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Resumo do curso · Literatura e Cultura

As Grandes Epopeias da Antiguidade Clássica

Uma leitura comentada, canto a canto, da Ilíada, da Odisseia e da Eneida, os poemas que educaram gregos e romanos.

Com Mauro Keller 14 aulas 24 horas de vídeo 14 aulas expositivas com leitura comentada de trechos: uma introdução de 11 minutos e 13 aulas longas, todas gravadas em duas ou três partes; cerca de 24 horas no total.

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Visão geral

Há cerca de 2.700 anos, poemas nascidos de uma longa tradição oral ganharam a forma que conhecemos. A Ilíada e a Odisseia, atribuídas a Homero, e a Eneida, que Virgílio compôs sete séculos depois seguindo seus passos, educaram gerações de gregos e romanos e continuam a habitar a imaginação do Ocidente. O curso parte do gênero épico e da Guerra de Troia, pano de fundo comum às três epopeias, e explica por que vale a pena ler Homero hoje e como fazê-lo: que traduções escolher e como acolher um mundo povoado de deuses e heróis.

Com o professor Mauro Keller, o aluno percorre a Ilíada da cólera de Aquiles ao encontro com Príamo, acompanha a Odisseia canto a canto, da viagem de Telêmaco ao reencontro de Ulisses com Penélope e Laertes, e lê a Eneida livro a livro, da queda de Troia ao duelo final entre Eneias e Turno. Os trechos são lidos em voz alta, nas traduções de Frederico Lourenço e de Tassilo Orpheu Spalding, e comentados com atenção aos personagens, aos deuses e às ideias que movem a ação: honra e glória, desmedida e justa medida, pietas e fatum.

Cada episódio serve de ponto de partida para perguntas de ética, política e direito: o que o Ciclope, incapaz de reconhecer o outro, ensina sobre a vida em sociedade; por que Ulisses pede para ser amarrado ao mastro; se a partida de Eneias é traição ou fidelidade. O professor dialoga com estudiosos como Werner Jaeger, Bruno Snell, Moses Finley, Bernard Knox e Pierre Grimal, sem deixar de tomar posição própria, e encerra o percurso nos versos finais da Eneida, em que o verbo condere, enterrar e fundar, revela o preço da fundação de Roma.

O percurso do curso

Por que ler as epopeias

A introdução apresenta as três obras e o método: considerações gerais sobre cada epopeia, seguidas da leitura comentada dos cantos, mais detalhada na Odisseia e na Eneida, nas traduções de Frederico Lourenço e de Tassilo Orpheu Spalding. A Aula 1 define o gênero épico, longos poemas narrativos sobre heróis de um tempo mítico, e mostra a Guerra de Troia como pano de fundo comum, com as escolhas decisivas de Aquiles, Ulisses e Eneias.

Vêm depois as razões para ler Homero: a força dos diálogos, o hexâmetro da tradição oral, temas eternos como a morte e o papel de educador da Grécia, com a história de como os poemas chegaram ao Renascimento, via Bizâncio e Petrarca. Fecham a aula conselhos práticos: traduções que não travem a leitura e a suspensão da descrença diante dos deuses e da cultura heroica.

A Ilíada

A Aula 3 lê a Ilíada em trechos escolhidos: a disputa entre Aquiles e Agamêmnon, entendida à luz da honra, o duelo entre Páris e Menelau, a despedida de Heitor e Andrômaca e a embaixada recusada; depois, a híbris de Pátroclo, o escudo de Aquiles, a morte de Heitor e o encontro com Príamo, em que Aquiles aprende o perdão. A tese central é que Homero, por seu silêncio eloquente, condena a guerra, e que a Ilíada antecipa a tragédia grega.

A Odisseia

O bloco mais longo vai da Aula 4 à Aula 9. Começa pelas diferenças entre os dois poemas homéricos (o tom romanesco, a estrutura não linear, deuses que ajudam quem se ajuda, o elogio da família e do cotidiano) e pela viagem de Telêmaco. Seguem-se Calipso, Nausícaa e a corte dos feácios, onde a provocação de Euríalo nos jogos abre uma reflexão, com Werner Jaeger, sobre a honra como ação que acrescenta ser.

Na Aula 6, as aventuras narradas por Ulisses viram questões de filosofia moral e política: o Ciclope, que não reconhece o outro e por isso vive sem pólis nem hospitalidade; o Hades, onde, contra Bruno Snell, o professor sustenta que Homero já concebia uma identidade que sobrevive à morte; as sereias e as amarras das instituições; Cila e Caríbdis e o mal menor; o gado do Sol como absoluto moral.

As Aulas 7 a 9 acompanham o retorno a Ítaca: o disfarce de mendigo, Eumeu, o reencontro com Telêmaco, o cão Argos, a cicatriz, a prova do arco e o massacre dos pretendentes, lido no contexto de um mundo anterior à ideia cristã da dignidade da pessoa, até o leito de oliveira, Laertes e a paz imposta por Atena. O balanço final apresenta Ulisses como herói da astúcia, da ousadia sem temeridade e da inteligência prática.

A Eneida

A Aula 10 apresenta Virgílio como o clássico por excelência, segundo T. S. Eliot, situa a Eneida entre as guerras civis e o projeto de Augusto e propõe duas chaves de leitura: a pietas, devoção aos deuses, à pátria e à família, e o fatum, destino guiado por uma inteligência, diferente da moira homérica. A Aula 11 percorre a “Odisseia romana”, os livros 1 a 6: a queda de Troia, as errâncias, a paixão de Dido e a descida ao Hades com a Sibila, com ecos em Camões, Bernini, Purcell e Dante.

As Aulas 12 a 14 leem a “Ilíada romana”: a chegada ao Lácio, a guerra instigada por Alecto, o escudo com a história futura de Roma, a trágica aventura de Niso e Euríalo, a morte de Palante e a fúria de Eneias, o debate entre Drances e Turno e a morte de Camila. O curso termina no duelo final, em que Eneias mata Turno sem perder a pietas, e no verbo condere, que diz ao mesmo tempo enterrar e fundar: o preço da fundação de Roma.

O que você vai aprender

  • O que caracteriza o gênero épico e como a Guerra de Troia serve de pano de fundo às três epopeias
  • Os sinais da origem oral dos poemas homéricos: o hexâmetro datílico, as fórmulas e os epítetos repetidos
  • Como escolher traduções de Homero e Virgílio em português e ler os poemas sem travar na primeira página
  • O código heroico grego, com honra, glória, aristeia e híbris, e a escolha de Aquiles entre uma vida longa e uma vida gloriosa
  • As diferenças entre a Ilíada e a Odisseia, do tom e da estrutura narrativa ao papel dos deuses
  • A ler episódios da Odisseia como questões éticas e políticas: o Ciclope e o reconhecimento do outro, as sereias e o sentido das instituições, Cila e Caríbdis e o dilema do mal menor
  • Pietas e fatum como chaves da Eneida, e por que o fatum de Virgílio, ao contrário da moira homérica, não anula a liberdade humana
  • O contexto da Eneida: as guerras civis, a encomenda de Augusto e a dívida de Virgílio com Homero
  • A comparar o heroísmo individual grego com a disciplina coletiva romana
  • Como as epopeias ecoaram na cultura posterior, de Santo Agostinho e Dante a Camões, Bernini e Purcell

Aula por aula

  1. Introdução ao curso Ilíada, Odisseia e Eneida: o plano do curso

    Apresentação das três grandes epopeias da Antiguidade, a Ilíada e a Odisseia, de Homero, e a Eneida, de Virgílio, do método do curso, das traduções adotadas (Frederico Lourenço e Tassilo Orpheu Spalding), do vínculo entre Grécia e Roma e da atualidade desses clássicos.

    O objetivo é declarado logo de saída: que, ao fim do curso, o aluno tenha lido por inteiro as três epopeias, e não apenas ouvido falar delas.

    epopeiaHomeroVirgíliotraduçõesclássicos HomeroVirgílioFrederico LourençoHorácioT. S. Eliot
    11 min
  2. Aula 1 Por que ler Homero, e como lê-lo

    O gênero épico e a Guerra de Troia como pano de fundo das três epopeias; os méritos literários de Homero, do hexâmetro à tradição oral; o sentido da escolha de Aquiles; Homero como educador da Grécia; e conselhos de leitura, das traduções à suspensão da descrença diante dos deuses.

    Desfaz um equívoco comum: a Ilíada não narra a Guerra de Troia inteira, só uns cinquenta dias do último ano do conflito.

    poesia épicaGuerra de Troiahexâmetro datílicoHomero educadortraduções HomeroAlexander PopePlatãoPetrarcaSamuel Taylor Coleridge
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Gênero épico e méritos literários de Homero · 56 min O gênero épico e a Guerra de Troia como pano de fundo das três epopeias, com as escolhas decisivas de Aquiles, Ulisses e Eneias. Como motivos para ler Homero, aponta os méritos literários, dos diálogos ao hexâmetro datílico da tradição oral, e temas eternos como a morte.
    2. Parte 2: Homero, educador da Grécia, e como lê-lo · 56 min A escolha de Aquiles lida como primado da intensidade e da virtude sobre a duração da vida; Homero como educador da Grécia e sua transmissão até o Renascimento. Aconselha traduções que não travem a leitura e a suspensão da descrença diante dos deuses e da cultura heroica.
    1h52
  3. Aula 3 A Ilíada, da cólera de Aquiles a Príamo

    A Ilíada em trechos comentados: a disputa entre Aquiles e Agamêmnon à luz da honra, a despedida de Heitor e Andrômaca, a embaixada recusada, a híbris de Pátroclo, o escudo de Aquiles, a morte de Heitor e o encontro com Príamo, em que Aquiles aprende o perdão.

    Sem jamais dizê-lo abertamente, Homero condena a guerra: a prova está em cenas como a de Heitor tirando o elmo que assustara o filho pequeno.

    cólera de AquileshonraHeitor e Andrômacahíbrisperdão AquilesHeitorWerner JaegerAndré BonnardAristóteles
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Ilíada: cólera de Aquiles e despedida de Heitor · 54 min Os cantos 1, 3, 6 e 9 da Ilíada: a disputa entre Aquiles e Agamêmnon, lida à luz da honra, o duelo entre Páris e Menelau, a despedida de Heitor e Andrômaca e a embaixada recusada por Aquiles. Sustenta que Homero, por seu silêncio eloquente, condena a guerra.
    2. Parte 2: Da morte de Pátroclo ao resgate de Heitor · 56 min A segunda metade da Ilíada em trechos comentados: a híbris de Pátroclo, o luto e a decisão de Aquiles, o escudo que celebra a paz, a morte de Heitor e o encontro com Príamo, em que Aquiles aprende o perdão. Conclui que a Ilíada antecipa a tragédia grega.
    1h49
  4. Aula 4 A Odisseia: estrutura e Telemaquia

    As diferenças entre a Odisseia e a Ilíada, do tom romanesco à estrutura não linear e ao papel dos deuses; em seguida, a Telemaquia (cantos 1 a 4): o proêmio, a assembleia dos deuses, Atena disfarçada de Mentor, Telêmaco diante dos pretendentes e as visitas a Nestor e a Menelau.

    Quando Telêmaco manda a mãe de volta aos aposentos, a aula ouve ali um grito de maioridade de quem, no fundo, continua inseguro.

    estrutura da Odisseiaintervenção divinaTelemaquiapretendentesAtena e Mentor UlissesTelêmacoPenélopeAtenaPierre Vidal-Naquet
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Odisseia: estrutura e diferenças em relação à Ilíada · 49 min Seis diferenças entre a Odisseia e a Ilíada: dez anos narrados em menos versos, tom romanesco em vez de trágico, estrutura não linear em três partes, deuses menos determinantes, ajuda divina condicionada à virtude e elogio da família e do cotidiano. Relembra também o papel de Ulisses na Ilíada.
    2. Parte 2: A Telemaquia: Telêmaco em busca do pai · 39 min Os cantos 1 a 4 da Odisseia em trechos comentados: o proêmio e a astúcia de Ulisses, a assembleia dos deuses, em que Zeus culpa a loucura humana pelo sofrimento excessivo, Atena disfarçada de Mentor, Telêmaco diante dos pretendentes e as visitas a Nestor, Menelau e Helena.
    1h27
  5. Aula 5 Calipso, Nausícaa e a corte dos feácios

    Os cantos 5 a 8 da Odisseia: Ulisses recusa a imortalidade oferecida por Calipso para voltar a Penélope, naufraga, encontra Nausícaa e é acolhido pelos feácios, povo hospitaleiro; o aedo Demódoco, os jogos e a provocação de Euríalo abrem uma reflexão sobre a honra grega.

    A figura de Demódoco, lida como alter ego de Homero, explica por que os gregos associavam cegueira e sabedoria e de onde vem a lenda do poeta cego.

    CalipsoNausícaahospitalidadeDemódocohonra e glória CalipsoNausícaaDemódocoWerner JaegerJacinto Choza
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Odisseia: Calipso, o naufrágio e Nausícaa · 51 min Os cantos 5 a 7 da Odisseia em trechos comentados: Calipso liberta Ulisses, que recusa a imortalidade para voltar a Penélope; o naufrágio provocado por Poseidon; o encontro com Nausícaa e a chegada ao palácio dos feácios, povo utópico e hospitaleiro, onde Alcínoo elogia a justa medida.
    2. Parte 2: Demódoco, os jogos feácios e a glória grega · 45 min Canto VIII da Odisseia: o aedo cego Demódoco, os jogos dos feácios e o canto dos amores de Ares e Afrodite. A provocação de Euríalo abre a reflexão sobre a honra grega, vista com Werner Jaeger como ação que acrescenta ser, e sobre se Homero acreditava nos deuses.
    1h36
  6. Aula 6 Do Ciclope às sereias

    Os cantos 9 a 12 da Odisseia, narrados por Ulisses aos feácios: lotófagos, Ciclope, Circe, a descida ao Hades, as sereias, Cila e Caríbdis e o gado do Sol. Cada episódio abre uma questão: o reconhecimento do outro, a sobrevivência da alma, o sentido das instituições, o mal menor e os absolutos morais.

    A célebre fala de Aquiles no Hades, que preferiria ser servo de um pobre a reinar sobre os mortos, é relida como constatação, não como arrependimento.

    Polifemo e o ardil de NinguémCirceHadessereiasabsolutos morais Moses Finley (O Mundo de Ulisses)Bruno Snell (A Descoberta do Espírito)Hermann FränkelGiovanni RealeJon Elster (Ulisses e as sereias)
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Do Ciclope a Circe: Ulisses narra suas aventuras · 1h06 Cantos IX e X da Odisseia: Ulisses narra aos feácios os episódios dos cícones, lotófagos, Ciclope, Éolo, lestrígones e Circe. Destaca-se o ardil de 'Ninguém': para Polifemo, sem pólis nem leis, o outro não é alguém, e sem esse reconhecimento não há compaixão, hospitalidade nem sociedade.
    2. Parte 2: Do Hades às sereias: alma, tentação e dilemas · 1h15 Cantos XI e XII: contra Bruno Snell, argumenta que Homero já concebia a identidade que sobrevive à morte; Ulisses amarrado ao mastro ilustra a defesa contra a tentação e a legitimidade racional das instituições; Cila e Caríbdis, o dilema do mal menor; o gado do Sol, um absoluto moral.
    2h20
  7. Aula 7 Ítaca, o disfarce e o reencontro com Telêmaco

    Os cantos 13 a 16 da Odisseia: os feácios levam Ulisses a Ítaca e são punidos por Poseidon; Atena o disfarça de mendigo, Eumeu o acolhe e Telêmaco reencontra o pai. Em discussão, o antropomorfismo dos deuses, as mentiras de Ulisses e a ética das virtudes diante da ética das normas.

    Com Jacinto Choza, o disfarce de Ulisses ganha alcance universal: todo ser humano caminha incógnito, pois sua verdade mais profunda escapa ao juízo alheio.

    Poseidon e os feáciosantropomorfismo dos deusesEumeumentiras de Ulissesética das virtudes Bernard KnoxMoses FinleyXenófanesJacinto ChozaAristóteles (Ética a Nicômaco)
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Poseidon, os feácios e o antropomorfismo dos deuses · 36 min Canto XIII: os feácios levam Ulisses a Ítaca e Poseidon os pune com aval de Zeus, sinal, para Bernard Knox, de que os deuses não evoluem moralmente da Ilíada à Odisseia. Discute o antropomorfismo olímpico, a consciência moral independente da religião e o anseio grego por algo mais elevado.
    2. Parte 2: O retorno disfarçado e o reencontro com Telêmaco · 1h04 Cantos XIII a XVI: Atena disfarça Ulisses de mendigo, Eumeu o acolhe, Telêmaco volta de Esparta e reencontra o pai. Comentam-se as mentiras de Ulisses, a ética das virtudes diante da ética das normas e a fala de Menelau sobre hospitalidade, que antecipa a mesotes aristotélica.
    1h39
  8. Aula 8 O mendigo no palácio e a cicatriz

    Os cantos 17 a 20 da Odisseia: disfarçado de mendigo, Ulisses entra no palácio, é reconhecido pelo cão Argos, suporta os insultos dos pretendentes, vence o mendigo Iro e conversa com Penélope sem se revelar, até ser reconhecido por Euricleia pela cicatriz. Em foco, a ambiguidade de Penélope e o autocontrole de Ulisses.

    Cada afronta sofrida pelo mendigo prepara o leitor para aceitar o massacre final, um recurso de suspense que muitos autores adotariam depois.

    cão ArgospretendentesPenélopecicatriz e Euricleiaautocontrole PenélopeEuricleiaArgosJacqueline de Romilly (Patience, mon cœur)
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: O mendigo no palácio: Argos, Iro e pretendentes · 49 min Cantos XVII e XVIII: disfarçado de mendigo, Ulisses entra no palácio, é reconhecido pelo cão Argos, suporta as agressões de Melântio e Antínoo e vence o mendigo Iro. Os pretendentes são descritos como os playboys da época, e Penélope, num súbito acesso de vaidade, revela sua face ambígua.
    2. Parte 2: Penélope, a cicatriz e a paciência de Ulisses · 47 min Cantos XIX e XX: Ulisses esconde as armas, conversa com Penélope sem se revelar e é reconhecido por Euricleia pela cicatriz. Discutem-se a ambiguidade de Penélope, a contenção de Ulisses ('aguenta, coração') e o boieiro Filécio, disposto a emigrar numa época em que o exílio era pena duríssima.
    1h35
  9. Aula 9 O arco, a vingança e o desfecho

    Os cantos 21 a 24 da Odisseia: a prova do arco e o massacre dos pretendentes, violência própria de um mundo anterior à ideia cristã da dignidade da pessoa; depois, a prova do leito de oliveira, com que Penélope reconhece o marido, o reencontro com Laertes e a paz imposta por Atena.

    Em meio à chacina, Ulisses impede a ama de exultar sobre os mortos, por ser coisa ímpia: um limite moral inesperado no auge da vingança.

    prova do arcomassacre dos pretendentesdignidade humanaleito de oliveiracaráter de Ulisses Homero (Odisseia)Bernard KnoxAristóteles (Poética)Aguirre, a Cólera dos Deuses (filme)
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: O arco e o massacre dos pretendentes · 54 min Cantos XXI e XXII: a prova do arco proposta por Penélope, a vitória do mendigo Ulisses e o massacre dos pretendentes e das servas infiéis. A violência desproporcional é lida no contexto pré-cristão, anterior à noção de transcendência da pessoa humana, terceiro pilar da civilização ocidental.
    2. Parte 2: Penélope, Laertes e o desfecho da Odisseia · 36 min Cantos XXIII e XXIV: Penélope reconhece Ulisses pela prova do leito de oliveira, as almas dos pretendentes chegam ao Hades, Ulisses reencontra Laertes e Atena impõe a paz. Encerra com um balanço de Ulisses como herói da astúcia, da ousadia sem temeridade e da inteligência prática.
    1h30
  10. Aula 10 Virgílio, Augusto e as chaves da Eneida

    Introdução à Eneida: Virgílio como clássico por excelência, segundo T. S. Eliot, as traduções recomendadas, a vida do poeta e a encomenda de Augusto após as guerras civis. Pietas e fatum aparecem como chaves do poema, e a Quarta Écloga explica por que os cristãos viram em Virgílio um profeta pagão.

    A piada, contada por Ezra Pound, do aluno que tomou Eneias por padre tem fundo de verdade: o herói é um sacerdote, intermediário entre seu povo e os deuses.

    conceito de clássicotraduções da EneidaAugustopietasfatum e moira T. S. EliotTassilo Orpheu SpaldingCarlos Alberto NunesSanto AgostinhoEzra Pound
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: A Eneida: clássico por excelência e projeto augustano · 57 min Virgílio é, segundo T. S. Eliot, o clássico por excelência, e a comparação com Homero lhe dá vantagem no acabamento formal, não na criatividade. Seguem-se recomendações de tradução, a biografia do poeta e a encomenda de Augusto, após as guerras civis: glorificar Roma e a origem troiana dos Júlios.
    2. Parte 2: Pietas e fatum, as chaves da Eneida · 33 min Pietas e fatum resumem a Eneida: defende que o poema, mais que propaganda de Augusto, encarna a devoção romana a deuses, pátria e família e concebe um destino guiado por inteligência, ao contrário da moira homérica. Mostra como a Quarta Écloga fez de Virgílio um profeta pagão para os cristãos.
    1h30
  11. Aula 11 Livros 1 a 6: a Odisseia romana

    A primeira metade da Eneida, a “Odisseia romana”: o livro 1 até o banquete de Dido, a queda de Troia e a fuga de Eneias com o pai nas costas, as errâncias, a paixão de Dido, com a partida do herói defendida como ato de pietas, os jogos fúnebres e a descida ao Hades.

    O “Arma virumque cano” de Virgílio ecoa em “As armas e os barões assinalados”, de Camões, onde “barões” significa varões.

    proêmio e Junoqueda de TroiaDidopietasdescida ao Hades HomeroCamõesGian Lorenzo BerniniHenry PurcellDante Alighieri
    3 partes nesta aula
    1. Parte 1: Eneias na Ilíada e o livro 1 da Eneida · 1h10 Na Ilíada, Eneias é salvo pelos deuses por estar fadado a sobreviver, semente da lenda de sua vinda à Itália. O livro 1 é comentado do proêmio ao banquete de Dido, com destaque para um Eneias que esconde a própria dor e para o paralelo com a Odisseia.
    2. Parte 2: Queda de Troia, errâncias e tragédia de Dido · 1h03 Livros 2 a 4: a queda de Troia e a fuga de Eneias com o pai nas costas, as errâncias até a morte de Anquises e a paixão de Dido. Defende a partida de Eneias como ato de pietas e destaca que a rainha se mata contra os fados.
    3. Parte 3: Jogos fúnebres e a descida ao Hades · 48 min O livro 5 traz os jogos em honra de Anquises e a revolta das mulheres; o livro 6, a descida ao Hades com a Sibila. Destaca o silêncio de Dido diante de Eneias, o Tártaro que inspirou Dante, os Campos Elísios, a metempsicose e o desfile de futuros romanos.
    3h
  12. Aula 12 Chegada ao Lácio e o escudo de Eneias

    Os livros 7 e 8 abrem a “Ilíada romana”: Eneias chega ao Lácio e é acolhido pelo rei Latino, mas a Fúria Alecto, enviada por Juno, inflama Amata e Turno e provoca a guerra. Eneias busca a aliança de Evandro e recebe de Vênus um escudo com a história futura de Roma.

    Ao contrário de Homero, Virgílio não deixa os fados anularem a liberdade: Turno, por exemplo, não é mera vítima de Alecto, pois sua vaidade preparou o terreno.

    Lácio e rei LatinoAlecto e Turnoportas de JanoEvandro e Palanteliberdade e destino TurnoEvandroTito LívioPierre GrimalHomero
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Chegada ao Lácio e a guerra instigada por Alecto · 49 min O livro 7 abre a “Ilíada romana”: Eneias chega ao Tibre, numa Itália fragmentada em pequenos reinos, e é bem acolhido pelo rei Latino. A Fúria Alecto, enviada por Juno, inflama Amata e Turno e provoca o primeiro confronto; a própria Juno abre as portas do templo de Jano.
    2. Parte 2: Evandro, o escudo de Eneias e a liberdade humana · 35 min No livro 8, Eneias busca a aliança de Evandro, rei árcade no futuro Palatino, que lhe confia o filho Palante, e Vênus obtém de Vulcano um escudo com a história futura de Roma. Defende que, em Virgílio, ao contrário de Homero, os fados não anulam a liberdade humana.
    1h23
  13. Aula 13 Niso e Euríalo e a fúria de Eneias

    Os livros 9 e 10 da Eneida: o ataque de Turno ao acampamento troiano, a trágica aventura de Niso e Euríalo e a disciplina romana diante da aristeia individual; depois, a assembleia dos deuses, o fatum virgiliano distinto da moira homérica e a morte de Palante, que torna Eneias um guerreiro furioso.

    O gemido de Eneias diante do jovem Lauso, que ele acabara de matar, mostra que Virgílio não quis fazer do herói o sábio impassível dos estoicos.

    Niso e Euríalodisciplina romanafatum e moiraestoicismomorte de Palante Theodor HaeckerPierre GrimalCíceroHomero
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Niso, Euríalo e o cerco ao acampamento troiano · 59 min No livro 9, Turno ataca o acampamento troiano na ausência de Eneias, e as naves se transformam em ninfas. Destaca a trágica aventura de Niso e Euríalo, o “sic itur ad astra” dito a Ascânio e as fileiras cerradas, virtude romana, que repelem a aristeia individual de Turno.
    2. Parte 2: O fatum virgiliano e a fúria de Eneias · 1h16 O livro 10 da Eneida, da assembleia dos deuses à morte de Mesêncio. A partir do veredito de Júpiter, distingue o fatum virgiliano, palavra de uma inteligência próxima do logos estoico, da moira homérica, e mostra como a morte de Palante torna Eneias um guerreiro furioso.
    2h15
  14. Aula 14 Camila, Turno e o fim da Eneida

    Os livros 11 e 12 da Eneida: o luto por Palante e a magnanimidade de Eneias na trégua, o debate entre Drances e Turno, a morte de Camila e o duelo final, em que Eneias mata Turno ao ver o boldrié de Palante, cólera que não anula sua pietas.

    Nos versos finais, o verbo condere significa ao mesmo tempo enterrar a espada e fundar: a fundação de Roma cobra seu preço em sangue.

    luto por PalanteDrances e TurnoCamilamorte de Turnopietas e gravitas Theodor HaeckerLía GalánPierre GrimalCíceroHorácio
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Luto por Palante, Drances e a morte de Camila · 45 min Livro 11 da Eneida: o luto por Palante, a trégua que revela a magnanimidade de Eneias, o lamento de Evandro, a recusa de Diomedes em combatê-lo, o debate entre Drances e Turno e a morte de Camila, cujo efeito psicológico inverte o cerco.
    2. Parte 2: O fim da Eneida: Turno, pietas e gravitas · 1h17 Livro 12 da Eneida: o pacto rompido por Juturna e o duelo em que Eneias mata Turno ao ver o boldrié de Palante. Defende que essa cólera não anula a pietas do herói e lê no verbo condere, enterrar e fundar, o preço da fundação de Roma.
    2h01

Autores, obras e figuras discutidos

Homero (Odisseia) · Virgílio · Frederico Lourenço · Horácio · T. S. Eliot · Alexander Pope · Platão · Petrarca · Samuel Taylor Coleridge · Aquiles · Heitor · Werner Jaeger · André Bonnard · Aristóteles (Ética a Nicômaco) · Ulisses · Telêmaco · Penélope · Atena · Pierre Vidal-Naquet · Calipso · Nausícaa · Demódoco · Jacinto Choza · Moses Finley (O Mundo de Ulisses) · Bruno Snell (A Descoberta do Espírito) · Hermann Fränkel · Giovanni Reale · Jon Elster (Ulisses e as sereias) · Bernard Knox · Xenófanes · Euricleia · Argos · Jacqueline de Romilly (Patience, mon cœur) · Aguirre, a Cólera dos Deuses (filme) · Tassilo Orpheu Spalding · Carlos Alberto Nunes · Santo Agostinho · Ezra Pound · Camões · Gian Lorenzo Bernini · Henry Purcell · Dante Alighieri · Turno · Evandro · Tito Lívio · Pierre Grimal · Theodor Haecker · Cícero · Lía Galán