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Técnica, Ciência e Religião: Uma Nova Introdução ao Pensamento Grego

De Tales a Aristóteles, como os gregos uniram técnica, ciência e religião numa só ascensão do conhecimento.

Professor Fabio Florence
28 aulas 16 horas
Sinopse

Do que trata o curso

A modernidade se acostumou a tratar técnica, ciência e religião como compartimentos estanques: a religião relegada ao sentimento, a ciência ao laboratório hiperespecializado, a técnica ao esforço repetitivo. O curso parte do diagnóstico de Max Weber sobre a autonomia das esferas culturais de valor e propõe pô-lo entre parênteses, olhando para os gregos, entre os quais essas três dimensões ainda se comunicavam.

O percurso começa pelas condições que tornaram possível o pensamento grego, da herança de povos mais antigos à pólis autônoma e a uma religião sem casta sacerdotal, e segue alternando filosofia e religião: os cosmólogos de Mileto, o orfismo e os pitagóricos, Heráclito, Parmênides, Anaxágoras e Empédocles. No caminho, a medicina hipocrática mostra a técnica se libertando da magia, e o debate entre natureza e convenção leva dos sofistas a Sócrates.

Com Platão, o professor Fabio Florence examina a dialética, a retórica purificada, os mitos, a ideia de ciência, o demiurgo e a purificação da religião grega. O curso termina em Aristóteles: a subida do conhecimento da sensação à técnica e à ciência, a filosofia primeira, a prova do primeiro motor imóvel e a vida contemplativa. Na imagem de Hegel da coruja de Minerva, que levanta voo ao entardecer, Aristóteles aparece como a síntese em que técnica, ciência e religião se integram, e o curso pergunta o que ela tem a dizer a quem vive, hoje, o fim de outro processo histórico.

Para quem é

  • Quem vai começar a ler Platão e Aristóteles e quer chegar a eles com o contexto certo
  • Estudantes e professores de filosofia e humanidades que desejam rever os pré-socráticos e a medicina grega
  • Quem sente que ciência, técnica e fé viraram mundos incomunicáveis e quer entender por quê
  • Profissionais que buscam o sentido vocacional do próprio trabalho
  • Pais e educadores interessados numa visão integrada do saber
Assista de graça

Conheça o curso em vídeo

Apresentação do curso
Aprendizados

O que você vai aprender

  • O que Weber chamou de autonomia das esferas culturais de valor e por que o curso a trata como “preconceito positivista”
  • A diferença entre técnica e ciência, e entre ocasião e causa, no nascimento do pensamento grego
  • Como o legalismo da religião grega e o oráculo de Delfos deixaram espaço para a reflexão sobre os deuses
  • O que os primeiros filósofos, de Tales a Empédocles, entendiam por physis, arché, logos e nous
  • O peso do orfismo e dos pitagóricos na ideia grega de alma e de purificação
  • Como a medicina hipocrática separou a técnica da magia e legou conceitos a Platão e Aristóteles
  • O debate entre natureza e convenção, dos sofistas a Sócrates e Platão
  • Como funciona a dialética platônica e como Platão purifica a retórica e a religião tradicionais
  • A diferença entre a ciência de Platão e Aristóteles e a ciência moderna descrita por Popper
  • A escada aristotélica da sensação à sabedoria e a prova do primeiro motor imóvel
Por que importa

Por que estudar isso hoje

Muita gente vive hoje o quadro que o curso descreve: um trabalho que não abre caminho para o aperfeiçoamento pessoal, uma ciência fechada em especialidades que não conversam, uma fé reduzida ao sentimento. O curso não propõe voltar ao passado, e sim ampliar a perspectiva histórica: mostrar que essa separação não é uma fatalidade e que houve uma civilização em que fazer, conhecer e adorar se comunicavam.

Estudar os gregos por esse ângulo dá instrumentos para pensar questões concretas: por que médicos e professores se sentem desvalorizados, o que distingue um bom ensino técnico de um punhado de dicas, por que o conhecimento pode ser buscado por si mesmo. E prepara a leitura de Platão e Aristóteles com o contexto que costuma faltar nas introduções escolares.

Conteúdo

As 28 aulas do curso

Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.

Resumo completo
  1. Apresentação do curso Técnica, ciência e religião sem compartimentos estanques

    Técnica, ciência e religião, que a modernidade separa em compartimentos estanques, aparecem em Aristóteles como etapas contínuas da ascensão do conhecimento até Deus, e o curso propõe esse modelo grego como resposta à falta de sentido.

    Em poucos minutos, o professor explica por que propõe uma “nova introdução” ao pensamento grego, organizada em torno de três noções que a modernidade separou.

    pensamento gregotécnicaciênciareligiãocompartimentos estanques
    7 min
  2. Aula 1 Weber, positivismo e as raízes primitivas da ciência

    O diagnóstico de Max Weber sobre a autonomia irreversível das esferas culturais de valor é tratado como “preconceito positivista” a ser relativizado pelo pensamento grego. Nas sociedades primitivas e em seus mitos, como a Teogonia de Hesíodo, já operam as noções de objetividade, inteligibilidade e explicabilidade.

    Pensamento crítico, defende o professor, não é caçar a ideologia por trás das teorias, mas pôr entre parênteses uma perspectiva tida como natural e compará-la com outras.

    preconceito positivistaesferas de valorpensamento críticoobjetividademitologia
    34 min
  3. Aula 2 As condições sociais e religiosas do pensamento grego

    Técnica é a transformação consciente da natureza; ciência, o saber desinteressado que nasce da reflexão sobre a técnica. Sem reduzir o pensamento grego à economia, são apontadas suas ocasiões favoráveis: herança de civilizações mais antigas, pólis autônoma e religião sem classe sacerdotal, com mitos conflitantes que podiam ser questionados.

    Enquanto a China se chamava “império do centro”, os gregos cultivaram uma postura receptiva, reconhecendo, como no Timeu de Platão, a sabedoria mais antiga dos egípcios.

    técnica e ciênciapreconceito materialistapólisreligião gregainvasão dórica
    31 min
  4. Aula 3 Legalismo religioso grego e o oráculo de Delfos

    O legalismo da religião grega, estudado por Martin Nilsson, foi ocasião, e não causa, do pensamento científico: cumpridos poucos deveres rituais, o grego ficava livre para pensar sobre os deuses, ao contrário do que ocorria no ritualismo hebraico. O oráculo de Delfos aconselhava cidades, fiscalizava cultos e difundia ideais morais.

    O “conhece-te a ti mesmo” de Delfos, explica o professor, significava sobretudo lembrar ao grego que ele era homem, e não deus, e devia evitar a desmedida.

    legalismo religiosoocasião e causaoráculo de Delfoshíbrisreligião grega
    29 min
  5. Aula 4 Tales, Anaximandro e Anaxímenes: a descoberta da physis

    Os cosmólogos de Mileto, Tales, Anaximandro e Anaxímenes, buscaram a regra das transformações do real. Mesmo com respostas parecidas às dos mitos, rompem com eles ao formular uma pergunta radical guiada pela inteligibilidade, chegando às noções de physis, arché e ápeiron, concebidas como princípio divino.

    Um mito indígena norte-americano também dizia que tudo veio da água; o que, então, separa Tales de um relato mitológico?

    filósofos jôniosphysisarchéápeironmito e razão
    33 min
  6. Aula 5 Do culto dos mortos ao orfismo

    A relação dos gregos com o mundo dos mortos passou do culto familiar descrito por Fustel de Coulanges ao reino de sombras homérico e, depois, ao orfismo e aos mistérios, que viam o corpo como prisão da alma e a vida como purificação, ideias que marcariam a filosofia grega.

    No mito órfico, a humanidade nasce das cinzas dos Titãs fulminados por Zeus depois de devorarem Dionísio, e por isso une natureza titânica e centelha divina.

    culto dos mortosorfismomistériosalma e corpometempsicose
    30 min
  7. Aula 6 A seita pitagórica e os Versos de Ouro

    A seita pitagórica como racionalização do orfismo: purificação da alma pela matemática e pela música, relação mestre-discípulo contraposta ao ensino pago dos sofistas e ideal do sábio divinizado, que ecoa no rei-filósofo de Platão. Fecha com a leitura comentada dos Versos de Ouro.

    Os Versos de Ouro já propunham um exame de consciência antes de dormir, com três perguntas: em que falhei, o que fiz e o que deixei de fazer.

    pitagorismoorfismomestre e discípuloVersos de Ouropurificação da alma
    42 min
  8. Aula 7 Heráclito e o logos: a harmonia dos opostos

    Heráclito de Éfeso lido além do clichê do “tudo flui”: o logos, razão e discurso que governa o real, harmoniza os opostos, embora a maioria viva descompassada dele. Fragmentos sobre o fogo, a alma, a discórdia e o oráculo de Delfos desenvolvem a tese.

    No fragmento do arco, que em grego quase se confunde com a palavra vida e cuja obra é a morte, a própria linguagem revela a tensão entre opostos.

    Heráclitologosharmonia dos opostospré-socráticosfogo primordial
    34 min
  9. Aula 8 Medicina hipocrática: da magia à técnica

    A medicina hipocrática como a revolução que afastou a arte médica da magia e a fundou na noção de physis. Distingue a experiência grega, que ilustra, da experiência de Galileu, que testa hipóteses, e explica diagnóstico, constituições individuais, uso dos cinco sentidos e prognóstico.

    Segundo o tratado Sobre a Medicina Antiga, a medicina nasceu da culinária, e um mingau oferecido a quem tinha dor de barriga estaria na origem dos remédios.

    medicina hipocráticaphysisdiagnóstico e prognósticomagiaexperiência
    33 min
  10. Aula 9 Conceitos hipocráticos e a vocação do médico

    Conceitos hipocráticos retomados por Platão e Aristóteles, como catástase, eidos, dynamis e o par necessidade e acaso, somam-se à ideia da técnica como saber racional, ensinável e produtor de obra. Defende resgatar a vocação filantrópica do médico e das profissões, contra uma lógica só de mercado e de direitos.

    Um ditado hipocrático, “onde há amor pelo homem, há amor pela arte”, serve de ponto de partida para discutir por que médicos e professores se sentem desvalorizados.

    medicina hipocráticadynamisnecessidade e acasovocação profissionalfilantropia
    35 min
  11. Aula 10 Parmênides e o nascimento da lógica

    Parmênides como o primeiro a formular as leis lógicas que todo pensamento já segue, o que relativiza a ideia de mentalidade pré-lógica de Lévy-Bruhl. Com Charles Kahn e o verbo ser grego, extrai-se daí o princípio de que do nada absoluto nada se faz.

    A distinção entre nada absoluto e nada relativo responde a um professor de ciências para quem partículas surgidas “do nada” provam que o universo nasceu do nada.

    Parmênideslógicaverbo sernada absolutomentalidade pré-lógica
    37 min
  12. Aula 11 Anaxágoras: a inteligência que ordena o cosmos

    Anaxágoras de Clazômenas, mestre de Péricles, reúne a physis jônica, a dynamis dos médicos e o princípio de Parmênides e postula o nous, inteligência que ordena a mistura original. Destacam-se, com Zafiropulo, o infinitamente pequeno e os “pontos qualitativos”, além do ideal de vida contemplativa.

    Antes de os sofistas separarem substantivo e adjetivo, era possível pensar o doce e o quente como substâncias, chave para entender os “pontos qualitativos” de Anaxágoras.

    Anaxágorasnousinfinitamente pequenopontos qualitativosvida contemplativa
    30 min
  13. Aula 12 Empédocles: quatro raízes, amor e discórdia

    Empédocles de Agrigento, polímata que se dizia divino, surge como último representante da sabedoria antiga diante da sofística. Discutem-se as quatro raízes, o amor e a discórdia, a crítica do tratado Sobre a Medicina Antiga e a leitura de E. R. Dodds, que o vê como um dos últimos xamãs.

    Numa obra literária alemã, Empédocles se lança no Etna ao saber que Górgias, talvez seu antigo aluno, triunfara com a sofística em Atenas.

    Empédoclesquatro elementosamor e discórdiaxamanismosofística
    27 min
  14. Aula 13 Nomos e physis: natureza contra convenção

    A oposição entre physis, natureza, e nomos, norma ou convenção, é seguida de Heródoto aos sofistas: a ambiguidade de Protágoras, o conflito exposto por Antifonte e a defesa do direito do mais forte por Cálicles, no Górgias de Platão, e pelos atenienses em Tucídides.

    Gregos que cremavam e calátios que comiam seus mortos, ambos escandalizados com o costume alheio, abrem a discussão sobre o que é natural e o que é convenção.

    nomos e physissofísticarelativismoAntifonteforça e justiça
    34 min
  15. Aula 14 Sócrates contra Cálicles: a infelicidade do tirano

    Sócrates, no Górgias, refuta a tese de Cálicles de que o direito natural é o do mais forte com argumentos “entrépticos”, que envergonham o interlocutor. Mostra que quem vive para satisfazer desejos é escravo, não senhor, tese que a República e O Poder, de Guglielmo Ferrero, aprofundam.

    A pergunta de um espectador de onze anos, “e quem é o mais forte?”, é justamente a que Sócrates dirige a Cálicles para começar a desmontar sua tese.

    Sócratesargumento entrépticoCáliclestiraniafelicidade
    30 min
  16. Aula 15 Platão, Antígona e Crítias: natureza e lei

    Platão prolonga o projeto socrático ao buscar a harmonia entre physis e nomos, apoiado na Antígona de Sófocles, que invoca leis não escritas acima dos decretos. Discute também Crítias, precursor de Hobbes, para quem a norma deve frear uma natureza má e os deuses seriam invenção útil.

    A reação do público de Os Dez Mandamentos à abertura do mar ilustra o impacto de Antígona e a tese de que a arte transmitia verdades antes da filosofia.

    nomos e physisAntígonaleis não escritasCrítiasarte e verdade
    31 min
  17. Aula 16 Dialética platônica: do falso saber à aporia

    A dialética platônica, distinta da hegeliana e da mera “arte do diálogo”, é diálogo dirigido por um mestre que vê a ideia do bem. Com Victor Goldschmidt, a Apologia e o Laques, mostra como Sócrates expõe os limites do saber técnico e do falso saber até a aporia.

    Um grande professor do século XX distinguia três tipos de professor, e Sócrates seria o consumado: o que só diz aquilo que o aluno é capaz de aprender.

    dialética platônicaideia do bemaporiasaber técnicoLaques
    33 min
  18. Aula 17 Dialética no Laques: Sócrates como tentador

    O Laques continua como exemplo: Nícias define a coragem como saber, e Sócrates, no papel de “tentador” descrito por Goldschmidt, leva-o ao erro para que o sinta. Contrapõe justificação racional e proclamação religiosa e descreve a dialética como subida à ideia do bem e descida aos casos concretos.

    A residência médica serve de exemplo para o saber superior que Nícias busca: aquele que diz quando a técnica deve ou não entrar em ação.

    dialética platônicacoragemanipotéticopedagogia do errosaber prudencial
    37 min
  19. Aula 18 A transposição platônica da retórica no Fedro

    Platão, lido como conservador e não como revolucionário, purifica o saber tradicional. No Górgias, a retórica dos sofistas aparece como falsa ciência e arte de adulação; no Fedro, o elogio do amor mostra a verdadeira retórica, ancorada na ideia do bem e mais convincente.

    Quem já ouviu um professor dizer que preferia estar no bar entende, pelo avesso, por que Platão exige que a retórica nasça do amor à verdade.

    retóricaFedroGórgiassofistastransposição
    30 min
  20. Aula 19 Orfismo, mitos e mistério em Platão

    Platão transpõe a herança órfica, imortalidade e purificação da alma, para o discurso filosófico, usando mitos onde a razão toca o mistério, como o julgamento das almas no Górgias. Compara-se o método ao de Tomás de Aquino, e discutem-se o mal como ignorância e a pena de morte nas Leis.

    Aristóteles criticou Platão por contar mitos onde caberia uma prova racional, mas o senso do mistério recomendado por Sertillanges mostra por que esse recurso continua pertinente.

    orfismomitos platônicosmistérioproblema do malpena de morte
    34 min
  21. Aula 20 A ciência para Platão e para Popper

    A ciência moderna, revisável e refutável segundo Popper, é contrastada com a concepção de Platão: conhecimento permanente de essências que participam de ideias eternas. Para os gregos a experiência ilustrava, não descobria; o cientista moderno é descrito como trabalhador de laboratório, e propõe-se combinar as duas visões.

    O sonho de um jovem que quer ser cientista, entender como as coisas são, estaria mais perto da ciência de Platão que da rotina dos laboratórios.

    concepção de ciênciaKarl Popperideias eternasparadigmaexperiência científica
    33 min
  22. Aula 21 O demiurgo: técnica humana e ordem da natureza

    A analogia grega entre o artesão e o ordenador divino da natureza explica o nome do curso. A finalidade e a beleza dos seres naturais, que a arte imita, levam ao demiurgo do Timeu, cujas obras, ao contrário das humanas, têm vida própria graças à alma do mundo.

    Um curso de marcenaria e um criado-mudo feito com esforço ilustram por que nenhum artesão se contenta com um objeto apenas útil: ele também precisa ser belo.

    demiurgofinalidadebelezaalma do mundoTimeu
    33 min
  23. Aula 22 Platão e a purificação da religião grega

    O politeísmo, com seu deus criador ocioso descrito por Mircea Eliade, é explicado com Eugene Michael Jones como contaminação da ideia de Deus pela imaginação e pelos vícios humanos. Diante da pergunta de Adimanto sobre deuses subornáveis, Platão critica Homero e Hesíodo e aproxima a religião da razão.

    Zeus, que usa poderes divinos para trair Hera, exemplifica como a mitologia teria dado sanção divina a condutas que entre os homens seriam condenadas.

    religião gregapoliteísmocrítica aos poetasRepúblicavícios
    33 min
  24. Aula 23 A filosofia primeira de Aristóteles e as ciências

    Aristóteles, aluno de Platão, busca o permanente no mutável e organiza as ciências como campos especializados, mas interligados. A filosofia primeira, depois chamada metafísica, fornece conceitos como substância, quantidade e qualidade e defende os princípios das demais ciências, como ilustram exemplos da física e da biologia atuais.

    Na resposta aristotélica que a aula propõe, entre a Terra e Marte não há vácuo absoluto, pois onde há distância há quantidade e, portanto, substância.

    filosofia primeirametafísicasubstância e acidenteespecialização científicavácuo
    33 min
  25. Aula 24 Da sensação à arte: o início da Metafísica

    O início da Metafísica de Aristóteles traça a ascensão do conhecimento: das sensações, sobretudo a visão, à memória e à audição, que tornam alguns animais ensináveis, e daí à experiência e à arte, ou técnica, fruto do raciocínio sobre a experiência. O médico e o curandeiro ilustram essa diferença.

    Os mestres das corporações de ofício que ergueram as catedrais góticas ilustram o hábito da arte de que fala Aristóteles, em contraste com o arquiteto que depende do AutoCAD.

    Metafísicasensação e memóriaexperiênciaarte e técnicacorporações de ofício
    35 min
  26. Aula 25 A noção de ciência em Aristóteles

    No início da Metafísica, a ciência aparece como o saber das causas buscado por si mesmo: a arte supera a experiência por conhecer o porquê e poder ensinar, e a ciência supera as artes úteis. Daí decorrem críticas ao ensino técnico reduzido a dicas e ao vazio da vida moderna.

    Do francês savant, o estudioso a caminho de se tornar sábio, ao mito de Dédalo, os exemplos mostram por que os gregos admiravam quem conhece as causas.

    noção de ciênciaexperiência e arteconhecimento das causasensino técnicoDédalo
    33 min
  27. Aula 26 Aristóteles, o movimento e o primeiro motor imóvel

    A prova aristotélica de Deus pelo movimento, depois adotada por Tomás de Aquino, parte dos tipos de movimento: local, alteração, geração e corrupção, crescimento. Como o movimento vital subordina os demais, chega-se ao primeiro motor imóvel, Deus como a própria vida, que move tudo por ser amado e imitado.

    Longe da imagem de pensador frio, Aristóteles aparece unindo razão e sensibilidade: o giro dos astros imitaria o pensamento divino que pensa a si mesmo.

    primeiro motor imóveltipos de movimentomovimento imanenteexistência de DeusTomás de Aquino
    35 min
  28. Aula 27 Sabedoria, maturidade e as doze camadas da personalidade

    Deus, primeiro amado e pensamento que pensa a si mesmo, é imitado pelo sábio que contempla verdades eternas, e a sabedoria, com apoio na teoria das doze camadas da personalidade, de Olavo de Carvalho, aparece como fruto da maturidade. Por fim, Aristóteles surge como ápice da purificação intelectual das crenças religiosas gregas.

    Uma crítica aos livros didáticos que apresentam a filosofia como saber sem utilidade abre a discussão sobre a fase da vida em que a contemplação passa a fazer sentido.

    vida contemplativasabedoriacamadas da personalidadematuridadereligião grega
    33 min
  29. Aula 28 A coruja de Minerva: técnica, ciência e religião

    Com a imagem hegeliana da coruja de Minerva, Aristóteles surge como síntese do pensamento grego no ocaso da pólis, integrando técnica, ciência e religião. A vida contemplativa do filósofo exige virtudes como temperança, fortaleza, justiça e prudência, e a separação moderna dessas três esferas é apontada como um descaminho.

    No fecho do curso, a pergunta sobre o que os gregos têm a ver conosco recebe resposta direta: também vivemos o entardecer de um processo histórico.

    coruja de Minervavirtudes moraisnousvida contemplativamodernidade
    31 min
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5 perguntas rápidas, sorteadas entre 30. Você vê a resposta na hora, com uma explicação curta. Dá para jogar quantas rodadas quiser.

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Curiosidades sobre o tema

Da história

Os homens que exerciam funções sacerdotais na Grécia, ao contrário do Egito e da Mesopotâmia, não eram funcionários profissionais: eram cidadãos comuns — agricultores, comerciantes — que num dado momento iam ao templo oferecer sacrifícios e voltavam à vida cotidiana.

Para pensar

Tente pensar o nada absoluto: no instante em que o pensa, você já lhe atribuiu algum ser, mesmo a contragosto. Dessa observação o curso tira, com Parmênides, a consequência de que do nada absoluto nada se faz.

No dia a dia

Quando alguém diz “eu sei o que é, só não sei explicar”, está dizendo, sem perceber, que não sabe. É a situação de Laques, no diálogo de Platão que leva seu nome, ao ser conduzido por Sócrates à aporia.

Da história

Aristóteles foi tutor de Alexandre, o Grande, mas viveu para ver o mundo das cidades-Estado gregas chegar ao fim. A morte de Aristóteles e o ocaso da pólis caminharam juntos — como se a obra do filósofo tivesse esperado o entardecer histórico para se completar.

Referência

A palavra *demiurgo*, que Platão escolhe no Timeu para nomear o ser que ordena o universo, designava na cidade grega o ferreiro, o pedreiro, o ceramista: literalmente, “quem trabalha para o povo”. O deus de Platão é pensado à imagem do artesão.

Referência

Na abertura da Metafísica, Aristóteles observa que há animais inteligentes, mas incapazes de aprender, como a abelha, porque não ouvem sons: só aprende quem, além de memória, tem audição.

No dia a dia

A virtude da prudência, em Aristóteles, não tem nada a ver com a pessoa medrosa, retraída, que evita iniciativas. Prudente é quem age no momento certo, do modo certo — incluindo quem decide arriscar quando é hora de arriscar.

Da história

Para ilustrar o hábito da arte de que fala Aristóteles, o curso lembra os mestres de obras das catedrais góticas: formados nas corporações de ofício, resolviam no próprio canteiro problemas que hoje o arquiteto confia ao computador.

Referência

*Heurística*, o procedimento do pensamento voltado à descoberta, vem do mesmo verbo grego de *eureka*, “encontrei”, que Arquimedes teria gritado ao sair da banheira. Para os gregos, lembra o curso, a experiência não tinha essa função: servia para ilustrar.

Para pensar

Quando se diz que partículas “surgem do nada” em medições de laboratório, o curso lembra a lição de Parmênides: esse “nada” é relativo, porque as partículas aparecem num universo que já é algo. Do nada absoluto, nada se faz.

Da história

Pitágoras, nascido na ilha grega de Samos, teria viajado ao Egito e à Mesopotâmia antes de se estabelecer em Crotona, no sul da Itália. A confraria que fundou ali chegou a governar várias cidades, até ser violentamente dispersa por revoltas populares.

No dia a dia

Os médicos hipocráticos usavam os cinco sentidos no diagnóstico, inclusive o paladar, para avaliar amostras de resíduos humanos. Para o curso, é um retrato da vocação exigida do médico, que não pode ter nojo de nada.

Referência

*Logos* é o substantivo ligado ao verbo grego *légein*, que significa ao mesmo tempo recolher e dizer. Por isso a palavra reúne sentidos como palavra, discurso, linguagem e razão, e Heráclito a usa para nomear a estrutura mais profunda do real.

Para pensar

Os deuses do politeísmo grego praticam quase todos os vícios humanos. A tese de Eugene Michael Jones é que o homem inventa deuses viciosos para legitimar os próprios vícios — e, depois, julga-se autorizado a subornar essas mesmas divindades com sacrifícios.

Da história

O legalismo da religião grega era curiosamente liberal: cumpridos os deveres rituais, o cidadão tinha enorme liberdade para pensar o que quisesse sobre os deuses. Para o curso, essa liberdade foi uma ocasião, e não a causa, do nascimento da filosofia.

No dia a dia

Por que médicos e professores se sentem desvalorizados? Para o curso, antes do salário e das condições de trabalho, falta à sociedade compreender o valor vocacional dessas profissões; se o compreendesse, ela mesma exigiria que fossem mais bem tratadas.

Referência

Os Versos de Ouro pitagóricos prescrevem ao discípulo, antes de dormir, três perguntas: em que faltei? o que fiz? o que omiti do que devia? O exame de consciência cotidiano, longe de invenção monástica medieval, já circulava entre iniciados gregos.

Da história

Heráclito, chamado “o Obscuro”, desprezava a massa do povo, que julgava irremediavelmente ignorante, e não poupava nem os tidos por sábios: num fragmento, diz que a muita instrução não ensinou a ter inteligência nem mesmo a Pitágoras.

Para pensar

No fragmento 48 de Heráclito, arco e vida são quase a mesma palavra em grego, *biós* e *bíos*, distintas só pela posição do acento. “Do arco, o nome é vida, e a obra é morte”: a própria linguagem manifesta a tensão dos contrários.

No dia a dia

Quando você entra num quarto bonito, harmônico, e sente um repouso prazeroso, está experimentando aquilo que os medievais chamavam de beleza: “o que, uma vez visto, agrada”. Sua inteligência percebe a adequação antes mesmo de você formular a frase.

Fabio Florence em gravação
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Fabio Florence

Fabio Florence é professor de filosofia, com mais de dez anos de experiência em colégios de São Paulo, e tradutor de autores como Santo Tomás de Aquino.

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