Segundo a história contada no curso, “Noite Feliz” foi musicada às pressas no dia 24 de dezembro de 1818: ratos tinham furado os foles do órgão da igreja de São Nicolau, em Oberndorf, e a canção precisava ser acompanhada só ao violão.
Músicas, Contos e Lendas de Natal
Canções, lendas e contos de Natal lidos como retrato do modo como cada povo contempla Deus feito criança.
Professor Evandro FaustinoDo que trata o curso
O Natal desperta ternura, aquele olhar de mãe, de pai ou de Deus diante de algo maravilhoso, e nos devolve à infância. Por isso produz tantas canções simples, que qualquer criança canta, e tantas lendas e contos repetidos todo ano. Evandro Faustino aplica aqui o mesmo método do seu curso de História das Mentalidades: tomar essas músicas e histórias populares como documentos do modo como cada povo percebe a festa em que Deus se fez criança.
O percurso começa pelo Menino do Tambor, canção de origem incerta que o professor chama de fruto da cristandade, e pela história de Noite Feliz, composta numa aldeia austríaca na véspera de Natal de 1818, separando o que é documentado do que é lenda. Seguem Tu scendi dalle stelle, de Santo Afonso Maria de Ligório, e duas canções francesas, Minuit, chrétiens e Entre le bœuf et l'âne gris, com as letras comentadas verso a verso: a ternura italiana, de adultos que se fazem crianças, diante da solenidade francesa, de crianças que cantam como adultos.
Depois vêm as histórias: a lenda da misteriosa visitante que deixa no berço do Menino uma maçã mordida, a dos quatro P's, órfãos que planejam roubar a coroa do Menino Jesus e acabam arrependidos, e um breve trecho sobre como se recolhiam os contos populares.
O ponto de chegada é o Brasil, com a leitura comentada de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, auto de Natal pernambucano em que o nascimento de uma criança no mangue do Recife responde à pergunta do retirante sobre se vale a pena viver. Das canções europeias ao auto nordestino, o professor encontra a mesma convicção: o Natal transforma as pessoas.
Para quem é
- Famílias que querem entender as canções e histórias que cantam e contam todo mês de dezembro
- Pais, avós e educadores que gostam de contar histórias de Natal às crianças
- Quem sente que o Natal perdeu o sentido e quer recuperar seu peso espiritual e cultural
- Interessados em cultura popular e no modo como a fé cristã se exprime nas canções e lendas dos povos
- Leitores de literatura brasileira curiosos por ler Morte e Vida Severina como auto de Natal
Veja uma aula antes de decidir
O que você vai aprender
- A história de Noite Feliz, composta em Oberndorf, na Áustria, em 1818, e a lenda de como ela chegou ao imperador
- O que significa a “Lapa” de “eis na Lapa Jesus nosso bem” e a antiga tradição brasileira das lapinhas
- A lenda do Menino do Tambor e sua lição: Deus olha o amor com que o presente é dado, não o seu valor
- Como Santo Afonso Maria de Ligório une a sabedoria do adulto e a inocência da criança em Tu scendi dalle stelle
- A pequena aula de teologia de Minuit, chrétiens: a Luz que nasce na hora mais escura, o presépio como cátedra de Deus e o escravo visto como irmão
- A ordem ascendente de Entre le bœuf et l'âne gris, em que todo o universo cerca o Menino adormecido
- A lenda de Santa Eva no presépio e o sentido de Maria como Nova Eva
- A história dos quatro P's e a convicção que atravessa os contos do curso: o Natal transforma as pessoas
- Por que Morte e Vida Severina é um auto de Natal e como seu desfecho afirma que vale a pena viver
- Como ler canções, lendas e contos populares como documentos da mentalidade de um povo
Por que estudar isso hoje
Muita gente canta Noite Feliz desde criança sem saber o que é a “Lapa” do verso, nem como a canção nasceu numa aldeia austríaca, num Natal em que o órgão da igreja não funcionava. O curso devolve profundidade ao que já é familiar: mostra que canções de aparência ingênua carregam uma teologia inteira (Deus que troca as estrelas pelo frio de uma gruta, a Luz que nasce na hora mais escura, o escravo que passa a ser visto como irmão) e que as lendas populares guardam, em forma de história, o que um povo entendeu e amou no mistério do Natal.
Ao crescer, muitos passam a achar essas músicas e histórias coisa de criança. O professor mostra o contrário: elas se prendem à alma e voltam a cada dezembro porque o Natal, festa de Deus feito criança, tem o poder de nos devolver à infância e ao maravilhamento. Das canções europeias ao auto de João Cabral, que termina com o nascimento de um menino franzino no mangue do Recife, o curso ajuda a viver a festa com olhos de criança e juízo de adulto, a “soma das idades” que o professor admira em Santo Afonso.
As 8 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
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Introdução ao curso Apresentação do curso e o Menino do Tambor
Apresentação do curso, que busca a mentalidade dos povos nas músicas e lendas de Natal, ligadas à ternura e à infância, e a lenda do Menino do Tambor: o menino pobre que segue a caravana dos reis magos e oferece ao Menino Jesus a única coisa que tem, uma música no seu tambor.
Rastreia os caminhos incertos da canção, da Tchecoslováquia aos vilancicos espanhóis, e prefere a uma origem documentada a resposta de que ela é fruto da cristandade.
história das mentalidadesternurainfânciaMenino do Tamborreis magos17 min -
Aula 1 A história da canção Noite Feliz
História de Noite Feliz (Stille Nacht), composta na véspera de Natal de 1818 em Oberndorf, na Áustria, pelo padre Mohr e pelo músico Franz Gruber depois que ratos furaram os foles do órgão. Segue a lenda de sua difusão até o imperador e o comentário das letras em português e alemão.
Esclarece um verso que muitos cantam sem entender: a “Lapa” de “eis na Lapa Jesus nosso bem” é a gruta de Belém.
Noite FelizÁustriaMissa do GaloFranz Gruberlapinha24 min -
Aula 2 Tu scendi dalle stelle, de Santo Afonso
Tu scendi dalle stelle, canção de Natal de Santo Afonso Maria de Ligório, jurista e moralista que unia a sabedoria do adulto à inocência da criança. A letra italiana, comentada verso a verso, e a versão cantada nas novenas do Nordeste exprimem a ternura diante do Menino que o amor fez pobre.
Um presépio de monges bávaros em Anápolis, com o Menino enrolado numa pele para não sentir frio, mostra o olhar de criança que a canção propõe.
Santo Afonsocanção napolitanasoma das idadesinocência infantilpresépio17 min -
Aula 3 Duas canções de Natal da França
Duas canções natalinas francesas: Minuit, chrétiens, lida como pequena aula de teologia sobre a Luz que nasce na hora mais escura, o presépio como cátedra de Deus e o escravo visto como irmão, e Entre le bœuf et l'âne gris, em que todo o universo, em ordem ascendente, cerca o Menino adormecido.
Compara o encanto francês, de crianças que cantam com solenidade de adultos, ao italiano de Santo Afonso, de adultos que se fazem crianças.
canções francesasMinuit, chrétienspresépiodignidade do escravoSão Francisco15 min -
Aula 4 Como se coletavam os contos populares
Breve fragmento sobre a coleta de contos populares no romantismo: como as velhas contadoras não queriam contar histórias a homens adultos, os coletores punham crianças diante delas e anotavam escondidos. O trecho não chega a apresentar um conto de Natal.
O professor confessa que certas histórias ele só sabe contar direito com uma criança de oito anos à sua frente.
contos popularesromantismotradição oralcontação de histórias3 min -
Aula 5 A misteriosa visitante do presépio
Lenda de Natal pouco conhecida: ao fim do dia na gruta, uma mulher velhíssima pede para ver o Menino, deixa no berço uma maçã com duas mordidas e se transfigura. Era Santa Eva, e o gesto simboliza a humanidade redimida pelo nascimento de Jesus, com Maria como a Nova Eva.
Mostra, com humor, um São José desconfiado, de cajado na mão, que só se tranquiliza ao ver Nossa Senhora sorrir para a estranha visitante.
lenda de NatalSanta EvaNova EvaredençãoSão José11 min -
Aula 6 Os quatro P's e a coroa do Menino
História dos quatro P's, órfãos bagunceiros de um colégio de padres no interior do Brasil que, às vésperas do Natal, planejam roubar a coroa do Menino Jesus e acabam arrependidos, contada junto com a versão dos marinheiros da Segunda Guerra, lida como verídica: o Natal transforma as pessoas.
Os meninos amaciavam o diretor austríaco cantando Strauss e Mozart na sala de espera, e o desfecho traz lágrimas que brilham na coroa no lugar das pedras que faltavam.
conto de Natalarrependimentocolégio de padresconversãoNoite Feliz20 min -
Aula 7 Morte e Vida Severina, auto de Natal pernambucano
Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, lida como auto de Natal pernambucano: a travessia do retirante Severino, que só encontra morte do sertão ao Recife, até o nascimento do filho do carpinteiro, que responde à sua dúvida sobre se vale a pena viver.
Defende que o famoso trecho da cova no latifúndio, usado em protestos pela reforma agrária, não é a ênfase principal de uma peça que termina afirmando a vida.
auto de NatalJoão Cabralretirantesentido da vidaNatal nordestino39 min
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Curiosidades sobre o tema
A música de Natal mais famosa do mundo talvez não existisse sem um órgão quebrado: segundo a tradição, foi por causa dos ratos que “Stille Nacht” nasceu para ser cantada apenas com violão.
Pela lenda contada no curso, quatro irmãos pequenos do coral de Oberndorf, cuja mãe tricotava luvas de lã, cantavam “Noite Feliz” para atrair fregueses em outras cidades. Assim a canção se espalhou pela Áustria até chegar, na voz de outros cantores, ao imperador em Viena.
Quando alguém canta “eis na Lapa Jesus nosso bem” em português, está se referindo à gruta de Belém. “Lapa” é uma palavra antiga para gruta — a mesma que dá nome ao bairro paulistano.
Os brasileiros tinham uma tradição de fazer “lapinhas” no Natal: pequenas grutas para abrigar a imagem do menino Jesus, às vezes feitas com cascas de melão.
Quem inventou o presépio foi São Francisco de Assis. Ele queria que as pessoas não apenas pensassem o nascimento de Jesus, mas o vissem com olhos de criança.
Santo Afonso de Ligório viveu até os 90 anos e foi um dos maiores juristas e moralistas da Igreja Católica — e, ainda assim, escrevia canções de Natal com a alma de uma criança.
A canção napolitana “Tu scendi dalle stelle” é cantada nas novenas de Natal do Nordeste e, segundo o professor, não pode faltar na Missa do Galo do Vaticano. Foi composta por um santo que era, ao mesmo tempo, jurista, doutor da Igreja e músico.
A Bíblia nunca disse que a fruta proibida do Éden era uma maçã. O texto fala apenas em “fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” — a maçã é uma invenção iconográfica da tradição.
Maria é chamada por vários doutores da Igreja de “Nova Eva”. A lenda da velha que entrega ao menino Jesus uma maçã com duas mordidas brinca exatamente com essa simbologia: a reparação do pecado original.
No direito romano antigo, o escravo era juridicamente uma “coisa”. O senhor podia matá-lo sem cometer crime — só sofreria prejuízo patrimonial, como quem perde um cavalo.
Ao comentar “Minuit, chrétiens”, o professor lembra a carta de São Paulo a Filêmon: Paulo pede que o escravo Onésimo seja recebido não mais como escravo, mas como irmão, e ainda brinca com o nome dele, que em grego quer dizer “útil”.
Em “Minuit, chrétiens”, a tradição de que Jesus nasceu à meia-noite ganha sentido simbólico: a Luz do mundo nasce na hora mais escura, em pleno inverno do hemisfério norte, época das noites mais longas do ano.
O curso conta a história dos “K Malvados”, que o professor leu numa revista como verídica: quatro marinheiros desordeiros de um navio de guerra, na Segunda Guerra Mundial, que na noite de Natal acabam cantando “Noite Feliz” no alto-falante do navio.
João Cabral de Melo Neto deu a “Morte e Vida Severina” o subtítulo “Auto de Natal Pernambucano”: quis que fosse um auto, forma teatral de origem medieval, representada na rua, no meio do povo, sem palco fechado nem cortinas.
Em “Morte e Vida Severina”, o protagonista tenta dizer quem é pelo nome, pela mãe, pelo pai e pela serra onde vive — e nada o distingue. Então desiste e passa a ser “o Severino que em vossa presença emigra”: qualquer um.
No Mosteiro da Santa Cruz, em Anápolis (GO), o professor viu um presépio de monges de origem bávara em que o Menino Jesus estava enrolado numa pele, talvez de cordeiro, para não sentir frio: o mesmo olhar de criança da canção de Santo Afonso, que vê o Menino tremer.
Evandro Faustino
Evandro Faustino é educador há mais de 50 anos, mestre e doutor em história social e autor de livros sobre educação personalizada e história do Brasil.
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