Por séculos, muitos filósofos medievais chamados de “platônicos” conheciam praticamente um só diálogo de Platão, o Timeu. Bastou para que assimilassem o modo de Platão ver o mundo e o explorassem por conta própria.
O Que É Filosofar
O que acontece quando alguém filosofa, e o que distingue a filosofia da poesia, da ciência e da religião.
Professor Gabriel De VittoDo que trata o curso
Há muitas introduções à filosofia que apresentam nomes, escolas e teses. Este curso, inspirado em O que é filosofar?, de Josef Pieper, faz outra pergunta: o que acontece com quem filosofa? Quem é o filósofo, o que se passa em seu mundo interior e o que ele tem de próprio a oferecer ao mundo?
Gabriel De Vitto parte do maravilhamento diante do real, que a filosofia partilha com a poesia, e apresenta o filósofo como amigo da sabedoria, e não como seu dono: alguém que busca os primeiros princípios de cada domínio da realidade justamente porque é finito. Daí as perguntas sobre como estudar os filósofos, aprendendo a ver o mundo com os olhos deles, sobre os grandes temas da filosofia e sobre os graus de reflexão, do indiferente ao filósofo.
A segunda parte passa aos conteúdos: as duas atitudes fundamentais do pensamento, o realismo, filosofia do ser, e o idealismo, filosofia do ego; a relação com as ciências, que aprofundam a verdade sensível enquanto a filosofia busca a estrutura e o sentido inteligíveis; e a relação com a religião, suprarracional, que informa a filosofia e é por ela criticada e purificada.
O curso termina na contemplação, entendida não como passividade, mas como conhecimento amoroso e ativo do mundo. Inútil do ponto de vista prático, a filosofia se revela cheia de sentido: conhecendo a ordem das coisas, aprende-se a amá-la, e amando-a, a conhecê-la melhor.
Para quem é
- Quem tem curiosidade filosófica e quer uma introdução que vá além de nomes, datas e escolas
- Estudantes que começam a ler filosofia e querem entender o que é filosofar antes de mergulhar nos sistemas
- Leitores dos clássicos que querem aprender a ler um filósofo vendo o mundo com os olhos dele
- Pessoas de fé interessadas na relação entre filosofia e religião, entre fé e razão
- Quem se pergunta qual é o lugar da filosofia diante das ciências
Veja uma aula antes de decidir
O que você vai aprender
- Distinguir filosofia e poesia: ambas nascem do maravilhamento, mas uma demonstra por argumentos e a outra apresenta pela imaginação
- Entender o filósofo como amigo da sabedoria, que busca os primeiros princípios de cada domínio do real
- Diferenciar sabedoria prática, especulativa e divina e ver na finitude humana o fundamento da busca filosófica
- Perceber a diferença entre estudar os filósofos e filosofar com eles, aprendendo a ver o mundo com os olhos de um autor
- Situar os grandes temas da filosofia no olhar para cima, para dentro e para baixo, e reconhecer as famílias do logos, do cosmos e do homem
- Reconhecer os graus de reflexão: o indiferente, o curioso, o homem culto e o filósofo
- Contrastar realismo e idealismo, filosofias do ser e do ego, e suas concepções do divino
- Compreender a unidade da verdade e a relação entre a verdade sensível das ciências e a verdade inteligível da filosofia
- Entender a religião como suprarracional, e não irracional, e a função crítica da filosofia diante dela
- Descrever a contemplação filosófica como conhecimento amoroso e ativo da realidade
Por que estudar isso hoje
Todo mundo, em algum momento, reflete: diante da morte de alguém querido, ao se perguntar se agiu bem, ao tentar entender por que as coisas são como são. O que costuma faltar é saber o que se está fazendo quando se pensa assim e como dar a essa inclinação natural consistência e profundidade.
Num tempo que mede tudo pela utilidade, que confunde filosofia com autoajuda e que tende a esperar das ciências a resposta para todas as perguntas, entender o que é filosofar ajuda a distinguir os planos do conhecimento e a reconhecer o valor de um saber que não serve para nada de imediato, mas ensina a olhar a realidade com atenção e a amá-la.
As 9 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
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Apresentação do curso O ato de filosofar
O ato de filosofar, mais do que escolas e sistemas, é o foco deste curso inspirado em 'O que é filosofar?', de Josef Pieper, que distingue a filosofia da poesia, da ciência e da religião.
Quem é o filósofo, o que acontece dentro dele enquanto filosofa e o que ele tem de próprio para oferecer ao mundo são as perguntas que guiam o curso.
ato de filosofarintrodução à filosofiaJosef Pieper3 min -
Aula 1 Filosofia e poesia: o mesmo maravilhamento
Filosofia e poesia nascem do mesmo maravilhamento diante do real: a poesia apresenta a realidade pela imaginação, visando a beleza; a filosofia a demonstra por argumentos, visando a verdade. Podem existir separadas, mas se encontram na contemplação, já que a verdade é bela e a beleza é verdadeira.
Uma tese que surpreende: nos Vedanta e nos Salmos há poesia e sabedoria de altíssimo nível, mas não filosofia, pois falta o modo argumentativo que a define.
maravilhamentofilosofia e poesiaverdade e belezaargumentaçãocontemplação33 min -
Aula 2 Sabedoria, primeiros princípios e finitude humana
O filósofo não é o sábio, mas o amigo da sabedoria, entendida como conhecimento dos primeiros princípios de cada domínio do real. Sabedoria prática, especulativa e divina se distinguem, e a finitude humana, incapaz de abarcar tudo num olhar, aparece como o próprio fundamento da busca filosófica.
Comparando um cachorro, uma lagartixa e uma samambaia, a aula mostra que tudo o que existe pode ser objeto da filosofia, porque tudo obedece a primeiros princípios.
amor à sabedoriaprimeiros princípiosfinitude humanatipos de sabedoria31 min -
Aula 3 Estudar os filósofos ou filosofar com eles
Compreender um filósofo é aprender a ver a realidade com os olhos dele, algo que vai além de reconstruir argumentos e problemas, tarefa do profissional da filosofia. Cada grande obra plasma um mundo pessoal, e habitá-lo é o caminho para, um dia, ver com os próprios olhos.
Da dificuldade cotidiana resolvida como Kant resolveria à 'morte de Deus' de Nietzsche lida como morte da metafísica, os exemplos mostram como habitar o pensamento de um autor.
tradição filosóficafilósofo profissionalobra filosóficavisão pessoal33 min -
Aula 4 Três olhares e três famílias da filosofia
Por ser um animal analógico, o homem filosofa em três direções: para cima, a metafísica; para dentro, a antropologia e a ética; para baixo, a filosofia da natureza. Há também três famílias filosóficas, a do logos, a do cosmos e a do homem, centradas na verdade, na beleza e no bem.
Por que Platão, Agostinho, Anselmo, Descartes e Husserl formariam uma mesma família espiritual, apesar de doutrinas tão diferentes, é uma das perguntas que a aula enfrenta.
analogiametafísicafilosofia da naturezafamílias filosóficastranscendentais34 min -
Aula 5 Graus de reflexão: do indiferente ao filósofo
Todo ser humano reflete e, nesse sentido, filosofa, mas em graus distintos, organizados numa tipologia: o indiferente, preso à utilidade; o curioso, que busca orientação de vida; o homem culto, que vê sentido na cultura; e o filósofo, que busca os primeiros princípios, distinto também do homem religioso.
Diante de um romance sobre a melancolia, o homem culto admira a obra, enquanto o filósofo pergunta pela essência da própria melancolia: um exemplo que esclarece a tipologia.
reflexãotipologiahomem cultoautoajudahomem religioso30 min -
Aula 6 Método filosófico: realismo e idealismo
Por trás dos métodos filosóficos há duas atitudes fundamentais: o realismo, filosofia do ser, que parte da realidade externa e sobe gradualmente até Deus, e o idealismo, filosofia do ego, que faz do eu o primeiro princípio. As duas levam a concepções opostas do divino, da teologia natural ao panteísmo de Hegel.
As filosofias do ego fizeram tanto sucesso na modernidade, sugere a aula, porque o poder técnico das ciências naturais fez o homem parecer absoluto.
método filosóficorealismoidealismoteologia naturalpanteísmo39 min -
Aula 7 Filosofia e ciência: verdade sensível e inteligível
Como física, história e psicologia se separaram da filosofia, e por que a verdade é una: ciência e filosofia falam da mesma realidade sob aspectos diversos. As ciências aprofundam a verdade sensível; a filosofia capta a estrutura e o sentido inteligíveis e fixa os limites do método científico.
Por que um zoólogo que descreve o olho do lobo precisa sair da biologia para dizer que ele serve para ver?
filosofia e ciênciaunidade da verdadefilosofia naturalverdade inteligívelrelativismo33 min -
Aula 8 Filosofia e religião: crítica e fecundação mútua
A religião, suprarracional e não irracional, está acima da filosofia e a informa: a ideia de Deus de uma cultura molda até sua concepção dos primeiros princípios. A filosofia critica e purifica formas falsas de religiosidade, como na revalorização do corpo por Alberto Magno e Tomás de Aquino.
Do Templo da Razão revolucionário ao 'ateísmo good vibes' contemporâneo, a aula argumenta que até a recusa de Deus carrega alguma ideia do divino.
fé e razãoideia de Deussuprarracionalidadecrítica da religiãomística medieval28 min -
Aula 9 A contemplação como conhecimento amoroso do mundo
O olhar filosófico une atenção delicada aos detalhes e busca dos padrões que ordenam o real, ligando-se a ele pela inteligência, pela valoração e pela vontade. Inútil do ponto de vista prático, a filosofia culmina na contemplação, entendida como conhecimento amoroso e ativo do mundo, não como passividade.
O Van Gogh que, conta-se, distinguia mais de cem tons de branco e a subcriação de Tolkien ajudam a responder à pergunta que fecha o curso: para que, afinal, filosofar?
contemplaçãoordem do realconhecimento amorososubcriaçãomaravilhamento30 min
Quanto você já sabe sobre O Que É Filosofar?
5 perguntas rápidas, sorteadas entre 30. Você vê a resposta na hora, com uma explicação curta. Dá para jogar quantas rodadas quiser.
Curiosidades sobre o tema
A poesia não tem necessidade de argumentar. Quem argumenta sobre um poema é o crítico literário, nunca o próprio poeta — e essa pequena diferença separa dois modos inteiros de habitar o mundo.
O curso se inspira em *O que é filosofar?*, livro já clássico do filósofo alemão Josef Pieper, e segue sua pergunta de fundo: em vez de catalogar escolas e sistemas, olhar para o próprio ato de filosofar e para o que acontece com quem filosofa.
Parmênides, pensador pré-socrático da passagem do século VI para o V a.C., expôs sua filosofia num poema, sem índice, tópicos ou argumentação cerrada de tratado. É uma zona de fronteira, em que ainda não se distingue com clareza se aquilo é poesia ou filosofia.
Quando alguém apresenta um amigo dizendo “fulano é assim e assado”, você passa a ver fulano pelos olhos do amigo. Esse é o mesmo movimento que ocorre quando começamos a estudar um filósofo — só que com séculos de profundidade.
Ao longo de toda a história da filosofia, muitos filósofos resistiram a se chamar “filósofos”. Achavam-se indignos até de serem ditos “amigos da sabedoria”, tão grande lhes parecia a distância entre eles e a verdade.
A Revolução Francesa, em 1793, ergueu em Notre-Dame um Templo da Razão. A tentativa de fundar uma religião racional fracassou em meses, mas o gesto revela o quanto até os mais iluministas dependem de cultos.
Em *The Hollow Men* (Os homens ocos), T. S. Eliot explora as causas e as consequências do vazio existencial do homem contemporâneo sem argumentar: o poema apresenta, com imagens vívidas, aquilo que um tratado tentaria demonstrar.
Matemáticos costumam falar de uma equação “bonita”. Não é metáfora frouxa: a verdade, quando bem dita, tem uma forma que se aproxima muito da beleza.
Um Deus que conhece tudo de uma só vez não se maravilha. Nosso maravilhamento nasce, paradoxalmente, da nossa ignorância — e é dele que nasce também a filosofia.
Durante séculos, a física foi uma disciplina da filosofia, a chamada filosofia natural, especulativa e não matematizada. Foi com Galileu, que uniu a experimentação à linguagem da matemática, que ela se emancipou da reflexão filosófica.
Aristóteles abre sua Metafísica com uma frase que continua intacta depois de vinte e três séculos: “Todos os homens, por natureza, desejam saber.” Não acrescentou condicional.
Você sai de uma prova difícil e corre para perguntar aos colegas como foi para eles. Esse pequeno gesto é o início, em miniatura, do conhecimento do humano: chegamos a nós mesmos via os outros.
Os cátaros, hereges medievais, consideravam o corpo e toda a matéria impuros, a ponto de pregar o fim do matrimônio. Para o professor, foi a entrada da filosofia natural de Aristóteles que levou Alberto Magno e Tomás de Aquino a revalorizar filosoficamente o corpo e os sentidos, corrigindo também certas formas de mística.
Quase ninguém percebe, mas pensamos quase tudo pela metade. O que nos consola é que essa metade, quando bem alcançada, é verdadeira.
Tolkien chamava de “subcriação” o impulso humano de prolongar, em obras próprias, a ordem que encontra no mundo. O curso usa a ideia para falar da arquitetura, da poesia e da própria obra do filósofo, que, amando o mundo, gera dentro de si um mundo pessoal.
Quando olhamos para um cachorro e dizemos “está com uma cara estranha”, estamos raciocinando por analogia sem perceber: emprestamos ao animal uma estrutura que é, propriamente, nossa.
Nenhuma obra filosófica é absolutamente falsa, sustenta o professor: por mais surreal que pareça, toda filosofia parte de algum aspecto da realidade, e tudo o que existe tem alguma verdade, ainda que, no conjunto, ela esteja a serviço de um erro.
Conta-se que Van Gogh, pouco antes de morrer, escreveu que distinguia mais de cem tonalidades de branco. A anedota, lembrada no curso, ilustra o olhar treinado para os detalhes, que o filósofo também exercita, só que com camadas da realidade no lugar de pigmentos.
Rudolf Otto, em *O Sagrado* (1917), livro citado no curso como *O Santo*, tentou explicar o que há na experiência religiosa que escapa à razão. Cunhou para isso a palavra “numinoso”, até hoje central na filosofia da religião.
Gabriel De Vitto
Gabriel De Vitto é professor de filosofia no ensino superior, mestre pela PUC-SP e doutorando na Universidade de Navarra.
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