esteira do poeta inglês Alexander Pope, fala-se dos seus “silêncios eloquentes”: a Ilíada nunca condena a guerra em voz alta, mas a condenação se deduz do que o poeta mostra e do que cala.
Segundo Plutarco, Alexandre Magno, que teve Aristóteles como preceptor, guardava sob o travesseiro, junto com o punhal, um exemplar da Ilíada revisto pelo mestre. Poucas imagens mostram tão bem o que significa dizer que Homero foi o educador da Grécia.
Aquiles, ao encontrar Ulisses no Hades, diz preferir ser servo de um homem pobre na terra a reinar entre os mortos. A frase é frequentemente lida como arrependimento — mas talvez seja apenas constatação: a vida, qualquer vida, vale mais que o pós-morte sombrio dos gregos arcaicos.
A palavra “mentor”, usada hoje para designar um conselheiro experiente, vem do nome de um velho amigo de Ulisses. Na Odisseia, porém, quem aconselha Telêmaco sob essa aparência é muitas vezes a própria Atena, disfarçada de Mentor.
O “voto de Minerva”, nome que damos ao voto que decide um empate, vem da Oréstia de Ésquilo: no julgamento de Orestes, é o voto de Atena, a Minerva dos romanos, que garante a absolvição. A Odisseia já alude a essa história no canto 1, quando Zeus lembra a vingança de Orestes contra Egisto.
Os deuses de Homero não são santos: são vingativos, mentirosos, adúlteros, ciumentos, humanos demais. Por isso a consciência moral dos gregos amadureceu em boa medida por caminhos independentes da religião do Olimpo.
Quando falamos em “presente de grego”, ecoamos a Eneida sem saber. Mas o cavalo de Troia não foi apresentado aos troianos como presente: os gregos o fizeram passar por oferenda à deusa Minerva, e o equívoco persiste há vinte séculos.
Dante escolheu Virgílio como guia no Inferno e no Purgatório, e não por acaso: desde a Antiguidade cristã o poeta era visto como um “profeta pagão”. Na quarta Écloga, escrita por volta de 40 a.C., Virgílio anunciava o nascimento de uma criança que renovaria o mundo, e os primeiros cristãos leram ali o anúncio de Cristo.
Durante séculos, o Ocidente latino praticamente não leu Homero, que continuava a ser estudado pela elite de Bizâncio. No século XIV, Petrarca recebeu de um bizantino um manuscrito grego de Homero e lamentou não poder lê-lo: o poeta era mudo para ele, ou antes, ele era surdo para o poeta. Daí nasceram as primeiras traduções latinas, que devolveram Homero aos leitores do Ocidente.
O mês de janeiro deve seu nome a Jano, o deus romano das transições, representado com duas faces, uma voltada para o passado e outra para o futuro. As portas do seu templo se abriam quando Roma entrava em guerra, e na Eneida é a própria Juno quem as escancara para lançar troianos e latinos ao combate.
Uma lenda registrada por alguns escritores antigos atribui a Ulisses a fundação de Lisboa, a Olisipo dos romanos, cujo nome lembraria o do herói. Não há nenhum fundamento histórico, mas a lenda ajuda a entender por que os portugueses preferem chamá-lo Ulisses, e não Odisseu.
T. S. Eliot escreveu em 1944 o ensaio “What is a Classic?” e elegeu Virgílio como o clássico por excelência. Para Eliot, não há outro autor cuja obra reúna ao mesmo tempo maturidade civilizacional, linguística, literária, excelência estética e universalidade.
Na Galeria Borghese, em Roma, um grupo esculpido por Bernini mostra Eneias fugindo de Troia com o pai Anquises aos ombros; atrás deles, o pequeno Ascânio leva nas mãos o fogo sagrado de Vesta, a chama que Roma guardaria por séculos.
Quando falamos do “canto da sereia”, citamos Homero sem perceber. Mas as sereias da Odisseia nada têm de cauda de peixe: na mitologia grega eram metade mulher, metade pássaro, e cantavam num prado florido, cercadas pelos ossos dos marinheiros que atraíam.
Quando Aristóteles falou da virtude como justo meio entre dois vícios, na Ética a Nicômaco, já o havia dito Homero quatro séculos antes — pela boca de Menelau, sobre a hospitalidade. A filosofia frequentemente apenas formaliza o que a poesia já sabia.
A delicadeza com que a Odisseia trata a psicologia feminina, de Penélope a Nausícaa e Calipso, já levou a supor que o poema tivesse sido escrito por uma mulher. A hipótese remonta a um comentador de Alexandria e foi defendida em 1897 pelo inglês Samuel Butler, mas não passa de conjectura: nada fora do texto a sustenta.
Mauro Keller
Mauro Keller é advogado, com mais de 40 anos de experiência em direito e educação, e já foi procurador do Estado de São Paulo, juiz e professor.
Outros cursos de Mauro Keller
Cursos relacionados
Temas vizinhos, próximos passos da trilha e cursos da mesma área.
Gregos: o Fundamento do Ocidente Guilherme Almeida 6 aulas
Roma Guilherme Almeida 7 aulas
Dante e a Literatura Marcus Boeira 5 aulas
História do Pensamento Ético Larissa Nóbrega 30 aulas
Literatura Brasileira e de Língua Portuguesa Fabio Ulanin 27 aulas
Músicas, Contos e Lendas de Natal Evandro Faustino 8 aulas
Como Estudar História Raphael Tonon 8 aulas
Educação Personalizada Evandro Faustino 20 aulas Comece agora
Compre só este curso ou escolha o Acesso Completo e estude todos os 37 cursos da Tutora.
As Grandes Epopeias da Antiguidade Clássica
R$ 199,40
à vista ou parcelado no cartão
- 14 aulas em vídeo (24 horas)
- 7 dias de garantia
- Compra segura pela Hotmart
Os 37 cursos da Tutora
R$ 598,80
por ano, em até 12x no cartão
- Acesso a todos os 37 cursos do catálogo
- Plano anual: renova até você cancelar
- 7 dias de garantia
- Compra segura pela Hotmart
Na Hotmart, aparece como “Cursos da Tutora”.