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Dante e a Literatura

Da Florença do exílio à Divina Comédia: a poesia de Dante, a filosofia que a sustenta e o que ela ainda diz a nós.

Professor Marcus Boeira
5 aulas 6h16
Sinopse

Do que trata o curso

Dante Alighieri viveu numa encruzilhada. Guelfo branco numa Florença dividida, defensor da separação entre o poder do papa e o dos príncipes, estava em Roma quando Carlos de Valois tomou a cidade a pedido de Bonifácio VIII, e morreu no exílio. Era um escolástico, fiel na teologia a Alberto Magno e a Tomás de Aquino, mas atraído, na poesia e na filosofia, pelo Dolce Stil Novo de Guinizelli e pelo aristotelismo radical de seu mestre Guido Cavalcanti. É desse ponto que Marcus Boeira parte, propondo ler Dante não só pela forma poética, mas pela filosofia que a sustenta.

As obras aparecem em ordem cronológica: a Vita Nova e as rimas, com a donna gentile que se transfigura em Beatriz; o Convívio, em que a filosofia é convívio e caminho para a felicidade; o De vulgari eloquentia, escrito em latim para defender a dignidade do vulgar italiano, que já prepara a forma da Comédia. O professor lê e traduz os poemas em aula e organiza em quadros próprios as ideias de cada obra.

A Comédia ocupa o centro do curso: a terza rima, os cem cantos, os quatro níveis de leitura e a leitura comentada do canto I, na tradução de José Xavier Pinheiro, com a selva escura, as três feras e Virgílio. Seguem os nove círculos do Inferno, ordenados pela distinção aristotélica entre incontinência e malícia, uma passagem pelo Purgatório e os céus do Paraíso até o Empíreo, com cantos escolhidos: Francesca e Paolo, Farinata, Pier delle Vigne, os sábios do céu do Sol e a oração de São Bernardo.

A última aula é um ensaio de crítica cultural lido pelo professor: o que dos pecados da Comédia persiste em nós? Medo e angústia, tédio e satisfação, ódio público e espetáculo aparecem como formas atuais dos velhos vícios, e o curso termina com os graus da humildade e da soberba, de São Bernardo, e uma pergunta ao leitor: qual é o seu lugar na Comédia?

Para quem é

  • Quem quer ler a Divina Comédia entendendo o que sustenta a obra além da narrativa
  • Estudantes de letras e de filosofia interessados na Itália medieval
  • Professores de literatura e humanidades que querem trabalhar Dante em sala
  • Leitores que buscam na literatura clássica uma chave para entender o próprio tempo
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Apresentação do curso
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Aprendizados

O que você vai aprender

  • Como a política de Florença, a disputa entre guelfos brancos e negros e o exílio marcam a vida e a obra de Dante
  • O que eram o Dolce Stil Novo e o aristotelismo radical, e como Dante une a forma gentil ao conteúdo escolástico
  • Como nobreza, amor, beleza e gentileza mudam de sentido entre a poética escolástica e a do Dolce Stil Novo, segundo o professor
  • A cronologia das obras de Dante e os tipos de rimas, das canções da donna gentile às rimas petrosas
  • Por que o De vulgari eloquentia defende em latim a dignidade do vulgar italiano e prepara a Comédia
  • Como funcionam a terza rima, a divisão em cem cantos e os quatro níveis de leitura da Comédia
  • O que representam a selva escura, as três feras, Virgílio e Beatriz
  • Como os círculos do Inferno se ordenam pela distinção aristotélica entre incontinência, malícia e bestialidade
  • Como se organizam o Purgatório e os nove céus do Paraíso, e o que dizem cantos como os de Francesca, Farinata e São Bernardo
  • Como os graus da humildade e da soberba, de São Bernardo, ajudam a ler a Comédia e o nosso tempo
Por que importa

Por que estudar isso hoje

A Divina Comédia reúne num só poema a herança greco-latina, a Bíblia e a teologia escolástica, e ajudou a fundar uma língua literária. Lida sem o contexto em que nasceu, porém, pode parecer uma sucessão de castigos pitorescos. O curso mostra o que sustenta cada verso: a Florença dividida, as correntes poéticas e filosóficas do tempo, a ética de Aristóteles e a teologia de Tomás de Aquino.

E Dante não fala só do século XIV. A luxúria, a soberba, a avareza, a traição e o homem que se perde no caminho fácil descrevem formas de vida que persistem, e o itinerário que vai da selva escura à visão de Deus passa pelo autoconhecimento que os graus da humildade propõem. Por isso o curso termina perguntando ao leitor qual é o seu lugar na Comédia.

Conteúdo

As 5 aulas do curso

Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.

Resumo completo
  1. Apresentação do curso Convite ao curso Dante e a Literatura

    Convite a um excurso sobre a poética de Dante no medievo italiano: a Comédia e outras obras, as influências literárias e filosóficas, o contexto poético e histórico e, ao final, Dante em nosso tempo.

    O professor apresenta o curso como um passeio pela poética dantesca pensado para enriquecer a vida de estudo e a vida literária de cada aluno.

    DanteComédiapoética medievalliteratura italiana
    2 min
  2. Aula 1 Dante entre guelfos, exílio e Dolce Stil Novo

    A Florença dividida entre guelfos e gibelinos, e entre guelfos brancos e negros, leva Dante ao exílio depois da tomada da cidade por Carlos de Valois. Em seguida, o aristotelismo radical e o Dolce Stil Novo, comparado à poética escolástica, com Guinizelli e Cavalcanti, mostram a encruzilhada em que Dante se forma.

    Em Siena e em Florença, o duomo de um lado e o palácio público do outro: para o professor, a própria arquitetura desenha a teoria das duas espadas.

    guelfos e gibelinosexílio de Danteduas espadasaristotelismo radicalDolce Stil Novo
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Dante entre guelfos, exílio e Dolce Stil Novo · 28 min A Florença de Dante, dividida entre guelfos e gibelinos e entre guelfos negros e brancos: sua defesa das duas espadas, a tomada da cidade por Carlos de Valois e o exílio. Em seguida, Dante aparece como escolástico atraído pelo Dolce Stil Novo e pelo aristotelismo radical.
    2. Parte 2: Aristotelismo radical e o Dolce Stil Novo · 46 min O aristotelismo radical, leitura imanente de Aristóteles, desliga poesia e virtude do transcendente e marca o Dolce Stil Novo, contrastado à poética escolástica em nobreza, amor, beleza e gentileza. Lê Guinizelli e Cavalcanti, percorre as escolas siciliana, provençal e toscana e mostra Dante unindo forma gentil e conteúdo escolástico.
    1h14
  3. Aula 2 Convívio, rimas e De vulgari eloquentia

    No Convívio, a filosofia é convívio e caminho para a felicidade, e a donna gentile, figura da filosofia, se transfigura em Beatriz. Seguem a cronologia das obras, os tipos de rimas e seus traços comuns e o De vulgari eloquentia, que eleva o vulgar italiano a língua ilustre e prepara a forma da Comédia.

    Dante defende o italiano escrevendo em latim, como quem absolve um réu na língua dos próprios juízes, gesto que teria preparado o terreno para a Comédia.

    Convíviodonna gentile e Beatrizrimas petrosasDe vulgari eloquentiavulgar ilustre
    3 partes nesta aula
    1. Parte 1: O Convívio e as rimas de Dante · 32 min No Convívio, a filosofia é convívio, como no Banquete, e o desejo natural de saber conduz à felicidade terrena e à beatitude; a donna gentile, figura da filosofia, transfigura-se em Beatriz. Apresenta a cronologia das obras e os quatro tipos de rimas, das canções da donna gentile às petrosas.
    2. Parte 2: Os traços das rimas e o De vulgari eloquentia · 27 min Os gêneros da obra de Dante, até a Comédia, chamada assim pelo final feliz. Nas rimas, identifica cinco traços, como signos constantes que ajudam a memória e um 'eu' que representa todo o gênero humano; no De vulgari eloquentia, o vulgar ilustre elevado a língua da sabedoria, como o latim.
    3. Parte 3: Do vulgar ilustre à forma da Comédia · 27 min As cinco questões do De vulgari eloquentia sobre o vulgar ilustre e a gradação dos estilos, do elegíaco ao trágico. Salus, Vênus e Virtus, ligados às três partes da alma, definem os temas da poesia, e a Comédia une tragédia, epopeia e final feliz, harmonizando os três.
    1h25
  4. Aula 3 A forma da Comédia e o canto I

    A Comédia, que Boccaccio chamou de divina: a terza rima em endecassílabos, os cem cantos regidos pelo número três, os quatro níveis de leitura e a Florença ideal oposta à real. Segue a leitura comentada do canto I, com a selva escura, as três feras e Virgílio, figura da razão.

    O paradoxo do canto I: para escapar do inferno, Dante precisa atravessá-lo, escolhendo pela razão o caminho difícil em vez do caminho fácil das feras.

    terza rimaestrutura da Comédianíveis de leituraInferno, canto Itrês feras
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: A Comédia: métrica, estrutura e níveis de leitura · 25 min A Comédia, chamada divina por Boccaccio: a terza rima em endecassílabos, os cem cantos regidos pelo número três e os quatro níveis de leitura, do literal ao anagógico. Defende que a obra funda um gênero próprio e que Dante opõe, à maneira platônica, a Florença ideal à real.
    2. Parte 2: Canto I: a selva, as três feras e Virgílio · 41 min Leitura comentada do canto I do Inferno, na tradução de Xavier Pinheiro: Virgílio como razão e Beatriz como fé, a selva escura e as três feras. A pantera, o leão e a loba figuram luxúria, soberba e avareza e também Florença, Carlos de Valois e Bonifácio VIII.
    1h05
  5. Aula 4 Os três reinos e cantos escolhidos

    Os nove círculos do Inferno, com penas proporcionais aos pecados e carrascos tirados da mitologia, o Purgatório e os nove céus do Paraíso até o Empíreo. Depois, cantos escolhidos, de Francesca e Farinata à oração de São Bernardo, lidos à luz da ética de Aristóteles e dos graus da humildade.

    Mostra como cada pena espelha o pecado que castiga: os gulosos viram comida de Cérbero, e os adivinhos andam com o rosto virado para trás.

    círculos do Infernoincontinência e malíciaPurgatóriocéus do Paraísograus da humildade
    3 partes nesta aula
    1. Parte 1: Os círculos do Inferno, do vestíbulo a Lúcifer · 51 min Visão geral do Inferno como funil de nove círculos, com penas proporcionais aos pecados e figuras mitológicas como carrascos: do vestíbulo dos omissos e do Limbo dos pagãos virtuosos aos incontinentes, separados dos maliciosos pelo muro de Dite, até os traidores no gelo e Lúcifer devorando Judas, Brutus e Cássio.
    2. Parte 2: Do Purgatório ao Empíreo: os céus do Paraíso · 25 min O Purgatório, com os sete P na fronte de Dante e o rio Letes, e os nove céus do Paraíso, da Lua ao Primeiro Móvel, cada um ligado a um grau de santidade e habitado por figuras como Justiniano, Tomás de Aquino, Cacciaguida e São Bernardo, até o Empíreo.
    3. Parte 3: De Francesca à oração de São Bernardo · 36 min Cantos escolhidos: Francesca e Paolo, Farinata, o papa Anastásio e Pier delle Vigne no Inferno, com a classificação aristotélica de incontinência, malícia e bestialidade; no Paraíso, os sábios do céu do Sol e a oração de São Bernardo, cujos graus da humildade conduzem ao autoconhecimento.
    1h50
  6. Aula 5 Dante e os vícios do nosso tempo

    O que dos pecados da Comédia persiste hoje? Num ensaio de crítica cultural e política, lido em aula, o professor descreve uma era niilista de medo e angústia, tédio e satisfação, ódio público e espetáculo, dialoga com Arendt, Agamben e Ortega y Gasset e termina nos graus da humildade e da soberba.

    Termina com uma pergunta ao leitor: depois de atravessar os três reinos, qual é o seu lugar na Comédia?

    Dante hojeniilismotédio e satisfaçãoódio públicohumildade e soberba
    40 min
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Curiosidades sobre o tema

Da história

Dante chamou sua obra apenas de “Comédia”. O adjetivo “divina” vem de Giovanni Boccaccio, admirador e comentador do poeta, que assim a qualificou décadas depois da morte de Dante; o título “Divina Comédia” só se fixou numa edição veneziana de 1555.

Para pensar

O fundo do Inferno de Dante não é de fogo: é de gelo. Os traidores ficam presos num lago congelado, e é no centro dele que está Lúcifer. Muitos leitores veem nesse frio o símbolo mais forte da ausência de amor.

Referência

Toda a estrutura penal do Inferno dantesco se apoia em uma distinção do Livro VII da Ética a Nicômaco de Aristóteles: a diferença entre obrar o mal por incontinência e obrar o mal em razão do mal.

No dia a dia

A “terza rima” — tercetos encadeados em rima ABA, BCB, CDC — é considerada criação do próprio Dante, inventada para a Comédia. Cada terceto deixa uma rima em aberto que o seguinte retoma, o que empurra a leitura adiante.

Da história

Quando Florença caiu nas mãos dos guelfos negros, Dante estava fora: integrava uma comitiva enviada a Roma para tratar com o papa Bonifácio VIII. Enquanto isso, Carlos de Valois, a pedido do papa, entrava na cidade, e os guelfos brancos eram perseguidos. Condenado, Dante nunca mais voltou.

Para pensar

Aristóteles, mestre supremo da filosofia ocidental, está no Inferno na Comédia — não por ter pecado, mas por ter nascido antes de Cristo. Habita o Limbo, sem castigo, mas sem visão de Deus.

Referência

Curiosamente, o “De vulgari eloquentia” — tratado em que Dante defende a dignidade científica da língua italiana — foi escrito em latim. Era o modo de fazer o argumento ser ouvido pela elite culta de seu tempo.

No dia a dia

Para o professor, a arquitetura das cidades toscanas medievais — Florença, Siena, San Gimignano — ainda mostra a doutrina das duas espadas: o duomo de um lado e o palácio público do outro, cada poder em seu espaço.

Da história

Dante morreu em 1321 em Ravena, no exílio. Seus restos mortais nunca foram devolvidos a Florença, que ainda hoje mantém em sua basílica de Santa Croce um cenotáfio vazio em homenagem ao poeta que expulsou.

Para pensar

Na leitura do professor, o Dolce Stil Novo leva nobreza, amor, beleza e gentileza do plano do espírito para o mundo sensível e cortês. Dante conserva a forma gentil dos stilnovistas, mas devolve a esses conceitos o conteúdo da poética escolástica.

Referência

A figura de Beatriz tem dupla raiz: é a mulher real por quem Dante se apaixonou na juventude e, na Comédia, a figura da fé que o conduz ao céu. Nela se unem a beleza exterior, cantada pelo Dolce Stil Novo, e a beleza interior de uma alma santa.

Da história

Virgílio aparece como guia de Dante não por acaso: a Eneida está entre as bases da Comédia, e a descida de Eneias ao mundo dos mortos, no canto VI, é um dos modelos da viagem de Dante ao Inferno.

No dia a dia

A expressão “donna gentile” vem do Dolce Stil Novo e aparece em quase todas as obras de Dante. Nele, ela vai mudando de sentido: da mulher cortês passa a figurar a filosofia e, transfigurada em Beatriz, o caminho para o céu.

Para pensar

No Inferno de Dante, o lugar mais fundo não é dos violentos nem dos hereges: é dos traidores, que usaram a inteligência contra quem confiava neles. Por isso Judas, Bruto e Cássio estão no centro, nas bocas de Lúcifer.

Referência

São Bernardo de Claraval — e não Beatriz — é o último guia de Dante no Paraíso. Autor de um tratado sobre os graus da humildade e da soberba, é ele quem, no canto final, dirige à Virgem a oração que prepara a visão de Deus.

Da história

A Escola Poética Siciliana, reunida na corte do imperador Frederico II, está entre as raízes da poesia que desemboca no Dolce Stil Novo. Ironicamente, Dante põe o próprio Frederico II no Inferno, entre os hereges.

Para pensar

Dante coloca um papa, Anastásio II, no círculo dos hereges. A Comédia não poupa autoridades eclesiásticas — vários sumo-pontífices do tempo do poeta acabam castigados em suas páginas.

No dia a dia

A expressão “calcanhar de Aquiles” vem de um mito lembrado no curso: Tétis mergulhou o filho no rio Estige para torná-lo invulnerável, segurando-o pelo calcanhar, a única parte que ficou exposta. Na Comédia, o Estige é o pântano onde penam os irados.

Referência

“Convívio” é o título que Dante deu ao seu tratado filosófico em vulgar: um banquete de sabedoria oferecido ao leitor. O professor liga o título ao ideal que Platão expõe no Banquete — a filosofia como convívio, a verdade buscada em comum.

Da história

No céu de Mercúrio, Dante encontra Justiniano, o imperador do século VI que mandou organizar as fontes do direito romano no Corpus Iuris Civilis. É ele quem conta a Dante a história de Roma, de Júlio César e Augusto à destruição de Jerusalém.

Marcus Boeira em gravação
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Marcus Boeira

Marcus Boeira é professor de lógica e filosofia do direito na Faculdade de Direito da UFRGS, mestre e doutor pela USP e pós-doutor em filosofia pela Pontificia Università Gregoriana, em Roma.

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