Dante e a Literatura
Da Florença do exílio à Divina Comédia: a poesia de Dante, a filosofia que a sustenta e o que ela ainda diz a nós.
Visão geral
Dante Alighieri viveu numa encruzilhada. Guelfo branco numa Florença dividida, defensor da separação entre o poder do papa e o dos príncipes, estava em Roma quando Carlos de Valois tomou a cidade a pedido de Bonifácio VIII, e morreu no exílio. Era um escolástico, fiel na teologia a Alberto Magno e a Tomás de Aquino, mas atraído, na poesia e na filosofia, pelo Dolce Stil Novo de Guinizelli e pelo aristotelismo radical de seu mestre Guido Cavalcanti. É desse ponto que Marcus Boeira parte, propondo ler Dante não só pela forma poética, mas pela filosofia que a sustenta.
As obras aparecem em ordem cronológica: a Vita Nova e as rimas, com a donna gentile que se transfigura em Beatriz; o Convívio, em que a filosofia é convívio e caminho para a felicidade; o De vulgari eloquentia, escrito em latim para defender a dignidade do vulgar italiano, que já prepara a forma da Comédia. O professor lê e traduz os poemas em aula e organiza em quadros próprios as ideias de cada obra.
A Comédia ocupa o centro do curso: a terza rima, os cem cantos, os quatro níveis de leitura e a leitura comentada do canto I, na tradução de José Xavier Pinheiro, com a selva escura, as três feras e Virgílio. Seguem os nove círculos do Inferno, ordenados pela distinção aristotélica entre incontinência e malícia, uma passagem pelo Purgatório e os céus do Paraíso até o Empíreo, com cantos escolhidos: Francesca e Paolo, Farinata, Pier delle Vigne, os sábios do céu do Sol e a oração de São Bernardo.
A última aula é um ensaio de crítica cultural lido pelo professor: o que dos pecados da Comédia persiste em nós? Medo e angústia, tédio e satisfação, ódio público e espetáculo aparecem como formas atuais dos velhos vícios, e o curso termina com os graus da humildade e da soberba, de São Bernardo, e uma pergunta ao leitor: qual é o seu lugar na Comédia?
O percurso do curso
Florença, guelfos e o exílio (Aula 1)
O curso começa pela Florença de Dante, dividida entre guelfos, partidários do papa, e gibelinos, próximos do imperador, e entre os próprios guelfos: os negros defendiam a supremacia do papa também nas coisas civis; os brancos, entre eles Dante, a teoria das duas espadas, que o professor vê desenhada na arquitetura das cidades toscanas. Enquanto Dante estava em Roma, numa comitiva enviada a Bonifácio VIII, Carlos de Valois tomou a cidade a pedido do papa, e o poeta nunca mais voltou. Florença passa a ser, em sua obra, a cidade ideal perdida.
Entre a escolástica e o Dolce Stil Novo (Aula 1)
Dante aparece como um escolástico atraído por duas correntes: o aristotelismo radical, que lia Aristóteles em chave puramente imanente, e o Dolce Stil Novo. Num quadro comparativo, o professor opõe as duas poéticas em nobreza, amor, beleza e gentileza, lê e traduz Guinizelli e Cavalcanti, percorre as escolas siciliana, provençal e toscana e mostra Dante unindo a forma gentil ao conteúdo escolástico.
As obras antes da Comédia (Aula 2)
No Convívio, a filosofia é convívio de quem busca junto a verdade e caminho para a felicidade terrena e para a beatitude; a donna gentile, figura da filosofia, se transfigura em Beatriz. Vêm depois a cronologia das obras, os quatro tipos de rimas, das canções da donna gentile às petrosas, e cinco traços comuns a elas. O De vulgari eloquentia, escrito em latim, eleva o vulgar italiano a língua ilustre, gradua os estilos até o trágico e define os grandes temas da poesia, Salus, Venus e Virtus. Daí nasce a Comédia, que une tragédia, epopeia e final feliz.
A forma da Comédia e o canto I (Aula 3)
Chamada de divina por Boccaccio, a Comédia combina a terza rima em endecassílabos, cem cantos ordenados pelo número três e quatro níveis de leitura, do literal ao anagógico, e funda um gênero próprio. A leitura do canto I, na tradução de José Xavier Pinheiro, apresenta a selva escura, as três feras (luxúria, soberba e avareza, mas também Florença, a França de Carlos de Valois e Bonifácio VIII) e Virgílio, figura da razão, que conduz Dante pelo caminho difícil.
Os três reinos e cantos escolhidos (Aula 4)
O Inferno é um funil de nove círculos, com penas proporcionais aos pecados e carrascos tirados da mitologia: do vestíbulo dos omissos e do Limbo aos incontinentes, separados dos maliciosos pelo muro de Dite, até os traidores no gelo e Lúcifer. O Purgatório e os nove céus do Paraíso, da Lua ao Primeiro Móvel, levam ao Empíreo. Nos cantos escolhidos, Francesca e Paolo, Farinata e Pier delle Vigne são lidos à luz da divisão aristotélica entre incontinência, malícia e bestialidade; no Paraíso, os sábios do céu do Sol e a oração de São Bernardo, cujos graus da humildade conduzem ao autoconhecimento.
Dante e o nosso tempo (Aula 5)
A última aula é um ensaio de crítica cultural e política, lido pelo professor. Partindo das personagens do Inferno, ele descreve uma era niilista, marcada pelo medo e pela angústia, ligados à ira, e pelo tédio e pela satisfação, ligados à concupiscência, com o ódio público convertido em religião civil. Arendt, Agamben e Ortega y Gasset entram no diálogo, e o curso fecha com os graus da humildade e da soberba e a pergunta sobre o lugar de cada leitor na Comédia.
O que você vai aprender
- Como a política de Florença, a disputa entre guelfos brancos e negros e o exílio marcam a vida e a obra de Dante
- O que eram o Dolce Stil Novo e o aristotelismo radical, e como Dante une a forma gentil ao conteúdo escolástico
- Como nobreza, amor, beleza e gentileza mudam de sentido entre a poética escolástica e a do Dolce Stil Novo, segundo o professor
- A cronologia das obras de Dante e os tipos de rimas, das canções da donna gentile às rimas petrosas
- Por que o De vulgari eloquentia defende em latim a dignidade do vulgar italiano e prepara a Comédia
- Como funcionam a terza rima, a divisão em cem cantos e os quatro níveis de leitura da Comédia
- O que representam a selva escura, as três feras, Virgílio e Beatriz
- Como os círculos do Inferno se ordenam pela distinção aristotélica entre incontinência, malícia e bestialidade
- Como se organizam o Purgatório e os nove céus do Paraíso, e o que dizem cantos como os de Francesca, Farinata e São Bernardo
- Como os graus da humildade e da soberba, de São Bernardo, ajudam a ler a Comédia e o nosso tempo
Aula por aula
-
Apresentação do curso Convite ao curso Dante e a Literatura
Convite a um excurso sobre a poética de Dante no medievo italiano: a Comédia e outras obras, as influências literárias e filosóficas, o contexto poético e histórico e, ao final, Dante em nosso tempo.
O professor apresenta o curso como um passeio pela poética dantesca pensado para enriquecer a vida de estudo e a vida literária de cada aluno.
DanteComédiapoética medievalliteratura italiana Dante Alighieri2 min -
Aula 1 Dante entre guelfos, exílio e Dolce Stil Novo
A Florença dividida entre guelfos e gibelinos, e entre guelfos brancos e negros, leva Dante ao exílio depois da tomada da cidade por Carlos de Valois. Em seguida, o aristotelismo radical e o Dolce Stil Novo, comparado à poética escolástica, com Guinizelli e Cavalcanti, mostram a encruzilhada em que Dante se forma.
Em Siena e em Florença, o duomo de um lado e o palácio público do outro: para o professor, a própria arquitetura desenha a teoria das duas espadas.
guelfos e gibelinosexílio de Danteduas espadasaristotelismo radicalDolce Stil Novo Bonifácio VIIICarlos de ValoisGuido GuinizelliGuido CavalcantiTomás de Aquino2 partes nesta aula
- Parte 1: Dante entre guelfos, exílio e Dolce Stil Novo · 28 min A Florença de Dante, dividida entre guelfos e gibelinos e entre guelfos negros e brancos: sua defesa das duas espadas, a tomada da cidade por Carlos de Valois e o exílio. Em seguida, Dante aparece como escolástico atraído pelo Dolce Stil Novo e pelo aristotelismo radical.
- Parte 2: Aristotelismo radical e o Dolce Stil Novo · 46 min O aristotelismo radical, leitura imanente de Aristóteles, desliga poesia e virtude do transcendente e marca o Dolce Stil Novo, contrastado à poética escolástica em nobreza, amor, beleza e gentileza. Lê Guinizelli e Cavalcanti, percorre as escolas siciliana, provençal e toscana e mostra Dante unindo forma gentil e conteúdo escolástico.
1h14 -
Aula 2 Convívio, rimas e De vulgari eloquentia
No Convívio, a filosofia é convívio e caminho para a felicidade, e a donna gentile, figura da filosofia, se transfigura em Beatriz. Seguem a cronologia das obras, os tipos de rimas e seus traços comuns e o De vulgari eloquentia, que eleva o vulgar italiano a língua ilustre e prepara a forma da Comédia.
Dante defende o italiano escrevendo em latim, como quem absolve um réu na língua dos próprios juízes, gesto que teria preparado o terreno para a Comédia.
Convíviodonna gentile e Beatrizrimas petrosasDe vulgari eloquentiavulgar ilustre ConvívioVita NovaDe vulgari eloquentiaO Banquete, de PlatãoAristóteles3 partes nesta aula
- Parte 1: O Convívio e as rimas de Dante · 32 min No Convívio, a filosofia é convívio, como no Banquete, e o desejo natural de saber conduz à felicidade terrena e à beatitude; a donna gentile, figura da filosofia, transfigura-se em Beatriz. Apresenta a cronologia das obras e os quatro tipos de rimas, das canções da donna gentile às petrosas.
- Parte 2: Os traços das rimas e o De vulgari eloquentia · 27 min Os gêneros da obra de Dante, até a Comédia, chamada assim pelo final feliz. Nas rimas, identifica cinco traços, como signos constantes que ajudam a memória e um 'eu' que representa todo o gênero humano; no De vulgari eloquentia, o vulgar ilustre elevado a língua da sabedoria, como o latim.
- Parte 3: Do vulgar ilustre à forma da Comédia · 27 min As cinco questões do De vulgari eloquentia sobre o vulgar ilustre e a gradação dos estilos, do elegíaco ao trágico. Salus, Vênus e Virtus, ligados às três partes da alma, definem os temas da poesia, e a Comédia une tragédia, epopeia e final feliz, harmonizando os três.
1h25 -
Aula 3 A forma da Comédia e o canto I
A Comédia, que Boccaccio chamou de divina: a terza rima em endecassílabos, os cem cantos regidos pelo número três, os quatro níveis de leitura e a Florença ideal oposta à real. Segue a leitura comentada do canto I, com a selva escura, as três feras e Virgílio, figura da razão.
O paradoxo do canto I: para escapar do inferno, Dante precisa atravessá-lo, escolhendo pela razão o caminho difícil em vez do caminho fácil das feras.
terza rimaestrutura da Comédianíveis de leituraInferno, canto Itrês feras BoccaccioVirgílioEneidaJosé Xavier PinheiroBonifácio VIII2 partes nesta aula
- Parte 1: A Comédia: métrica, estrutura e níveis de leitura · 25 min A Comédia, chamada divina por Boccaccio: a terza rima em endecassílabos, os cem cantos regidos pelo número três e os quatro níveis de leitura, do literal ao anagógico. Defende que a obra funda um gênero próprio e que Dante opõe, à maneira platônica, a Florença ideal à real.
- Parte 2: Canto I: a selva, as três feras e Virgílio · 41 min Leitura comentada do canto I do Inferno, na tradução de Xavier Pinheiro: Virgílio como razão e Beatriz como fé, a selva escura e as três feras. A pantera, o leão e a loba figuram luxúria, soberba e avareza e também Florença, Carlos de Valois e Bonifácio VIII.
1h05 -
Aula 4 Os três reinos e cantos escolhidos
Os nove círculos do Inferno, com penas proporcionais aos pecados e carrascos tirados da mitologia, o Purgatório e os nove céus do Paraíso até o Empíreo. Depois, cantos escolhidos, de Francesca e Farinata à oração de São Bernardo, lidos à luz da ética de Aristóteles e dos graus da humildade.
Mostra como cada pena espelha o pecado que castiga: os gulosos viram comida de Cérbero, e os adivinhos andam com o rosto virado para trás.
círculos do Infernoincontinência e malíciaPurgatóriocéus do Paraísograus da humildade Francesca da RiminiFarinata degli UbertiAristóteles, Ética a NicômacoTomás de AquinoSão Bernardo de Claraval3 partes nesta aula
- Parte 1: Os círculos do Inferno, do vestíbulo a Lúcifer · 51 min Visão geral do Inferno como funil de nove círculos, com penas proporcionais aos pecados e figuras mitológicas como carrascos: do vestíbulo dos omissos e do Limbo dos pagãos virtuosos aos incontinentes, separados dos maliciosos pelo muro de Dite, até os traidores no gelo e Lúcifer devorando Judas, Brutus e Cássio.
- Parte 2: Do Purgatório ao Empíreo: os céus do Paraíso · 25 min O Purgatório, com os sete P na fronte de Dante e o rio Letes, e os nove céus do Paraíso, da Lua ao Primeiro Móvel, cada um ligado a um grau de santidade e habitado por figuras como Justiniano, Tomás de Aquino, Cacciaguida e São Bernardo, até o Empíreo.
- Parte 3: De Francesca à oração de São Bernardo · 36 min Cantos escolhidos: Francesca e Paolo, Farinata, o papa Anastásio e Pier delle Vigne no Inferno, com a classificação aristotélica de incontinência, malícia e bestialidade; no Paraíso, os sábios do céu do Sol e a oração de São Bernardo, cujos graus da humildade conduzem ao autoconhecimento.
1h50 -
Aula 5 Dante e os vícios do nosso tempo
O que dos pecados da Comédia persiste hoje? Num ensaio de crítica cultural e política, lido em aula, o professor descreve uma era niilista de medo e angústia, tédio e satisfação, ódio público e espetáculo, dialoga com Arendt, Agamben e Ortega y Gasset e termina nos graus da humildade e da soberba.
Termina com uma pergunta ao leitor: depois de atravessar os três reinos, qual é o seu lugar na Comédia?
Dante hojeniilismotédio e satisfaçãoódio públicohumildade e soberba Hannah ArendtGiorgio AgambenOrtega y GassetAyn RandDostoiévski40 min
Autores, obras e figuras discutidos
Dante Alighieri · Bonifácio VIII · Carlos de Valois · Guido Guinizelli · Guido Cavalcanti · Tomás de Aquino · Convívio · Vita Nova · De vulgari eloquentia · O Banquete, de Platão · Aristóteles · Boccaccio · Virgílio · Eneida · José Xavier Pinheiro · Francesca da Rimini · Farinata degli Uberti · Aristóteles, Ética a Nicômaco · São Bernardo de Claraval · Hannah Arendt · Giorgio Agamben · Ortega y Gasset · Ayn Rand · Dostoiévski