A palavra “tragédia” vem do grego trágos (bode) e oidé (canto): “canto do bode”. Segundo a explicação tradicional, retomada no curso, o nome lembra o bode sacrificado nos rituais a Dioniso de onde o teatro nasceu.
Teatro Grego: Introdução à Tragédia
Ésquilo, Sófocles e Eurípides lidos pelas perguntas que fazem: destino, liberdade, justiça, acaso e os deuses.
Professor Mauro KellerDo que trata o curso
Por que ler hoje peças escritas para as festas de Dioniso em Atenas, no século V a.C.? Porque são clássicos: continuam a iluminar perguntas sobre o destino e a liberdade, a justiça, o sofrimento dos inocentes e o lugar dos deuses na vida humana. Este curso de Mauro Keller é uma introdução pensada para levar o aluno aos próprios textos, em boas traduções com notas.
As duas primeiras aulas preparam a leitura: a origem ritual da tragédia e sua função na Atenas democrática, a catarse de Aristóteles, as teorias sobre o trágico, de Aristóteles a Goethe e Albin Lesky, a estrutura das peças e as noções de destino, erro, acaso e hybris. Seguem os três grandes autores, lidos em trechos comentados, com atenção à visão de mundo de cada um.
De Ésquilo vem a Oresteia, em que a maldição dos Atridas termina num tribunal fundado por Atena. De Sófocles, Ajax e Filoctetes em resumo e, com mais vagar, Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona, em torno da dike, da culpa involuntária e da prudência. De Eurípides, o mais trágico dos três, um panorama da obra e a leitura de Medeia, Hipólito, Ifigênia em Áulis e As Bacantes.
O percurso vai da confiança de Ésquilo nos deuses à justiça cósmica de Sófocles e termina nas dúvidas de Eurípides, um autor atraído pelo espiritual e desiludido com os deuses de seu tempo.
Para quem é
- Leitores que querem começar a ler as tragédias gregas e não sabem por onde
- Quem já leu Homero e quer seguir para o teatro grego
- Estudantes de letras, filosofia e direito interessados em noções como catarse, hybris e justiça
- Pais e professores que querem conhecer melhor os clássicos que formaram o Ocidente
- Espectadores de teatro e cinema curiosos pelas fontes de tantas histórias modernas
Veja uma aula antes de decidir
O que você vai aprender
- Situar a tragédia em sua origem ritual, ligada a Dioniso, e na Atenas democrática do século V a.C.
- Entender a catarse de Aristóteles e o poder formador que os atenienses viam no teatro
- Distinguir as principais maneiras de definir o trágico, de Aristóteles a Goethe e Albin Lesky
- Reconhecer a estrutura de uma tragédia, do prólogo ao êxodo, e recursos como o ágon, a peripécia e a anagnórise
- Usar as noções de destino, erro, acaso e hybris para ler o desenlace das peças
- Acompanhar a Oresteia, da maldição dos Atridas à fundação do tribunal do Areópago
- Ler Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona à luz da dike, da culpa involuntária e da prudência
- Reconhecer em Medeia, Hipólito, Ifigênia em Áulis e As Bacantes as marcas de Eurípides: psicologia, teatro de ideias e dúvida religiosa
- Comparar o que Ésquilo, Sófocles e Eurípides pensam dos deuses, da justiça e do acaso
- Escolher traduções e edições comentadas para seguir lendo por conta própria
Por que estudar isso hoje
As tragédias gregas foram escritas para uma cidade que decidia seus rumos em assembleia, e os atenienses logo perceberam o poder formador daquela imitação encenada. Diante dela, o espectador sentia pavor e compaixão e saía pensando na própria vida, efeito que Aristóteles chamou de catarse e que, como lembra o curso, ainda pode acontecer hoje.
As perguntas das tragédias continuam sendo nossas: até onde vai a responsabilidade de quem age sem saber, o que fazer quando a lei da cidade contraria uma lei mais alta, como a paixão vence o juízo, se há alguma justiça acima do acaso. Ler Ésquilo, Sófocles e Eurípides com orientação é um modo de formar o juízo com os clássicos que estão na raiz do teatro e do pensamento do Ocidente.
As 13 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
-
Introdução ao curso Três trágicos e suas visões de mundo
O plano do curso e as obras escolhidas: a Oresteia de Ésquilo, confiante nos deuses; os dois Édipos e Antígona de Sófocles, que confia na justiça cósmica; e Medeia, Hipólito, Ifigênia em Áulis e As Bacantes de Eurípides, que põe os deuses em dúvida.
Pouco popular em seu tempo, Eurípides aparece como fonte de uma longa linhagem teatral, de Sêneca e Shakespeare a Ibsen e Nelson Rodrigues.
tragédia gregaÉsquiloSófoclesEurípidescosmovisão9 min -
Aula 1 Por que ler tragédia grega: origens e catarse
Por que ler hoje as tragédias gregas, clássicos que continuam a ensinar, e como lê-las, em boas traduções com notas. A tragédia nasce dos ritos a Dioniso e floresce na Atenas democrática do século V a.C., com uma função formadora explicada pela catarse de Aristóteles.
Por que ler, em pleno século XXI, peças escritas há quase 2.500 anos para uma festa religiosa de Atenas? A aula responde com a noção de clássico: o que perdura.
origem da tragédiaDionisodemocracia ateniensecatarsetraduções1h02 -
Aula 2 O que é o trágico: estrutura e hybris
O que torna trágica uma peça, da reviravolta de Aristóteles ao conflito insolúvel de Goethe e às distinções de Albin Lesky, para quem a tragédia ática não é niilista. Depois, a estrutura da peça, do prólogo ao êxodo, recursos como o ágon e a anagnórise e o jogo entre destino, erro, acaso e hybris.
Se o culpado colhe o que plantou, não há tragédia: a aula explica por que, para Aristóteles, o trágico nasce do acaso e do erro não culpável.
o trágicometaboléestrutura da tragédiaágon e anagnórisehybris1h15 -
Aula 3 Ésquilo e o Agamemnon: maldição, destino e liberdade
Ésquilo e o pano de fundo mítico da Oresteia, da maldição dos Atridas ao sacrifício de Ifigênia, com leitura comentada do Agamemnon. Para Ésquilo, o destino não é inelutável: Agamemnon poderia ter recusado o sacrifício, e sua escolha desencadeia a vingança de Clitemnestra.
Da rede de fogueiras que anuncia a queda de Troia às profecias de Cassandra, em quem ninguém acredita, a leitura mostra a força poética e a ironia de Ésquilo.
ÉsquiloAgamemnonmaldição dos Atridassacrifício de Ifigêniadestino e liberdade1h03 -
Aula 4 Coéforas e Eumênides: da vingança ao tribunal
O fim da Oresteia: nas Coéforas, Orestes hesita, mas mata Clitemnestra e foge perseguido pelas Erínias; nas Eumênides, Apolo o defende no Areópago e o voto de Atena o absolve. Com Toynbee, o desfecho aparece como passagem da vingança entre clãs à justiça da pólis.
As Erínias, horrendas como górgonas, não estão erradas, diz o professor; a aula mostra como elas se tornam as 'benevolentes' que dão nome à peça.
CoéforasEumênidesEríniasAreópagojustiça da pólis55 min -
Aula 5 Sófocles: cosmovisão, estilo, Ajax e Filoctetes
Sófocles e suas sete tragédias preservadas: deuses distantes que realçam o sagrado, a dike como equilíbrio cuja restauração gera o trágico, personagens psicologicamente bem delineados e o lirismo. A aula termina com o resumo de Ajax e de Filoctetes.
Diante de Ajax humilhado por Atena, seu inimigo Ulisses sente piedade: 'todos quantos vivemos somos apenas figuras de ilusão e sombras vãs'.
Sófoclesdikecaracterização dos personagenslirismoAjax e Filoctetes1h05 -
Aula 6 Édipo Rei: maldição, investigação e herói trágico
O mito dos Labdácidas, da maldição de Pélope sobre Laio ao reinado de Édipo, e a leitura de Édipo Rei como investigação em que o investigador é o assassino procurado. Com Vernant, a aula recusa o 'complexo de Édipo' do personagem; com Lesky, o lê como herói trágico.
No auge da ironia de Sófocles, Édipo lança maldições contra o assassino de Laio sem saber que está amaldiçoando a si mesmo.
Édipo Reimaldição dos Labdácidasironia trágicacomplexo de Édipoherói trágico1h12 -
Aula 7 Édipo em Colono: inocência, justiça e perdão
Em Édipo em Colono, última peça de Sófocles, o velho Édipo, cego e expulso de Tebas, proclama a inocência de quem agiu sem querer. A aula distingue a compaixão grega, que é justiça e equivale à desculpa, do perdão cristão, e comenta o fim misterioso e sem dor do herói.
Um sermão de C.S. Lewis sobre desculpar e perdoar ajuda a entender por que Édipo pede justiça para si e nega qualquer perdão aos filhos.
Édipo em Colonovoluntariedadedesculpa e perdãopessimismo trágicomorte de Édipo42 min -
Aula 8 Antígona: leis divinas, hybris e prudência
Antígona sepulta o irmão Polinices contra o decreto de Creonte, em nome das leis não escritas dos deuses. Sem reduzir Creonte a vilão, a leitura expõe sua hybris, discute Hegel e Martha Nussbaum e vê na peça, do hino ao homem ao coro final, um louvor à prudência.
O coro que celebra as maravilhas do homem vira ponto de partida para pensar a técnica de hoje, da inteligência artificial às armas nucleares, e seus limites morais.
Antígonaleis não escritashybrisprudênciatécnica1h28 -
Aula 9 Eurípides, o mais trágico: panorama e marcas
Eurípides, polêmico e pouco premiado em vida, tornou-se o mais representado dos trágicos. Um panorama das dezoito tragédias conservadas mostra a influência sofista, a dúvida sobre os deuses e o peso do acaso; com Jacqueline de Romilly, a aula sistematiza três marcas: psicologia, teatro de ideias e complexidade cênica.
Por que o autor que menos venceu em vida é o mais encenado até hoje? A resposta passa pela violência de suas cenas e pela modernidade de suas dúvidas.
Eurípidessofistasacasopsicologia dos personagensteatro de ideias2 partes nesta aula
- Parte 1: Eurípides, o mais trágico: panorama de sua obra · 1h27 Eurípides, polêmico e pouco premiado em vida, tornou-se depois o mais representado dos trágicos. O panorama das peças conservadas, de Alceste e As Troianas a Medeia e As Bacantes, destaca a influência sofista, a dúvida sobre os deuses, o peso do acaso (tyche) e o realismo psicológico.
- Parte 2: As três marcas do teatro de Eurípides · 30 min O teatro de Eurípides tem, segundo Jacqueline de Romilly, três marcas: o aprofundamento psicológico, com paixões que vencem a razão e reviravoltas dos personagens; o teatro de ideias, que discute religião, condição feminina e liberdade sem tomar posição; e a complexidade cênica e literária.
1h57 -
Aula 10 Medeia: paixão, inteligência e o império do acaso
Medeia, que une paixão intensa e inteligência extrema, lida do prólogo ao carro do Sol: o discurso sobre a condição feminina, o cinismo de Jasão, as seis hesitações antes de matar os filhos. O desfecho, em que ela escapa impune, mostra o peso do acaso em Eurípides.
Match Point, de Woody Allen, em que um detalhe do acaso livra o assassino, ajuda a distinguir o niilismo contemporâneo do anseio de Eurípides por uma realidade superior.
Medeiacondição femininapaixão e razãoacasoMatch Point46 min -
Aula 11 Hipólito: castidade, vingança de Afrodite e perdão
Hipólito, devoto casto de Ártemis, é destruído pela vingança de Afrodite, que desperta em Fedra uma paixão pelo enteado. Da falsa acusação à maldição de Teseu, a leitura põe em dúvida que Eurípides critique a castidade do herói e destaca o perdão final entre pai e filho.
A aparição de Ártemis no desfecho serve para explicar a origem da expressão deus ex machina, recurso típico do teatro de Eurípides.
HipólitocastidadeFedraAfrodite e Ártemisdeus ex machina1h02 -
Aula 12 Ifigênia em Áulis e As Bacantes: deuses cruéis
Em Ifigênia em Áulis, sucessivas reviravoltas mostram como um desencontro de vontades, obra do acaso, leva Ifigênia ao altar. Em As Bacantes, a vingança cruel de Dioniso contra Penteu revela o paradoxo de Eurípides: nunca tão perto do espiritual, nunca tão desiludido com ele.
O fecho do curso sugere que a consciência moral grega já superava seus cultos e que Eurípides escreve à espera de um deus ainda ignorado.
Ifigênia em ÁulisAs BacantesDionisoacasodesilusão religiosa54 min
Quanto você já sabe sobre Teatro Grego: Introdução à Tragédia?
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Curiosidades sobre o tema
Toda a tragédia grega que lemos hoje é uma fração mínima do que os atenienses viram. De Sófocles, que escreveu 123 peças segundo os antigos, restaram sete; de Ésquilo, também sete. O que sobreviveu foi o que se copiou muito, em frágeis rolos de papiro.
Ésquilo lutou em Maratona contra os persas, em 490 a.C., e fez questão de que seu epitáfio mencionasse apenas isso — não que ele havia escrito tragédias. A glória militar lhe parecia maior que a literária.
No teatro grego, nenhuma mulher subia ao palco: Antígona, Medeia e Clitemnestra eram interpretadas por homens com máscaras femininas. Até os coros de mulheres eram formados por homens mascarados.
Os atenienses já sabiam, ao entrar no teatro, como cada tragédia ia terminar: as histórias vinham de mitos conhecidos por todos. O que queriam ver era como o autor recontava o mito e que visão de mundo punha na boca dos personagens.
Na Poética, Aristóteles define a tragédia pelo efeito que ela causa no público: o pavor e a compaixão, que levam à catarse. Para o professor, esse efeito continua possível hoje, sobretudo no cinema, o teatro mais visto do nosso tempo.
As tragédias eram encenadas ao ar livre, na primavera, para plateias de milhares de pessoas. Sem microfone, os atores precisavam de voz muito forte, e os recursos de cena eram poucos: o peso da peça estava no texto.
Sófocles, o mais querido do público ateniense, nunca ficou em terceiro lugar nos concursos de tragédia: ou vencia, ou ficava em segundo. Viveu cerca de noventa anos e venceu muitas vezes.
Uma tragédia grega se lê em duas ou três horas. Não há espaço para “encher linguiça”, como às vezes acontece até nos grandes romances: tudo é concentrado, em forma de poesia. Escrever assim, diz o professor, exigia um homem de gênio.
A democracia ateniense do tempo de Péricles era direta: os cidadãos, algumas dezenas de milhares numa cidade de 250 a 300 mil habitantes, decidiam pessoalmente as questões do Estado. Escravos, estrangeiros e mulheres ficavam de fora. Foi para esse público ativo que a tragédia se tornou escola.
Ésquilo pôs em cena um segundo ator; Sófocles introduziu o terceiro e aumentou o coro de doze para quinze membros. Antes dele, nunca havia mais de dois atores dialogando numa mesma cena.
Em “As Bacantes”, uma das últimas peças de Eurípides, encenada depois de sua morte, Dioniso aparece cruel e vingativo. Para o professor, é o paradoxo do poeta: nunca esteve tão perto do espiritual, nem tão desiludido com ele.
A célebre frase “Vejo o melhor, e o aprovo; mas sigo o pior” foi posta por Ovídio na boca de Medeia, retomando uma fala de Eurípides. Atravessou dois mil anos e segue sendo um dos diagnósticos mais lúcidos da fraqueza humana.
Eurípides foi polêmico e pouco premiado em vida: venceu os concursos de Atenas só cinco vezes, uma delas depois de morto. Foi a posteridade, na época helenística e em Roma, que fez dele o mais representado dos três trágicos.
A palavra “política” vem de pólis, a cidade grega: é a arte de viver em harmonia dentro da cidade. Para o professor, é isso que as Eumênides celebram, ao trocar a vingança entre clãs pela justiça de um tribunal.
Em “Édipo Rei”, o investigador é o próprio assassino que ele procura: Édipo lança maldições contra o matador de Laio sem saber que amaldiçoa a si mesmo. É o auge da ironia trágica de Sófocles.
Nas “Eumênides”, Ésquilo faz da própria Atena a fundadora do tribunal do Areópago, criado para julgar Orestes. A peça dava um mito de origem a uma instituição que os atenienses conheciam bem.
Sêneca, filósofo estoico romano do século I, reescreveu em latim várias tragédias gregas, sobretudo de Eurípides. Por meio dele, a herança euripidiana alcançou o teatro do Renascimento e do Barroco, de Shakespeare aos franceses do século XVII.
Para os gregos antigos, perdoar não significava o que significa para um cristão. Perdoar era reconhecer que o outro não foi culpado — um ato estrito de justiça, não de misericórdia.
O hino do coro de Antígona, “há muitas maravilhas, mas nenhuma é tão maravilhosa quanto o homem”, termina com uma advertência: toda a engenhosidade humana pode servir tanto ao bem quanto ao mal. Vinte e quatro séculos depois, a frase soa como um comentário sobre a inteligência artificial.
Mauro Keller
Mauro Keller é advogado, com mais de 40 anos de experiência em direito e educação, e já foi procurador do Estado de São Paulo, juiz e professor.
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