O Grande Século XIX
Do Congresso de Viena ao atentado de Sarajevo, o século que desenhou o mundo contemporâneo.
Visão geral
O século XIX não é só a ponte entre a Era Napoleônica e a Primeira Guerra Mundial: é o tempo em que se desenharam os contornos do mundo contemporâneo. Em seis aulas curtas, o professor Guilherme Almeida percorre o período com um olhar assumidamente centrado na Europa, e sobretudo na França, por entender que dali partiram as ordenações que marcaram também a África, a Ásia e as Américas.
O curso parte do Congresso de Viena, que tenta restaurar a Europa anterior a 1789, e acompanha a força crescente da burguesia liberal nas revoluções de 1830 e 1848. Mostra depois como a aliança entre burguesia e aristocracia gera o nacionalismo, com seu tripé de matérias-primas, mercados e mão de obra barata, e como ele impulsiona o imperialismo na África e na Ásia, as unificações da Itália e da Alemanha, a Guerra Franco-Prussiana e o revanchismo francês. A Comuna de Paris e a miséria dos operários de Londres e dos mineiros de carvão revelam o avesso da prosperidade.
O percurso passa também pela filosofia, pela literatura e pela arte do fin de siècle, lidas com Ortega y Gasset e Christopher Dawson como sintomas de um “homem feito às pressas”, e termina na partilha da África e nas cinco crises entre potências que, somadas às alianças, fizeram de um atentado em Sarajevo o estopim da Primeira Guerra Mundial. Pelo caminho, o professor recorre a historiadores como René Rémond e Barbara Tuchman, a romances como Os Miseráveis e a filmes como Feliz Natal e Germinal.
O percurso do curso
Restauração e revoluções liberais
O curso começa em 1814-1815, com o Congresso de Viena, que restaura os Bourbons na França, tenta devolver a Europa ao que era antes de 1789 e se completa com a Santa Aliança, que pretendia conter os movimentos de independência na América; é nesse contexto que o Brasil é elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves. Mas os ares liberais, herdeiros do Iluminismo, já sopram por toda parte: a burguesia ocupa as estruturas políticas, derruba Carlos X em 1830, cena imortalizada em A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, e leva ao trono o rei burguês Luís Filipe. Em 1848, a Primavera dos Povos, que o professor insiste ter sido obra de liberais, e não de socialistas, abre caminho para Napoleão III.
Nacionalismo, imperialismo e unificações
A Aula 2 define o nacionalismo como aliança entre burguesia e aristocracia, movida por um tripé econômico: matérias-primas, mercado consumidor e mão de obra livre e barata, razão pela qual, segundo o professor, também a economia pesou no fim da escravidão. Daí o imperialismo europeu na África e na Ásia, legitimado pela pretensão de levar a civilização a povos tidos como primitivos, e episódios como as Guerras do Ópio. Na mesma lógica, alemães e italianos buscam formar nações poderosas: a Alemanha pela via econômica do Zollverein e com a Áustria excluída após a Guerra Austro-Prussiana; a Itália pela via política, com Garibaldi, Cavour e Vítor Emanuel. Escola, bandeira, hino e serviço militar passam a formar cidadãos patriotas.
A Guerra Franco-Prussiana e as crises
A Aula 3 mostra o expansionismo prussiano voltado para a própria Europa: a Alsácia-Lorena, rica em ferro e carvão, no centro da Guerra Franco-Prussiana, a derrota francesa e a proclamação do Império Alemão na Sala dos Espelhos de Versalhes, humilhação que dá origem ao revanchismo. A Aula 4 acompanha as crises que daí nascem, com o pan-eslavismo russo diante da Áustria e a disputa industrial entre Inglaterra e Alemanha, e o outro lado da prosperidade: a Comuna de Paris, inspirada mais por Os Miseráveis que por Marx, e a vida dos operários de Londres e dos mineiros de carvão, descrita com Barbara Tuchman.
Fin de siècle
A Aula 5 lê a angústia do fim do século em Nietzsche, em Kafka e nos romances de Flaubert e dos russos, e a explica com Ortega y Gasset, para quem o homem da Revolução Industrial foi “feito às pressas”, e com Christopher Dawson, que aponta a perda dos valores cristãos. O impressionismo de Monet, Renoir e Degas tenta dar leveza à existência, e a complexidade do período faz nascer a sociologia, a antropologia e a psicanálise: é o fin de siècle, expressão que, como no livro de Carl Schorske sobre Viena, resume todo esse caos.
Rumo à Primeira Guerra
A última aula trata da partilha da África no Congresso de Berlim (1884-1885), com fronteiras que ignoravam as etnias, e da violência do Congo de Leopoldo II. Somam-se cinco crises entre potências: o revanchismo francês, a rivalidade russo-austríaca nos Bálcãs, a disputa anglo-alemã, agravada pelo projeto da ferrovia Berlim-Istambul-Bagdá, o choque entre russos e alemães em torno dos Dardanelos, controlados pelos otomanos, aliados da Alemanha, e a anexação da Bósnia-Herzegovina pela Áustria-Hungria, que desafia a Sérvia. Com o jogo de alianças, o assassinato de Francisco Ferdinando em Sarajevo deflagra a Primeira Guerra Mundial, tema do curso seguinte do professor.
O que você vai aprender
- O que o Congresso de Viena pretendia e por que não conseguiu devolver a Europa ao que era antes de 1789
- Como a burguesia liberal, herdeira do Iluminismo, ganhou força nas revoluções de 1830 e 1848, e por que a Primavera dos Povos não foi um movimento socialista
- O nacionalismo como aliança entre burguesia e aristocracia e seu tripé: matérias-primas, mercado consumidor e mão de obra livre e barata
- Como o nacionalismo impulsionou o imperialismo na África e na Ásia, das Guerras do Ópio à partilha da África no Congresso de Berlim
- As diferenças entre as unificações da Alemanha e da Itália, e o papel do Zollverein e da Guerra Austro-Prussiana
- A Guerra Franco-Prussiana, a questão da Alsácia-Lorena e a origem do revanchismo francês
- O avesso da prosperidade: a Comuna de Paris e a miséria dos operários e mineiros
- Como a filosofia, a literatura e o impressionismo expressaram a angústia do fin de siècle, lida com Ortega y Gasset e Christopher Dawson
- As cinco crises entre potências e o sistema de alianças que levaram à Primeira Guerra Mundial
Aula por aula
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Apresentação do curso Por que estudar o grande século XIX
O século XIX como chave para entender o mundo atual: um tempo de intensas transformações, examinado por Ortega y Gasset e Christopher Dawson, que viu nascer a sociologia, a antropologia e a psicanálise.
Dos escombros das revoluções e guerras do século XIX, sustenta o professor, nasceu a identidade europeia do século XX.
século XIXmundo contemporâneociências humanasEuropa José Ortega y GassetChristopher Dawson3 min -
Aula 1 Do Congresso de Viena à Primavera dos Povos
O Congresso de Viena tenta devolver a Europa ao que era antes de 1789, mas a burguesia liberal, herdeira do Iluminismo, já está no jogo político. Seguem-se a restauração dos Bourbons, a revolução de 1830, o rei burguês Luís Filipe e a Primavera dos Povos de 1848, obra de liberais, e não de socialistas.
Um congresso de diplomatas em Viena ajuda a explicar por que, em 1815, o Brasil foi elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves.
Congresso de VienaliberalismoRevolução de 1830Primavera dos Povosburguesia Luís XVIIICarlos XLuís Filipe de OrléansEugène DelacroixManifesto Comunista18 min -
Aula 2 Nacionalismo, imperialismo e as unificações alemã e italiana
O conceito freudiano de herança arcaica explica o apelo de Napoleão III. O nacionalismo, aliança entre burguesia e aristocracia, busca matérias-primas, mercados e mão de obra assalariada: daí o imperialismo na África e na Ásia, as Guerras do Ópio e as unificações da Itália e da Alemanha, esta preparada pelo Zollverein.
Para mostrar como a escola fabricava patriotas, o professor indica a abertura do filme Feliz Natal, com três crianças recitando lições nacionalistas.
nacionalismoimperialismoGuerras do Ópiounificação alemãZollverein Sigmund FreudNapoleão IIIOtto von BismarckGiuseppe GaribaldiCavour20 min -
Aula 3 Alsácia-Lorena, Guerra Franco-Prussiana e revanchismo francês
Às vésperas da unificação, o expansionismo prussiano se volta para a própria Europa: a Alsácia-Lorena, rica em ferro e carvão, está no centro da Guerra Franco-Prussiana, que termina com o Império Alemão proclamado em Versalhes e dá origem ao revanchismo francês. Em paralelo, forma-se o Império Austro-Húngaro.
Proclamar o Império Alemão na Sala dos Espelhos de Versalhes foi uma humilhação cujo eco, lembra o professor, chegaria ao Tratado de Versalhes, em 1919.
unificação alemãAlsácia-LorenaGuerra Franco-PrussianarevanchismoImpério Austro-Húngaro Otto von BismarckNapoleão IIIFrederico Barbarroxa16 min -
Aula 4 Crises europeias, Comuna de Paris e miséria operária
O nacionalismo leva as potências ao choque: revanchismo francês, rivalidade russo-austríaca movida pelo pan-eslavismo e disputa industrial anglo-alemã. Na França, a Comuna de Paris dura setenta dias, inspirada mais por Os Miseráveis que por Marx; em Londres e nas minas, a miséria operária revela o avesso da prosperidade.
Mineiros que desciam com velas e gaiolas de pequenos animais para detectar gás mostram, num detalhe, o perigo diário do trabalho industrial.
nacionalismopan-eslavismoComuna de Parisquestão operáriarevanchismo Victor HugoRené RémondBarbara TuchmanArthur Conan DoyleAdolphe Thiers15 min -
Aula 5 Fin de siècle: angústia, literatura e impressionismo
A angústia do fim do século XIX, visível em Nietzsche e Kafka, é explicada com Ortega y Gasset, pelo “homem feito às pressas”, e com Dawson, pela perda dos valores cristãos. A literatura, de Flaubert aos russos, e o impressionismo reagem ao caos, que também faz nascer a sociologia, a antropologia e a psicanálise.
O Julgamento das Nações, de Dawson, e A Rebelião das Massas, de Ortega, devem ser lidos juntos: segundo o professor, completam-se como queijo com goiabada.
fin de sièclecrise existencialimpressionismoliteratura realistapsicanálise Friedrich NietzscheJosé Ortega y GassetChristopher DawsonFranz KafkaCarl Schorske18 min -
Aula 6 Partilha da África e as cinco crises pré-guerra
O Congresso de Berlim (1884-1885) reparte a África sem respeitar as etnias, e o Congo de Leopoldo II expõe a violência colonial. Cinco crises entre potências, do revanchismo francês ao choque entre Áustria-Hungria e Sérvia, somadas ao jogo de alianças, fazem do assassinato de Francisco Ferdinando o estopim da Primeira Guerra Mundial.
O projeto da ferrovia Berlim-Istambul-Bagdá e o estreito de Dardanelos explicam por que alemães, ingleses e russos entraram em rota de colisão.
partilha da ÁfricaCongo Belgaimperialismocrises pré-guerraPrimeira Guerra Mundial Leopoldo IIGandhiFrancisco FerdinandoGavrilo Princip18 min
Autores, obras e figuras discutidos
José Ortega y Gasset · Christopher Dawson · Luís XVIII · Carlos X · Luís Filipe de Orléans · Eugène Delacroix · Manifesto Comunista · Sigmund Freud · Napoleão III · Otto von Bismarck · Giuseppe Garibaldi · Cavour · Frederico Barbarroxa · Victor Hugo · René Rémond · Barbara Tuchman · Arthur Conan Doyle · Adolphe Thiers · Friedrich Nietzsche · Franz Kafka · Carl Schorske · Leopoldo II · Gandhi · Francisco Ferdinando · Gavrilo Princip