A educação espartana, a agogê, atribui-se ao legislador semimítico Licurgo. Os meninos eram retirados das famílias aos sete anos e formados até por volta dos vinte para serem soldados — passavam fome, eram incentivados a roubar, mas castigados se fossem pegos.
O Imaginário da Criança Moderna
Educar para quê? Como a rotina da casa, as telas, os filmes, os jogos e os livros formam o imaginário da criança.
Professor Marcelo GonzagaDo que trata o curso
Educar vem de conduzir, e ninguém conduz sem destino. O curso parte de uma pergunta que muitos pais evitam: educar para quê? Quem quer para o filho "uma educação de qualidade" sem saber aonde ela deve levar não fica sem resposta, apenas deixa que outros respondam. Depois de percorrer Esparta, Atenas, as artes liberais e a escola moderna, nascida para uniformizar e formar bons funcionários, Marcelo Gonzaga mostra o que cabe à família e ninguém mais pode fazer: preservar a individualidade de cada criança.
O percurso começa pelo diagnóstico, e o professor avisa que vai expor o problema em toda a sua crueza antes de oferecer remédios. Para a criança, que ainda não abstrai nem projeta o futuro, a rotina da casa é a medida do normal. Pais exaustos que tratam o filho como estorvo, escolas escolhidas por status e conveniência e uma casa que lida com uma "criança genérica", que não existe, ensinam mais do que parece.
Em seguida vem o imaginário, a "janela do possível" que livros, desenhos, filmes e jogos podem ampliar ou estreitar. O curso examina as piadas adultas de Shrek, as duas versões de Mulan, a Pequena Sereia original, a "zona cinzenta" de Malévola, o jogo como espelho da criança ou fuga da realidade e os livros pensados para uma criança concreta, como o Roverandom que Tolkien inventou para consolar o filho. Nenhuma dessas mídias é demonizada: todas são pesadas pelo que acrescentam e pelo que tiram.
A última parte é propositiva: brincar mais e corrigir menos, jogar junto sob as mesmas regras, entender o pedido de leitura como pedido de atenção, cantar em família, usar temperamentos e outras tipologias só como apoio, anotar o que se observa e ter prioridades claras. O curso termina lembrando que a meta é o melhor resultado possível, e não o perfeito, e que errar, retomar e seguir em frente faz parte da educação.
Para quem é
- Pais e mães que querem saber para onde estão conduzindo os filhos
- Pais que trabalham fora e querem aproveitar melhor as poucas horas com as crianças
- Quem tem dúvidas sobre desenhos, filmes, videogames e livros para crianças
- Professores e educadores que pensam a relação entre escola e família
- Avós, tios e outros cuidadores que participam da criação de uma criança
Veja uma aula antes de decidir
O que você vai aprender
- Por que educar é conduzir a um fim, e o que acontece quando os pais não sabem qual é
- Por que a escola, feita para uniformizar, não substitui a família, a quem cabe preservar a individualidade da criança
- A diferença entre valorizar a infância e valorizar a infantilidade
- Por que a rotina da casa é, para a criança, a medida do que é normal, e os pais precisam ser modelo do que pedem
- Como livros, filmes, desenhos e jogos ampliam a "janela do possível" como experiências virtuais, sem substituir a vivência
- Como avaliar desenhos e filmes infantis além da classificação indicativa: piadas adultas, finais sempre felizes e a "zona cinzenta"
- O que os jogos revelam sobre a criança e quando deixam de ser descanso para virar fuga
- Como escolher livros para a criança concreta, sem moralismo, e por que vale ler em voz alta e repetir as histórias
- Como brincar, jogar e cantar com os filhos, com mais disponibilidade para a brincadeira e menos vontade de corrigi-la
- Como usar temperamentos e outras tipologias só como acessório e buscar o melhor resultado possível, não o perfeito
Por que estudar isso hoje
Fala-se muito em educação de qualidade, mas raramente se pergunta para que ela serve. Entre uma escola que, por natureza, uniformiza e telas que ocupam o tempo livre quando os pais chegam cansados, a formação do imaginário da criança ficou dispersa e, muitas vezes, entregue a quem produz o entretenimento. O que ela vê, joga e ouve todos os dias vai definindo o que ela considera real, possível e normal.
O curso devolve aos pais o que não pode ser terceirizado nem comprado: saber aonde querem levar os filhos, conhecer a criança concreta que têm diante de si e usar livros, filmes, jogos e brincadeiras como ferramentas, e não como substitutos da vida em família. E faz isso sem idealizar: propõe objetivos que se possam sustentar, aceita os limites de cada casa e troca a culpa e o moralismo por atenção e constância.
As 9 aulas do curso
Uma descrição e um breve comentário de cada aula, a partir do que é dito nelas.
-
Apresentação do curso Educação dos filhos: o que não se terceiriza
Apresentação do curso, que reúne orientações e críticas sobre o que se entende por boa educação e aonde ela quer chegar, e defende que parte do trabalho educativo cabe aos pais e não pode ser terceirizada nem comprada.
O professor conta que ele próprio teria sido mais bem aproveitado se seus pais tivessem recebido essas orientações e convida a adaptar o curso a cada criança.
educação familiarresponsabilidade dos paisinfância3 min -
Aula 1 Educar para quê? Estado, família e escola moderna
Educar é conduzir a um fim, e quem não o define acaba formando o filho para ser um bom funcionário. De Esparta e Atenas às artes liberais e à escola moderna, utilitária e uniformizadora, mostra por que cabe à família preservar a individualidade da criança.
O que os adultos com síndrome de Peter Pan revelam sobre uma cultura que passou a valorizar a infantilidade, e não a infância?
finalidade da educaçãoEsparta e Atenasescola modernaEstado e famíliainfância e infantilidade30 min -
Aula 2 A rotina da família como modelo para a criança
Para a criança, que ainda não abstrai nem projeta o futuro, a rotina da casa é a medida do normal. Os pais precisam ser modelo do que pedem, da leitura ao modo de lidar com conflitos, e rever a rotina de cansaço que faz do filho um estorvo.
Por que dizer ao filho 'faça isso para não ser como eu' costuma dar errado, e o que o pai de A Vida é Bela ensina a pais exaustos?
rotina familiarexemplo dos paisleitura em casadivórciovocação paterna23 min -
Aula 3 A criança entre a escola e a casa
A escola costuma ser escolhida por status e conveniência, e é lá que a criança vive sua primeira experiência social, sob outra autoridade e numa espécie de selva. Em casa, pais cansados não a ajudam a digerir o dia e a tratam como uma 'criança genérica', que não existe.
Ensina a ler o 'não sei' da criança à pergunta 'o que você aprendeu hoje?' como sinal de que algo na conversa com os pais precisa mudar.
escolha da escolaautoridadeideologiadiálogo em famíliacriança genérica26 min -
Aula 4 A janela do possível: mídias, esporte e lazer
Formar o imaginário é ampliar a 'janela do possível'. Livros, televisão e jogos são experiências virtuais úteis, mas não substituem a vivência nem a vida em família. Sem demonizar a tecnologia, critica a 'babá eletrônica', o gosto pela leitura sem finalidade e a idealização do esporte.
Usa a indignação com desvios de milhões, quantias que quase ninguém consegue imaginar, para mostrar por que a vivência, mesmo imaginativa, precisa ampliar a noção de real.
janela do possívelexperiência virtualtecnologiababá eletrônicaesporte23 min -
Aula 5 O que desenhos e filmes infantis ensinam
Desenhos e filmes infantis conduzem o imaginário, com pautas e piadas adultas que a criança absorve sem entender. Compara as duas versões de Mulan, contrasta os finais felizes da Disney com o desfecho triste da Pequena Sereia original e aponta a 'zona cinzenta' que Malévola apresenta cedo demais ao pré-adolescente.
Mostra, a partir de uma cena de Shrek, como a risada dos pais ensina à criança um truque para chamar atenção que depois será repreendido.
desenhos e filmes infantispiadas para adultosfinais felizeszona cinzentaclassificação indicativa29 min -
Aula 6 Jogos eletrônicos entre autoconhecimento e escapismo
Filmes e livros mostram o outro; já os jogos, do xadrez ao videogame, fazem a criança agir e conhecer a si mesma, revelando ao educador, como o anel de Giges, o que ela faria sem constrangimento social. Os riscos são o escapismo e a ilusão de transferir habilidades automaticamente.
Parte da ideia de que é muito mais difícil viver do que jogar para distinguir o jogo como descanso ou preparação do jogo como fuga da realidade.
jogos eletrônicosfaz de contaautoconhecimentoescapismoxadrez20 min -
Aula 7 Livros infantis e a criança concreta
Livros infantis não são panaceia: valem quando pensados para a criança concreta, não para a 'criança genérica', como fez Tolkien ao escrever Roverandom para o filho. Defende liberdade de escolha sem moralismo, leitura em voz alta, repetição e a 'rigidez' do livro, que ensina a aceitar o real.
Conta que C. S. Lewis negou ter adaptado para crianças uma cena de refeição em Nárnia: descreveu os quitutes porque era o que ele próprio queria ver.
livros infantiscriança genéricaleitura em voz altamoralismoformação do gosto23 min -
Aula 8 Brincar, ler e cantar com os filhos
Brincar é coisa séria para a criança. Os pais devem estar mais disponíveis para brincar e menos dispostos a corrigir, jogar junto sob as mesmas regras, tratar o pedido de leitura como pedido de atenção, cantar em família e cuidar do gosto que transmitem, sem cair em regras rígidas.
Explica por que corrigir a brincadeira em que a criança reencena uma professora ríspida pode atrapalhar, em vez de ajudar, o modo como ela digere a experiência.
brincadeirajogos em famílialeitura e atençãoeducação do gostomúsica em família23 min -
Aula 9 Tipologias, objetivos e o melhor resultado possível
Tipologias como os quatro temperamentos de Hipócrates servem só como acessório, partindo da criança concreta, e não o contrário. Recomenda anotar observações, ter prioridades claras e objetivos que se possam sustentar, e buscar o melhor resultado possível, não o absoluto, aceitando com flexibilidade os imprevistos e os próprios limites.
Diante de quem aponta a santidade como meta da educação, pergunta se os pais estão dispostos a ver um filho mártir: todo objetivo precisa ser sustentado até o fim.
criança concretatemperamentostipologiasobjetivos da educaçãoflexibilidade27 min
Quanto você já sabe sobre O Imaginário da Criança Moderna?
5 perguntas rápidas, sorteadas entre 30. Você vê a resposta na hora, com uma explicação curta. Dá para jogar quantas rodadas quiser.
Curiosidades sobre o tema
A palavra educação vem do latim e significa, simplesmente, conduzir. O que isso revela é desconcertante: ninguém conduz por conduzir. Toda educação supõe um destino — e quem não o nomeia, ainda assim está conduzindo a algum lugar.
Em Alice no País das Maravilhas, Alice pergunta ao Gato de Cheshire que caminho deve tomar, e ele devolve: depende de aonde você quer chegar. Quando ela responde que tanto faz o lugar, a sentença é fulminante: então tanto faz o caminho.
O termo grego kalokagathia — ideal ateniense de formação — une duas palavras: kalós (belo) e agathós (bom). Educar um cidadão era, simultaneamente, formá-lo no físico, no estético e na virtude moral.
Dois irmãos criados pelos mesmos pais, sob as mesmas regras, não recebem a mesma educação. Curiosamente, muitos pais se orgulham de “ter dado a mesma educação a todos os filhos” — uma frase que, examinada de perto, não significa rigorosamente nada.
O instituto do divórcio não é moderno. Já no direito romano ele existia, e o próprio dote tinha como uma de suas funções permitir à mulher subsistir caso o casamento se desfizesse. O que mudou nos últimos séculos foi o uso, não a invenção.
Ao criticar o modelo industrial, o professor recorre à crítica marxista e à figura do homo laborans, o homem que se faz enquanto trabalha. Para ele, a escola moderna nasceu para formar exatamente esse tipo de homem: eficiente, produtivo e uniforme.
Quando ouvimos dizer que alguém desviou um milhão, cem milhões ou um bilhão, a indignação tende a ser igual nos três casos — porque nenhuma dessas quantias cabe na nossa imaginação concreta. Já cinco mil reais desviados de perto provocam revolta visceral. É um defeito do nosso imaginário, não da nossa ética.
Os livros com partes móveis são bem mais antigos que os livros infantis que usam o recurso. Já na Idade Média havia livros com discos giratórios de papel, usados em astronomia; no século XVI, abas sobrepostas mostravam as camadas do corpo humano em obras de anatomia. Só a partir do século XVIII o recurso passou a ser explorado em livros para crianças.
Para o curso, os adultos com síndrome de Peter Pan, que não querem crescer nem assumir responsabilidades, são sintoma de uma cultura que passou a valorizar não a infância, mas a infantilidade. E esse modelo, aos poucos, vai sendo transmitido às próprias crianças.
C. S. Lewis distinguiu três modos de escrever para crianças. Dois funcionam: escrever para uma criança específica, como fez Tolkien, ou escrever o que se quer escrever numa linguagem que a criança acompanha. O terceiro, o do adulto que decide do alto o que “a criança” precisa ouvir, costuma produzir histórias enfadonhas, que as próprias crianças rejeitam.
O livro Roverandom, de J. R. R. Tolkien, nasceu de uma circunstância modesta: numa temporada na praia, o filho do escritor perdeu o cachorrinho de brinquedo de que gostava. Para consolá-lo, o pai inventou as aventuras do cachorro, que vão parar até na Lua — e dali saiu a história inteira.
A versão original de A Pequena Sereia, de Andersen, não termina em casamento feliz. A sereia, que sente dores lancinantes a cada passo nas pernas que ganhou em troca da voz, vê o príncipe se casar com outra moça e, ao amanhecer, lança-se ao mar e se desfaz em espuma. Esse era o tipo de história que se contava às crianças.
Nas Confissões, Santo Agostinho registra o espanto de ver Santo Ambrósio ler em silêncio, correndo os olhos pela página sem mover os lábios. Por muitos séculos, ler foi sobretudo ler em voz alta, muitas vezes para outros ouvirem — e é esse costume que o curso sugere recuperar em família.
Quase ninguém percebe que, ao misturar piadas para adultos em desenhos para crianças, o cinema ensina algo importante — só que não o pretendido. A criança aprende que certos gestos provocam riso nos adultos, e os repetirá depois, em geral nos piores momentos possíveis.
O xadrez tem sua origem provável na Índia, num jogo chamado Chaturanga — “os quatro membros do exército”. As peças representavam as quatro divisões do antigo exército indiano — infantaria, cavalaria, elefantes e carros de guerra —, além do rei e de seu conselheiro.
Platão, na República, propõe a parábola do anel de Giges — um anel que torna invisível quem o usa. A pergunta que sustenta o experimento mental: se ninguém te visse, o que você faria? Os jogos eletrônicos, segundo o curso, oferecem hoje algo bastante próximo desse anel.
No pequeno tratado sobre a educação dos filhos atribuído a Plutarco, escrito há quase dois mil anos, o autor já se indignava com pais que gastavam fortunas em ninharias mas economizavam na educação dos filhos. O problema não mudou de natureza — só de moeda.
Ler muito não torna ninguém mais inteligente; em muitos casos, diz o professor, torna mais burro. Ele lembra uma tirada, de autor que já não recorda, numa discussão entre dois intelectuais: “para ficar burro que nem você, só lendo a mesma quantidade de livros que você leu”.
Aristóteles tem uma frase curta na Ética a Nicômaco: uma andorinha só não faz verão. Vale tanto para virtudes quanto para vícios. Um erro isolado na educação dos filhos não compromete tudo — assim como um acerto isolado não basta. O que conta é o caminho.
Marcelo Gonzaga
Marcelo Gonzaga dá aulas há mais de 20 anos e trabalha como tutor: elabora currículos personalizados e orienta famílias.
Cursos relacionados
Temas vizinhos, próximos passos da trilha e cursos da mesma área.
Educação Personalizada Evandro Faustino 20 aulas
O Fim da Educação Fausto Zamboni 15 aulas
Harmonia Familiar Felipe Antunes 35 aulas
Filosofia da Educação Fabio Florence 15 aulas
Homeschooling: Aspectos Jurídicos para Famílias Educadoras Isabelle Monteiro 4 aulas
Como Estudar História Raphael Tonon 8 aulas
Literatura Brasileira e de Língua Portuguesa Fabio Ulanin 27 aulas
Músicas, Contos e Lendas de Natal Evandro Faustino 8 aulas Comece agora
Compre só este curso ou escolha o Acesso Completo e estude todos os 37 cursos da Tutora.
O Imaginário da Criança Moderna
R$ 199,40
à vista ou parcelado no cartão
- 9 aulas em vídeo (3h47)
- 7 dias de garantia
- Compra segura pela Hotmart
Na Hotmart, este curso aparece como “Como Educar as Crianças: A importância da Formação do Imaginário”.
Os 37 cursos da Tutora
R$ 598,80
por ano, em até 12x no cartão
- Acesso a todos os 37 cursos do catálogo
- Plano anual: renova até você cancelar
- 7 dias de garantia
- Compra segura pela Hotmart
Na Hotmart, aparece como “Cursos da Tutora”.