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Resumo do curso · Literatura e Cultura

Teatro Grego: Introdução à Tragédia

Ésquilo, Sófocles e Eurípides lidos pelas perguntas que fazem: destino, liberdade, justiça, acaso e os deuses.

Com Mauro Keller 13 aulas 14 horas de vídeo 13 aulas expositivas com leitura comentada de trechos das peças, cerca de 13 horas e meia no total: uma introdução de 9 minutos e 12 aulas de 42 a 117 minutos, duas gerais sobre a tragédia, duas sobre Ésquilo, quatro sobre Sófocles e quatro sobre Eurípides.

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Visão geral

Por que ler hoje peças escritas para as festas de Dioniso em Atenas, no século V a.C.? Porque são clássicos: continuam a iluminar perguntas sobre o destino e a liberdade, a justiça, o sofrimento dos inocentes e o lugar dos deuses na vida humana. Este curso de Mauro Keller é uma introdução pensada para levar o aluno aos próprios textos, em boas traduções com notas.

As duas primeiras aulas preparam a leitura: a origem ritual da tragédia e sua função na Atenas democrática, a catarse de Aristóteles, as teorias sobre o trágico, de Aristóteles a Goethe e Albin Lesky, a estrutura das peças e as noções de destino, erro, acaso e hybris. Seguem os três grandes autores, lidos em trechos comentados, com atenção à visão de mundo de cada um.

De Ésquilo vem a Oresteia, em que a maldição dos Atridas termina num tribunal fundado por Atena. De Sófocles, Ajax e Filoctetes em resumo e, com mais vagar, Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona, em torno da dike, da culpa involuntária e da prudência. De Eurípides, o mais trágico dos três, um panorama da obra e a leitura de Medeia, Hipólito, Ifigênia em Áulis e As Bacantes.

O percurso vai da confiança de Ésquilo nos deuses à justiça cósmica de Sófocles e termina nas dúvidas de Eurípides, um autor atraído pelo espiritual e desiludido com os deuses de seu tempo.

O percurso do curso

Por que e como ler (introdução e aulas 1 e 2)

O curso começa justificando a leitura: as tragédias são clássicos, obras que perduram, e devem ser lidas em boas traduções com notas; o professor recomenda as de Mário da Gama Kury. A tragédia nasce dos ritos a Dioniso, ganha forma teatral e floresce na Atenas democrática do século V a.C., onde se percebe seu poder formador, que Aristóteles explica pela catarse, a purificação produzida no espectador pelo pavor e pela compaixão.

A segunda aula pergunta o que é o trágico: a reviravolta causada pelo acaso e pelo erro não culpável, segundo Aristóteles; o conflito insolúvel, segundo Goethe; ou, com Albin Lesky, distinções que mostram que a tragédia ática não é niilista. Vêm então a estrutura das peças, do prólogo ao êxodo, recursos como o ágon, a peripécia e a anagnórise, e a combinação de destino, erro e hybris que leva à catástrofe.

Ésquilo e a Oresteia (aulas 3 e 4)

Ésquilo, que combateu em Maratona, é estudado pela Oresteia. O Agamemnon retoma a maldição dos Atridas e o sacrifício de Ifigênia, lido como escolha, e não como destino inelutável: dele nasce a vingança de Clitemnestra. Nas Coéforas, Orestes mata a mãe e é perseguido pelas Erínias; nas Eumênides, Atena institui o tribunal do Areópago, e a trilogia termina, como lê Toynbee, na passagem da vingança entre clãs para a justiça da pólis.

Sófocles (aulas 5 a 8)

Sófocles põe os deuses a distância e confia na dike, a justiça que restaura o equilíbrio. Depois de uma visão geral de sua obra e dos resumos de Ajax e Filoctetes, o curso se detém na chamada trilogia tebana. Édipo Rei é uma investigação em que o investigador é o culpado, lida sem o ‘complexo de Édipo’ de Freud; em Édipo em Colono, o herói proclama a inocência de quem agiu sem saber, e o curso distingue a compaixão grega, que é justiça, do perdão cristão; Antígona opõe as leis não escritas ao decreto de Creonte e termina num louvor à prudência.

Eurípides (aulas 9 a 12)

Eurípides, polêmico e pouco premiado em vida, tornou-se o mais representado dos trágicos e, por meio de Sêneca, uma fonte do teatro moderno. Um panorama de suas dezoito tragédias e as três marcas apontadas por Jacqueline de Romilly, psicologia, teatro de ideias e complexidade cênica, preparam a leitura de Medeia, em que a paixão vence a razão e o acaso deixa a culpada impune, e de Hipólito, destruído pela vingança de Afrodite.

O curso termina com Ifigênia em Áulis, em que um desencontro de vontades leva a jovem ao sacrifício, e com As Bacantes, em que a crueldade de Dioniso revela o paradoxo de Eurípides: nunca tão perto do espiritual, nunca tão desiludido com ele. A consciência moral dos gregos, conclui o professor, já pedia mais do que seus cultos ofereciam.

O que você vai aprender

  • Situar a tragédia em sua origem ritual, ligada a Dioniso, e na Atenas democrática do século V a.C.
  • Entender a catarse de Aristóteles e o poder formador que os atenienses viam no teatro
  • Distinguir as principais maneiras de definir o trágico, de Aristóteles a Goethe e Albin Lesky
  • Reconhecer a estrutura de uma tragédia, do prólogo ao êxodo, e recursos como o ágon, a peripécia e a anagnórise
  • Usar as noções de destino, erro, acaso e hybris para ler o desenlace das peças
  • Acompanhar a Oresteia, da maldição dos Atridas à fundação do tribunal do Areópago
  • Ler Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona à luz da dike, da culpa involuntária e da prudência
  • Reconhecer em Medeia, Hipólito, Ifigênia em Áulis e As Bacantes as marcas de Eurípides: psicologia, teatro de ideias e dúvida religiosa
  • Comparar o que Ésquilo, Sófocles e Eurípides pensam dos deuses, da justiça e do acaso
  • Escolher traduções e edições comentadas para seguir lendo por conta própria

Aula por aula

  1. Introdução ao curso Três trágicos e suas visões de mundo

    O plano do curso e as obras escolhidas: a Oresteia de Ésquilo, confiante nos deuses; os dois Édipos e Antígona de Sófocles, que confia na justiça cósmica; e Medeia, Hipólito, Ifigênia em Áulis e As Bacantes de Eurípides, que põe os deuses em dúvida.

    Pouco popular em seu tempo, Eurípides aparece como fonte de uma longa linhagem teatral, de Sêneca e Shakespeare a Ibsen e Nelson Rodrigues.

    tragédia gregaÉsquiloSófoclesEurípidescosmovisão ÉsquiloSófoclesEurípidesHomeroSêneca
    9 min
  2. Aula 1 Por que ler tragédia grega: origens e catarse

    Por que ler hoje as tragédias gregas, clássicos que continuam a ensinar, e como lê-las, em boas traduções com notas. A tragédia nasce dos ritos a Dioniso e floresce na Atenas democrática do século V a.C., com uma função formadora explicada pela catarse de Aristóteles.

    Por que ler, em pleno século XXI, peças escritas há quase 2.500 anos para uma festa religiosa de Atenas? A aula responde com a noção de clássico: o que perdura.

    origem da tragédiaDionisodemocracia ateniensecatarsetraduções Aristóteles, PoéticaÉsquiloMário da Gama KuryAlbin LeskyJacqueline de Romilly
    1h02
  3. Aula 2 O que é o trágico: estrutura e hybris

    O que torna trágica uma peça, da reviravolta de Aristóteles ao conflito insolúvel de Goethe e às distinções de Albin Lesky, para quem a tragédia ática não é niilista. Depois, a estrutura da peça, do prólogo ao êxodo, recursos como o ágon e a anagnórise e o jogo entre destino, erro, acaso e hybris.

    Se o culpado colhe o que plantou, não há tragédia: a aula explica por que, para Aristóteles, o trágico nasce do acaso e do erro não culpável.

    o trágicometaboléestrutura da tragédiaágon e anagnórisehybris Aristóteles, PoéticaAlbin LeskyGoetheSófocles, AntígonaÉsquilo, Coéforas
    1h15
  4. Aula 3 Ésquilo e o Agamemnon: maldição, destino e liberdade

    Ésquilo e o pano de fundo mítico da Oresteia, da maldição dos Atridas ao sacrifício de Ifigênia, com leitura comentada do Agamemnon. Para Ésquilo, o destino não é inelutável: Agamemnon poderia ter recusado o sacrifício, e sua escolha desencadeia a vingança de Clitemnestra.

    Da rede de fogueiras que anuncia a queda de Troia às profecias de Cassandra, em quem ninguém acredita, a leitura mostra a força poética e a ironia de Ésquilo.

    ÉsquiloAgamemnonmaldição dos Atridassacrifício de Ifigêniadestino e liberdade Ésquilo, AgamemnonHomero, IlíadaAndré Bonnard, Civilização gregaHeródotoTucídides
    1h03
  5. Aula 4 Coéforas e Eumênides: da vingança ao tribunal

    O fim da Oresteia: nas Coéforas, Orestes hesita, mas mata Clitemnestra e foge perseguido pelas Erínias; nas Eumênides, Apolo o defende no Areópago e o voto de Atena o absolve. Com Toynbee, o desfecho aparece como passagem da vingança entre clãs à justiça da pólis.

    As Erínias, horrendas como górgonas, não estão erradas, diz o professor; a aula mostra como elas se tornam as 'benevolentes' que dão nome à peça.

    CoéforasEumênidesEríniasAreópagojustiça da pólis Ésquilo, CoéforasÉsquilo, EumênidesArnold Toynbee
    55 min
  6. Aula 5 Sófocles: cosmovisão, estilo, Ajax e Filoctetes

    Sófocles e suas sete tragédias preservadas: deuses distantes que realçam o sagrado, a dike como equilíbrio cuja restauração gera o trágico, personagens psicologicamente bem delineados e o lirismo. A aula termina com o resumo de Ajax e de Filoctetes.

    Diante de Ajax humilhado por Atena, seu inimigo Ulisses sente piedade: 'todos quantos vivemos somos apenas figuras de ilusão e sombras vãs'.

    Sófoclesdikecaracterização dos personagenslirismoAjax e Filoctetes Sófocles, AjaxSófocles, FiloctetesJacqueline de RomillyWerner Jaeger, PaideiaAlbin Lesky
    1h05
  7. Aula 6 Édipo Rei: maldição, investigação e herói trágico

    O mito dos Labdácidas, da maldição de Pélope sobre Laio ao reinado de Édipo, e a leitura de Édipo Rei como investigação em que o investigador é o assassino procurado. Com Vernant, a aula recusa o 'complexo de Édipo' do personagem; com Lesky, o lê como herói trágico.

    No auge da ironia de Sófocles, Édipo lança maldições contra o assassino de Laio sem saber que está amaldiçoando a si mesmo.

    Édipo Reimaldição dos Labdácidasironia trágicacomplexo de Édipoherói trágico Sófocles, Édipo ReiJean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-NaquetSigmund FreudAlbin Lesky
    1h12
  8. Aula 7 Édipo em Colono: inocência, justiça e perdão

    Em Édipo em Colono, última peça de Sófocles, o velho Édipo, cego e expulso de Tebas, proclama a inocência de quem agiu sem querer. A aula distingue a compaixão grega, que é justiça e equivale à desculpa, do perdão cristão, e comenta o fim misterioso e sem dor do herói.

    Um sermão de C.S. Lewis sobre desculpar e perdoar ajuda a entender por que Édipo pede justiça para si e nega qualquer perdão aos filhos.

    Édipo em Colonovoluntariedadedesculpa e perdãopessimismo trágicomorte de Édipo Sófocles, Édipo em ColonoC.S. LewisAlbin LeskyMário da Gama Kury
    42 min
  9. Aula 8 Antígona: leis divinas, hybris e prudência

    Antígona sepulta o irmão Polinices contra o decreto de Creonte, em nome das leis não escritas dos deuses. Sem reduzir Creonte a vilão, a leitura expõe sua hybris, discute Hegel e Martha Nussbaum e vê na peça, do hino ao homem ao coro final, um louvor à prudência.

    O coro que celebra as maravilhas do homem vira ponto de partida para pensar a técnica de hoje, da inteligência artificial às armas nucleares, e seus limites morais.

    Antígonaleis não escritashybrisprudênciatécnica Sófocles, AntígonaAristóteles, Ética a NicômacoHegelMartha Nussbaum, A fragilidade da bondadeAndré-Jean Festugière
    1h28
  10. Aula 9 Eurípides, o mais trágico: panorama e marcas

    Eurípides, polêmico e pouco premiado em vida, tornou-se o mais representado dos trágicos. Um panorama das dezoito tragédias conservadas mostra a influência sofista, a dúvida sobre os deuses e o peso do acaso; com Jacqueline de Romilly, a aula sistematiza três marcas: psicologia, teatro de ideias e complexidade cênica.

    Por que o autor que menos venceu em vida é o mais encenado até hoje? A resposta passa pela violência de suas cenas e pela modernidade de suas dúvidas.

    Eurípidessofistasacasopsicologia dos personagensteatro de ideias Jacqueline de RomillySênecaProtágorasOvídio, MetamorfosesAndré Bonnard
    2 partes nesta aula
    1. Parte 1: Eurípides, o mais trágico: panorama de sua obra · 1h27 Eurípides, polêmico e pouco premiado em vida, tornou-se depois o mais representado dos trágicos. O panorama das peças conservadas, de Alceste e As Troianas a Medeia e As Bacantes, destaca a influência sofista, a dúvida sobre os deuses, o peso do acaso (tyche) e o realismo psicológico.
    2. Parte 2: As três marcas do teatro de Eurípides · 30 min O teatro de Eurípides tem, segundo Jacqueline de Romilly, três marcas: o aprofundamento psicológico, com paixões que vencem a razão e reviravoltas dos personagens; o teatro de ideias, que discute religião, condição feminina e liberdade sem tomar posição; e a complexidade cênica e literária.
    1h57
  11. Aula 10 Medeia: paixão, inteligência e o império do acaso

    Medeia, que une paixão intensa e inteligência extrema, lida do prólogo ao carro do Sol: o discurso sobre a condição feminina, o cinismo de Jasão, as seis hesitações antes de matar os filhos. O desfecho, em que ela escapa impune, mostra o peso do acaso em Eurípides.

    Match Point, de Woody Allen, em que um detalhe do acaso livra o assassino, ajuda a distinguir o niilismo contemporâneo do anseio de Eurípides por uma realidade superior.

    Medeiacondição femininapaixão e razãoacasoMatch Point Eurípides, MedeiaAndré BonnardAristótelesWoody Allen, Match Point
    46 min
  12. Aula 11 Hipólito: castidade, vingança de Afrodite e perdão

    Hipólito, devoto casto de Ártemis, é destruído pela vingança de Afrodite, que desperta em Fedra uma paixão pelo enteado. Da falsa acusação à maldição de Teseu, a leitura põe em dúvida que Eurípides critique a castidade do herói e destaca o perdão final entre pai e filho.

    A aparição de Ártemis no desfecho serve para explicar a origem da expressão deus ex machina, recurso típico do teatro de Eurípides.

    HipólitocastidadeFedraAfrodite e Ártemisdeus ex machina Eurípides, Hipólito
    1h02
  13. Aula 12 Ifigênia em Áulis e As Bacantes: deuses cruéis

    Em Ifigênia em Áulis, sucessivas reviravoltas mostram como um desencontro de vontades, obra do acaso, leva Ifigênia ao altar. Em As Bacantes, a vingança cruel de Dioniso contra Penteu revela o paradoxo de Eurípides: nunca tão perto do espiritual, nunca tão desiludido com ele.

    O fecho do curso sugere que a consciência moral grega já superava seus cultos e que Eurípides escreve à espera de um deus ainda ignorado.

    Ifigênia em ÁulisAs BacantesDionisoacasodesilusão religiosa Eurípides, Ifigênia em ÁulisEurípides, As BacantesAndré BonnardAndré-Jean FestugièreAristóteles
    54 min

Autores, obras e figuras discutidos

Ésquilo · Sófocles · Eurípides · Homero · Sêneca · Aristóteles, Poética · Mário da Gama Kury · Albin Lesky · Jacqueline de Romilly · Goethe · Sófocles, Antígona · Ésquilo, Coéforas · Ésquilo, Agamemnon · Homero, Ilíada · André Bonnard, Civilização grega · Heródoto · Tucídides · Ésquilo, Eumênides · Arnold Toynbee · Sófocles, Ajax · Sófocles, Filoctetes · Werner Jaeger, Paideia · Sófocles, Édipo Rei · Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet · Sigmund Freud · Sófocles, Édipo em Colono · C.S. Lewis · Aristóteles, Ética a Nicômaco · Hegel · Martha Nussbaum, A fragilidade da bondade · André-Jean Festugière · Protágoras · Ovídio, Metamorfoses · André Bonnard · Eurípides, Medeia · Aristóteles · Woody Allen, Match Point · Eurípides, Hipólito · Eurípides, Ifigênia em Áulis · Eurípides, As Bacantes