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Resumo do curso · Filosofia e Formação do Juízo

Técnica, Ciência e Religião: Uma Nova Introdução ao Pensamento Grego

De Tales a Aristóteles, como os gregos uniram técnica, ciência e religião numa só ascensão do conhecimento.

Com Fabio Florence 28 aulas 16 horas de vídeo 28 aulas expositivas de cerca de 30 minutos (de 27 a 42) e uma apresentação curta, somando cerca de 15h30; algumas aulas são leituras comentadas de fragmentos e da Metafísica, com exemplos do Brasil de hoje.

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Visão geral

A modernidade se acostumou a tratar técnica, ciência e religião como compartimentos estanques: a religião relegada ao sentimento, a ciência ao laboratório hiperespecializado, a técnica ao esforço repetitivo. O curso parte do diagnóstico de Max Weber sobre a autonomia das esferas culturais de valor e propõe pô-lo entre parênteses, olhando para os gregos, entre os quais essas três dimensões ainda se comunicavam.

O percurso começa pelas condições que tornaram possível o pensamento grego, da herança de povos mais antigos à pólis autônoma e a uma religião sem casta sacerdotal, e segue alternando filosofia e religião: os cosmólogos de Mileto, o orfismo e os pitagóricos, Heráclito, Parmênides, Anaxágoras e Empédocles. No caminho, a medicina hipocrática mostra a técnica se libertando da magia, e o debate entre natureza e convenção leva dos sofistas a Sócrates.

Com Platão, o professor Fabio Florence examina a dialética, a retórica purificada, os mitos, a ideia de ciência, o demiurgo e a purificação da religião grega. O curso termina em Aristóteles: a subida do conhecimento da sensação à técnica e à ciência, a filosofia primeira, a prova do primeiro motor imóvel e a vida contemplativa. Na imagem de Hegel da coruja de Minerva, que levanta voo ao entardecer, Aristóteles aparece como a síntese em que técnica, ciência e religião se integram, e o curso pergunta o que ela tem a dizer a quem vive, hoje, o fim de outro processo histórico.

O percurso do curso

O problema e as condições do pensamento grego

O ponto de partida é o diagnóstico de Max Weber sobre a autonomia das esferas culturais de valor, que o professor trata como “preconceito positivista” a pôr entre parênteses. Já nos mitos das sociedades primitivas operam objetividade, inteligibilidade e explicabilidade. Técnica e ciência são definidas, e a herança de povos antigos, a pólis autônoma, a religião sem casta sacerdotal e um legalismo pouco rigoroso, que deixava o grego livre para pensar sobre os deuses, aparecem como ocasiões, e não causas, do pensamento grego. Delfos, com o “conhece-te a ti mesmo”, ensina a medida.

Filósofos e mistérios

Os cosmólogos de Mileto rompem com o mito não pelas respostas, às vezes parecidas, mas pela pergunta radical que leva às noções de physis, arché e ápeiron. Alternando filosofia e religião, o curso passa do culto dos mortos ao orfismo, com a alma presa ao corpo e a vida como purificação, e aos pitagóricos, que racionalizam essa herança com a matemática, a música e a relação entre mestre e discípulo; os Versos de Ouro são lidos e comentados. Heráclito fecha o bloco com o logos que harmoniza os opostos.

A medicina hipocrática

Tema pouco visitado nos cursos de filosofia, a medicina hipocrática mostra a técnica se libertando da magia e se apoiando na physis: a doença é um desvio do curso natural, que o médico interpreta com os cinco sentidos e a razão. Conceitos como eidos, dynamis e o par necessidade e acaso passarão a Platão e Aristóteles, assim como a ideia da técnica ensinável, racional e produtora de obra. O ditado “onde há amor pelo homem, há amor pela arte” abre uma reflexão sobre a vocação das profissões.

De Parmênides à crise entre natureza e convenção

Parmênides formula as leis lógicas que todo pensamento segue e o princípio de que do nada absoluto nada se faz; Anaxágoras postula o nous que ordena a mistura original; Empédocles, com as quatro raízes, o amor e a discórdia, aparece como último representante da sabedoria antiga diante da sofística. Segue-se o conflito entre physis e nomos, de Heródoto aos sofistas, até Cálicles e seu direito do mais forte, que Sócrates desmonta no Górgias, e o esforço de Platão, com a Antígona, para reconciliar natureza e lei.

Platão

A dialética platônica é apresentada, com Victor Goldschmidt, como diálogo conduzido por um mestre que vê a ideia do bem: no Laques, Sócrates leva os interlocutores ao erro e à aporia. Platão aparece como um conservador que purifica o saber tradicional: transpõe a retórica no Fedro e a herança órfica nos mitos, e critica Homero e Hesíodo para aproximar a religião da razão. No meio do caminho, o curso contrapõe a ciência de Platão à de Popper e mostra, no demiurgo do Timeu, a analogia entre o artesão e o ordenador do cosmos que dá nome ao curso.

Aristóteles e a síntese

Aristóteles organiza as ciências sob a filosofia primeira, que lhes dá fundamento e coroamento. O início da Metafísica traça a subida da sensação à memória, à experiência, à técnica e à ciência, saber das causas buscado por si mesmo. A prova pelo movimento leva ao primeiro motor imóvel, que move por ser amado; o sábio que o contempla precisa de maturidade, tema que o professor aproxima da teoria das doze camadas da personalidade, de Olavo de Carvalho. Na imagem da coruja de Minerva, Aristóteles é a síntese de um mundo que se encerra, e o curso conclui que também vivemos o entardecer de um processo histórico.

O que você vai aprender

  • O que Weber chamou de autonomia das esferas culturais de valor e por que o curso a trata como “preconceito positivista”
  • A diferença entre técnica e ciência, e entre ocasião e causa, no nascimento do pensamento grego
  • Como o legalismo da religião grega e o oráculo de Delfos deixaram espaço para a reflexão sobre os deuses
  • O que os primeiros filósofos, de Tales a Empédocles, entendiam por physis, arché, logos e nous
  • O peso do orfismo e dos pitagóricos na ideia grega de alma e de purificação
  • Como a medicina hipocrática separou a técnica da magia e legou conceitos a Platão e Aristóteles
  • O debate entre natureza e convenção, dos sofistas a Sócrates e Platão
  • Como funciona a dialética platônica e como Platão purifica a retórica e a religião tradicionais
  • A diferença entre a ciência de Platão e Aristóteles e a ciência moderna descrita por Popper
  • A escada aristotélica da sensação à sabedoria e a prova do primeiro motor imóvel

Aula por aula

  1. Apresentação do curso Técnica, ciência e religião sem compartimentos estanques

    Técnica, ciência e religião, que a modernidade separa em compartimentos estanques, aparecem em Aristóteles como etapas contínuas da ascensão do conhecimento até Deus, e o curso propõe esse modelo grego como resposta à falta de sentido.

    Em poucos minutos, o professor explica por que propõe uma “nova introdução” ao pensamento grego, organizada em torno de três noções que a modernidade separou.

    pensamento gregotécnicaciênciareligiãocompartimentos estanques AristótelesMetafísica
    7 min
  2. Aula 1 Weber, positivismo e as raízes primitivas da ciência

    O diagnóstico de Max Weber sobre a autonomia irreversível das esferas culturais de valor é tratado como “preconceito positivista” a ser relativizado pelo pensamento grego. Nas sociedades primitivas e em seus mitos, como a Teogonia de Hesíodo, já operam as noções de objetividade, inteligibilidade e explicabilidade.

    Pensamento crítico, defende o professor, não é caçar a ideologia por trás das teorias, mas pôr entre parênteses uma perspectiva tida como natural e compará-la com outras.

    preconceito positivistaesferas de valorpensamento críticoobjetividademitologia Max WeberHesíodo
    34 min
  3. Aula 2 As condições sociais e religiosas do pensamento grego

    Técnica é a transformação consciente da natureza; ciência, o saber desinteressado que nasce da reflexão sobre a técnica. Sem reduzir o pensamento grego à economia, são apontadas suas ocasiões favoráveis: herança de civilizações mais antigas, pólis autônoma e religião sem classe sacerdotal, com mitos conflitantes que podiam ser questionados.

    Enquanto a China se chamava “império do centro”, os gregos cultivaram uma postura receptiva, reconhecendo, como no Timeu de Platão, a sabedoria mais antiga dos egípcios.

    técnica e ciênciapreconceito materialistapólisreligião gregainvasão dórica AristótelesPlatão
    31 min
  4. Aula 3 Legalismo religioso grego e o oráculo de Delfos

    O legalismo da religião grega, estudado por Martin Nilsson, foi ocasião, e não causa, do pensamento científico: cumpridos poucos deveres rituais, o grego ficava livre para pensar sobre os deuses, ao contrário do que ocorria no ritualismo hebraico. O oráculo de Delfos aconselhava cidades, fiscalizava cultos e difundia ideais morais.

    O “conhece-te a ti mesmo” de Delfos, explica o professor, significava sobretudo lembrar ao grego que ele era homem, e não deus, e devia evitar a desmedida.

    legalismo religiosoocasião e causaoráculo de Delfoshíbrisreligião grega Martin NilssonHesíodoOs Trabalhos e os DiasHomero
    29 min
  5. Aula 4 Tales, Anaximandro e Anaxímenes: a descoberta da physis

    Os cosmólogos de Mileto, Tales, Anaximandro e Anaxímenes, buscaram a regra das transformações do real. Mesmo com respostas parecidas às dos mitos, rompem com eles ao formular uma pergunta radical guiada pela inteligibilidade, chegando às noções de physis, arché e ápeiron, concebidas como princípio divino.

    Um mito indígena norte-americano também dizia que tudo veio da água; o que, então, separa Tales de um relato mitológico?

    filósofos jôniosphysisarchéápeironmito e razão Tales de MiletoAnaximandroAnaxímenesWerner JaegerSimplício
    33 min
  6. Aula 5 Do culto dos mortos ao orfismo

    A relação dos gregos com o mundo dos mortos passou do culto familiar descrito por Fustel de Coulanges ao reino de sombras homérico e, depois, ao orfismo e aos mistérios, que viam o corpo como prisão da alma e a vida como purificação, ideias que marcariam a filosofia grega.

    No mito órfico, a humanidade nasce das cinzas dos Titãs fulminados por Zeus depois de devorarem Dionísio, e por isso une natureza titânica e centelha divina.

    culto dos mortosorfismomistériosalma e corpometempsicose Fustel de CoulangesHomeroPlatãoEduard Meyer
    30 min
  7. Aula 6 A seita pitagórica e os Versos de Ouro

    A seita pitagórica como racionalização do orfismo: purificação da alma pela matemática e pela música, relação mestre-discípulo contraposta ao ensino pago dos sofistas e ideal do sábio divinizado, que ecoa no rei-filósofo de Platão. Fecha com a leitura comentada dos Versos de Ouro.

    Os Versos de Ouro já propunham um exame de consciência antes de dormir, com três perguntas: em que falhei, o que fiz e o que deixei de fazer.

    pitagorismoorfismomestre e discípuloVersos de Ouropurificação da alma PitágorasVersos de OuroPlatãoSócrates
    42 min
  8. Aula 7 Heráclito e o logos: a harmonia dos opostos

    Heráclito de Éfeso lido além do clichê do “tudo flui”: o logos, razão e discurso que governa o real, harmoniza os opostos, embora a maioria viva descompassada dele. Fragmentos sobre o fogo, a alma, a discórdia e o oráculo de Delfos desenvolvem a tese.

    No fragmento do arco, que em grego quase se confunde com a palavra vida e cuja obra é a morte, a própria linguagem revela a tensão entre opostos.

    Heráclitologosharmonia dos opostospré-socráticosfogo primordial HeráclitoHomeroJosé Cavalcante de SouzaSexto EmpíricoClemente de Alexandria
    34 min
  9. Aula 8 Medicina hipocrática: da magia à técnica

    A medicina hipocrática como a revolução que afastou a arte médica da magia e a fundou na noção de physis. Distingue a experiência grega, que ilustra, da experiência de Galileu, que testa hipóteses, e explica diagnóstico, constituições individuais, uso dos cinco sentidos e prognóstico.

    Segundo o tratado Sobre a Medicina Antiga, a medicina nasceu da culinária, e um mingau oferecido a quem tinha dor de barriga estaria na origem dos remédios.

    medicina hipocráticaphysisdiagnóstico e prognósticomagiaexperiência HipócratesCorpus HippocraticumSobre a Medicina AntigaGalileu Galilei
    33 min
  10. Aula 9 Conceitos hipocráticos e a vocação do médico

    Conceitos hipocráticos retomados por Platão e Aristóteles, como catástase, eidos, dynamis e o par necessidade e acaso, somam-se à ideia da técnica como saber racional, ensinável e produtor de obra. Defende resgatar a vocação filantrópica do médico e das profissões, contra uma lógica só de mercado e de direitos.

    Um ditado hipocrático, “onde há amor pelo homem, há amor pela arte”, serve de ponto de partida para discutir por que médicos e professores se sentem desvalorizados.

    medicina hipocráticadynamisnecessidade e acasovocação profissionalfilantropia AristótelesPlatão
    35 min
  11. Aula 10 Parmênides e o nascimento da lógica

    Parmênides como o primeiro a formular as leis lógicas que todo pensamento já segue, o que relativiza a ideia de mentalidade pré-lógica de Lévy-Bruhl. Com Charles Kahn e o verbo ser grego, extrai-se daí o princípio de que do nada absoluto nada se faz.

    A distinção entre nada absoluto e nada relativo responde a um professor de ciências para quem partículas surgidas “do nada” provam que o universo nasceu do nada.

    Parmênideslógicaverbo sernada absolutomentalidade pré-lógica ParmênidesCharles KahnLucien Lévy-BruhlJean ZafiropuloJohn Stuart Mill
    37 min
  12. Aula 11 Anaxágoras: a inteligência que ordena o cosmos

    Anaxágoras de Clazômenas, mestre de Péricles, reúne a physis jônica, a dynamis dos médicos e o princípio de Parmênides e postula o nous, inteligência que ordena a mistura original. Destacam-se, com Zafiropulo, o infinitamente pequeno e os “pontos qualitativos”, além do ideal de vida contemplativa.

    Antes de os sofistas separarem substantivo e adjetivo, era possível pensar o doce e o quente como substâncias, chave para entender os “pontos qualitativos” de Anaxágoras.

    Anaxágorasnousinfinitamente pequenopontos qualitativosvida contemplativa AnaxágorasJean ZafiropuloPériclesAristótelesOlavo de Carvalho
    30 min
  13. Aula 12 Empédocles: quatro raízes, amor e discórdia

    Empédocles de Agrigento, polímata que se dizia divino, surge como último representante da sabedoria antiga diante da sofística. Discutem-se as quatro raízes, o amor e a discórdia, a crítica do tratado Sobre a Medicina Antiga e a leitura de E. R. Dodds, que o vê como um dos últimos xamãs.

    Numa obra literária alemã, Empédocles se lança no Etna ao saber que Górgias, talvez seu antigo aluno, triunfara com a sofística em Atenas.

    Empédoclesquatro elementosamor e discórdiaxamanismosofística EmpédoclesJean ZafiropuloE. R. DoddsSobre a Medicina AntigaGórgias de Leontinos
    27 min
  14. Aula 13 Nomos e physis: natureza contra convenção

    A oposição entre physis, natureza, e nomos, norma ou convenção, é seguida de Heródoto aos sofistas: a ambiguidade de Protágoras, o conflito exposto por Antifonte e a defesa do direito do mais forte por Cálicles, no Górgias de Platão, e pelos atenienses em Tucídides.

    Gregos que cremavam e calátios que comiam seus mortos, ambos escandalizados com o costume alheio, abrem a discussão sobre o que é natural e o que é convenção.

    nomos e physissofísticarelativismoAntifonteforça e justiça HeródotoProtágorasAntifonteGórgias, de PlatãoTucídides
    34 min
  15. Aula 14 Sócrates contra Cálicles: a infelicidade do tirano

    Sócrates, no Górgias, refuta a tese de Cálicles de que o direito natural é o do mais forte com argumentos “entrépticos”, que envergonham o interlocutor. Mostra que quem vive para satisfazer desejos é escravo, não senhor, tese que a República e O Poder, de Guglielmo Ferrero, aprofundam.

    A pergunta de um espectador de onze anos, “e quem é o mais forte?”, é justamente a que Sócrates dirige a Cálicles para começar a desmontar sua tese.

    Sócratesargumento entrépticoCáliclestiraniafelicidade SócratesCáliclesGórgias, de PlatãoProcloGuglielmo Ferrero
    30 min
  16. Aula 15 Platão, Antígona e Crítias: natureza e lei

    Platão prolonga o projeto socrático ao buscar a harmonia entre physis e nomos, apoiado na Antígona de Sófocles, que invoca leis não escritas acima dos decretos. Discute também Crítias, precursor de Hobbes, para quem a norma deve frear uma natureza má e os deuses seriam invenção útil.

    A reação do público de Os Dez Mandamentos à abertura do mar ilustra o impacto de Antígona e a tese de que a arte transmitia verdades antes da filosofia.

    nomos e physisAntígonaleis não escritasCrítiasarte e verdade PlatãoSófoclesCrítiasThomas HobbesEugene Michael Jones
    31 min
  17. Aula 16 Dialética platônica: do falso saber à aporia

    A dialética platônica, distinta da hegeliana e da mera “arte do diálogo”, é diálogo dirigido por um mestre que vê a ideia do bem. Com Victor Goldschmidt, a Apologia e o Laques, mostra como Sócrates expõe os limites do saber técnico e do falso saber até a aporia.

    Um grande professor do século XX distinguia três tipos de professor, e Sócrates seria o consumado: o que só diz aquilo que o aluno é capaz de aprender.

    dialética platônicaideia do bemaporiasaber técnicoLaques Victor GoldschmidtSócratesPlatãoApologia de SócratesLaques, de Platão
    33 min
  18. Aula 17 Dialética no Laques: Sócrates como tentador

    O Laques continua como exemplo: Nícias define a coragem como saber, e Sócrates, no papel de “tentador” descrito por Goldschmidt, leva-o ao erro para que o sinta. Contrapõe justificação racional e proclamação religiosa e descreve a dialética como subida à ideia do bem e descida aos casos concretos.

    A residência médica serve de exemplo para o saber superior que Nícias busca: aquele que diz quando a técnica deve ou não entrar em ação.

    dialética platônicacoragemanipotéticopedagogia do errosaber prudencial PlatãoSócratesNíciasVictor GoldschmidtPaul Friedländer
    37 min
  19. Aula 18 A transposição platônica da retórica no Fedro

    Platão, lido como conservador e não como revolucionário, purifica o saber tradicional. No Górgias, a retórica dos sofistas aparece como falsa ciência e arte de adulação; no Fedro, o elogio do amor mostra a verdadeira retórica, ancorada na ideia do bem e mais convincente.

    Quem já ouviu um professor dizer que preferia estar no bar entende, pelo avesso, por que Platão exige que a retórica nasça do amor à verdade.

    retóricaFedroGórgiassofistastransposição PlatãoSócratesGórgiasFedro, de PlatãoWerner Jaeger
    30 min
  20. Aula 19 Orfismo, mitos e mistério em Platão

    Platão transpõe a herança órfica, imortalidade e purificação da alma, para o discurso filosófico, usando mitos onde a razão toca o mistério, como o julgamento das almas no Górgias. Compara-se o método ao de Tomás de Aquino, e discutem-se o mal como ignorância e a pena de morte nas Leis.

    Aristóteles criticou Platão por contar mitos onde caberia uma prova racional, mas o senso do mistério recomendado por Sertillanges mostra por que esse recurso continua pertinente.

    orfismomitos platônicosmistérioproblema do malpena de morte PlatãoSertillangesPerceval FrutigerTomás de Aquino
    34 min
  21. Aula 20 A ciência para Platão e para Popper

    A ciência moderna, revisável e refutável segundo Popper, é contrastada com a concepção de Platão: conhecimento permanente de essências que participam de ideias eternas. Para os gregos a experiência ilustrava, não descobria; o cientista moderno é descrito como trabalhador de laboratório, e propõe-se combinar as duas visões.

    O sonho de um jovem que quer ser cientista, entender como as coisas são, estaria mais perto da ciência de Platão que da rotina dos laboratórios.

    concepção de ciênciaKarl Popperideias eternasparadigmaexperiência científica PlatãoKarl PopperGalileu GalileiBiologia, de Campbell
    33 min
  22. Aula 21 O demiurgo: técnica humana e ordem da natureza

    A analogia grega entre o artesão e o ordenador divino da natureza explica o nome do curso. A finalidade e a beleza dos seres naturais, que a arte imita, levam ao demiurgo do Timeu, cujas obras, ao contrário das humanas, têm vida própria graças à alma do mundo.

    Um curso de marcenaria e um criado-mudo feito com esforço ilustram por que nenhum artesão se contenta com um objeto apenas útil: ele também precisa ser belo.

    demiurgofinalidadebelezaalma do mundoTimeu PlatãoAristótelesGiovanni RealeJacques Maritain
    33 min
  23. Aula 22 Platão e a purificação da religião grega

    O politeísmo, com seu deus criador ocioso descrito por Mircea Eliade, é explicado com Eugene Michael Jones como contaminação da ideia de Deus pela imaginação e pelos vícios humanos. Diante da pergunta de Adimanto sobre deuses subornáveis, Platão critica Homero e Hesíodo e aproxima a religião da razão.

    Zeus, que usa poderes divinos para trair Hera, exemplifica como a mitologia teria dado sanção divina a condutas que entre os homens seriam condenadas.

    religião gregapoliteísmocrítica aos poetasRepúblicavícios PlatãoEugene Michael JonesMircea EliadeHomeroHesíodo
    33 min
  24. Aula 23 A filosofia primeira de Aristóteles e as ciências

    Aristóteles, aluno de Platão, busca o permanente no mutável e organiza as ciências como campos especializados, mas interligados. A filosofia primeira, depois chamada metafísica, fornece conceitos como substância, quantidade e qualidade e defende os princípios das demais ciências, como ilustram exemplos da física e da biologia atuais.

    Na resposta aristotélica que a aula propõe, entre a Terra e Marte não há vácuo absoluto, pois onde há distância há quantidade e, portanto, substância.

    filosofia primeirametafísicasubstância e acidenteespecialização científicavácuo AristótelesPlatãoAlexandre de AfrodísiaCampbell (manual de biologia)
    33 min
  25. Aula 24 Da sensação à arte: o início da Metafísica

    O início da Metafísica de Aristóteles traça a ascensão do conhecimento: das sensações, sobretudo a visão, à memória e à audição, que tornam alguns animais ensináveis, e daí à experiência e à arte, ou técnica, fruto do raciocínio sobre a experiência. O médico e o curandeiro ilustram essa diferença.

    Os mestres das corporações de ofício que ergueram as catedrais góticas ilustram o hábito da arte de que fala Aristóteles, em contraste com o arquiteto que depende do AutoCAD.

    Metafísicasensação e memóriaexperiênciaarte e técnicacorporações de ofício AristótelesMetafísicaFilippo BrunelleschiGiovanni Reale
    35 min
  26. Aula 25 A noção de ciência em Aristóteles

    No início da Metafísica, a ciência aparece como o saber das causas buscado por si mesmo: a arte supera a experiência por conhecer o porquê e poder ensinar, e a ciência supera as artes úteis. Daí decorrem críticas ao ensino técnico reduzido a dicas e ao vazio da vida moderna.

    Do francês savant, o estudioso a caminho de se tornar sábio, ao mito de Dédalo, os exemplos mostram por que os gregos admiravam quem conhece as causas.

    noção de ciênciaexperiência e arteconhecimento das causasensino técnicoDédalo AristótelesMetafísicaDédaloPlatão
    33 min
  27. Aula 26 Aristóteles, o movimento e o primeiro motor imóvel

    A prova aristotélica de Deus pelo movimento, depois adotada por Tomás de Aquino, parte dos tipos de movimento: local, alteração, geração e corrupção, crescimento. Como o movimento vital subordina os demais, chega-se ao primeiro motor imóvel, Deus como a própria vida, que move tudo por ser amado e imitado.

    Longe da imagem de pensador frio, Aristóteles aparece unindo razão e sensibilidade: o giro dos astros imitaria o pensamento divino que pensa a si mesmo.

    primeiro motor imóveltipos de movimentomovimento imanenteexistência de DeusTomás de Aquino AristótelesTomás de AquinoHeráclitoNewtonSobre o Céu
    35 min
  28. Aula 27 Sabedoria, maturidade e as doze camadas da personalidade

    Deus, primeiro amado e pensamento que pensa a si mesmo, é imitado pelo sábio que contempla verdades eternas, e a sabedoria, com apoio na teoria das doze camadas da personalidade, de Olavo de Carvalho, aparece como fruto da maturidade. Por fim, Aristóteles surge como ápice da purificação intelectual das crenças religiosas gregas.

    Uma crítica aos livros didáticos que apresentam a filosofia como saber sem utilidade abre a discussão sobre a fase da vida em que a contemplação passa a fazer sentido.

    vida contemplativasabedoriacamadas da personalidadematuridadereligião grega AristótelesOlavo de CarvalhoMetafísica
    33 min
  29. Aula 28 A coruja de Minerva: técnica, ciência e religião

    Com a imagem hegeliana da coruja de Minerva, Aristóteles surge como síntese do pensamento grego no ocaso da pólis, integrando técnica, ciência e religião. A vida contemplativa do filósofo exige virtudes como temperança, fortaleza, justiça e prudência, e a separação moderna dessas três esferas é apontada como um descaminho.

    No fecho do curso, a pergunta sobre o que os gregos têm a ver conosco recebe resposta direta: também vivemos o entardecer de um processo histórico.

    coruja de Minervavirtudes moraisnousvida contemplativamodernidade HegelAristótelesPlatão, A RepúblicaOlavo de Carvalho
    31 min

Autores, obras e figuras discutidos

Aristóteles · Metafísica · Max Weber · Hesíodo · Górgias, de Platão · Martin Nilsson · Os Trabalhos e os Dias · Homero · Tales de Mileto · Anaximandro · Anaxímenes · Werner Jaeger · Simplício · Fustel de Coulanges · Eduard Meyer · Pitágoras · Versos de Ouro · Apologia de Sócrates · Heráclito · José Cavalcante de Souza · Sexto Empírico · Clemente de Alexandria · Hipócrates · Corpus Hippocraticum · Sobre a Medicina Antiga · Galileu Galilei · Parmênides · Charles Kahn · Lucien Lévy-Bruhl · Jean Zafiropulo · John Stuart Mill · Anaxágoras · Péricles · Olavo de Carvalho · Empédocles · E. R. Dodds · Górgias de Leontinos · Heródoto · Protágoras · Antifonte · Tucídides · Cálicles · Proclo · Guglielmo Ferrero · Sófocles · Crítias · Thomas Hobbes · Eugene Michael Jones · Victor Goldschmidt · Laques, de Platão · Nícias · Paul Friedländer · Fedro, de Platão · Sertillanges · Perceval Frutiger · Tomás de Aquino · Karl Popper · Campbell (manual de biologia) · Giovanni Reale · Jacques Maritain · Mircea Eliade · Alexandre de Afrodísia · Filippo Brunelleschi · Dédalo · Newton · Sobre o Céu · Hegel · Platão, A República