Como Estudar História
O que é a história, como ela é escrita e como estudá-la com método, sem cair em anacronismos e narrativas prontas.
Visão geral
Não dá para estudar história sem saber antes o que ela é. O curso começa por aí: Raphael Tonon parte de Heródoto, que reuniu numa obra a memória do passado para formar os jovens gregos, e mostra por que a história é ciência, mas não exata. Ela reconstrói o passado por aproximação e muda quando surge um documento novo, como o Manuscrito de Chinon, que alterou o que se dizia sobre o fim dos templários. Contra a visão positivista, que reduz a história a grandes personagens e grandes feitos, o curso adota a definição de Marc Bloch e Jacques Le Goff: o estudo do homem e de sua ação no tempo.
Daí o percurso passa por Tucídides e o primeiro método crítico das fontes, pela cronologia como primeiro passo de qualquer estudo e pelas correntes historiográficas, do positivismo à Escola dos Annales e à Nova História. O professor distingue o tempo cronológico, de divisões arbitrárias, do tempo histórico, das permanências, e aponta o anacronismo como o grande inimigo de quem lê o passado. Com Peter Burke e Carlo Ginzburg, discute o que faz um bom historiador e para que serve a história, e mostra como narrativas recortadas, dos mitos escolares aos best-sellers, manipulam a memória.
A parte final é prática. Depois de tratar da militância no ensino, e de aconselhar o estudo paralelo em vez do confronto, o curso propõe um método (ler todos os dias, interpretar, cruzar informações e meditar sobre o que se leu, com leituras simultâneas) e um roteiro de 21 passos: não se fechar em poucos autores, cultivar a honestidade intelectual, montar uma lista de clássicos de Heródoto a Frei Vicente do Salvador, fixar metas pequenas e constantes, resumir à mão, aprender idiomas, conferir autores e bibliografias e confrontar visões divergentes. Não há atalho, insiste o professor: estudar é um processo lento, e o objetivo não é acumular dados, mas tornar-se melhor.
O percurso do curso
O que é a história (aulas 1 a 3)
O curso começa pela pergunta de base. Heródoto, o pai da história, reuniu numa obra o que a tradição oral guardava do passado, com propósito formativo: bons e maus exemplos serviam para educar os jovens gregos no senso de honra e de pertença à pólis. A história, porém, é ciência em movimento. Reconstrói o passado por aproximação, e um documento novo pode mudar o consenso, como o Manuscrito de Chinon mudou o que se dizia sobre o papa Clemente V e o fim dos templários. Contra a visão positivista, herdeira de Comte, que reduz a história a grandes personagens e grandes feitos, o curso adota a definição de Marc Bloch e Jacques Le Goff: a história estuda o homem e sua ação no tempo.
A história só se separa da filosofia no século XIX e não dita o futuro, adverte Bloch: a humanidade repetiu na Segunda Guerra os erros da Primeira. Tucídides cria o primeiro método crítico, ao confrontar depoimentos e desconfiar da testemunha única. O primeiro passo prático é a cronologia; situar Kant no século XVIII ou Mendel no seu contexto facilita até o estudo de filosofia e de ciências. O professor compara a leitura sociológica e materialista, dominante no Brasil, com a Nova História, que incorpora antropologia, psicologia e outras ciências.
A terceira aula distingue o tempo cronológico, de divisões arbitrárias feitas por quem veio depois, do tempo histórico, que acompanha processos e permanências. As Congadas, ainda vivas no interior do país, mostram uma herança medieval num Brasil que não teve Idade Média. O anacronismo, julgar o passado com os critérios do presente, é o grande inimigo.
O historiador e a memória (aulas 4 e 5)
Não há receita em cinco passos. Com Santo Agostinho, o professor define a verdadeira educação como um processo lento e doloroso de purificação moral, que pede disciplina, metas e autoconhecimento. Georges Duby lembra que a história, no mínimo, diverte; o professor acrescenta que ela cultiva o espírito, como a música e a literatura. Peter Burke pede ao bom historiador imaginação, perspicácia e sensibilidade para as questões relevantes, e a imaginação se alimenta de literatura, de Dante a Machado de Assis. Para avaliar uma obra, é preciso conhecer o autor e preferir livros que citam documentos na íntegra.
As funções da história, segundo Burke, são preencher lacunas, pesar as evidências com neutralidade e atentar aos detalhes: as exumações de D. Pedro I e da imperatriz Leopoldina desmentiram versões repetidas por muito tempo. Narrativas recortadas manipulam a memória, como o mito de que o papa Gregório IX mandou matar os gatos e espalhou a peste negra, que não resiste à pergunta sobre o documento. A defesa é ler autores de todas as linhas, sem apologia nem criticismo cegos. Carlo Ginzburg, um dos fundadores da micro-história, completa o quadro: a história amplia a imaginação, combate o provincialismo e alarga o horizonte de consciência.
Do ensino à rotina de estudo (aulas 6 a 8)
Diante da militância no ensino, o conselho é não confrontar (o professor conta como passou a tirar só nota seis depois de enfrentar um docente em sala), mas estudar por conta e compartilhar o que se aprende, como pedia Tomás de Aquino. Vêm depois os fatos antes das interpretações, começando por obras narrativas e fontes primárias; argumentos de base sólida, como mostra o mito da frase de Galileu; e a humildade socrática.
As duas últimas aulas formam o roteiro prático. Estudar história é ler todos os dias, fazer o esforço de interpretar (na Idade Média, um beijo na boca podia selar um juramento) e meditar sobre o que se leu, com leituras simultâneas e cruzadas, para tornar-se melhor, e não só acumular dados. Seguem os 21 passos: fugir de gurus, honestidade intelectual, entender antes de concordar ou discordar, uma lista de clássicos de Heródoto a Frei Vicente do Salvador, pares e mentores, metas diárias possíveis, resumos à mão, idiomas e música, aproveitamento do tempo, checagem de autores e bibliografias e, por fim, a busca de visões divergentes sobre o mesmo assunto.
O que você vai aprender
- Por que a história é ciência, mas não exata, e como um único documento pode mudar a historiografia
- O que separa a visão positivista da definição de Marc Bloch e Jacques Le Goff: o homem e sua ação no tempo
- Como distinguir positivismo, Escola dos Annales e Nova História, e reconhecer a linha de um autor
- Por que a cronologia é o primeiro passo de qualquer estudo, até de filosofia e ciências
- A diferença entre tempo cronológico e tempo histórico, e como evitar o anacronismo
- Os traços do bom historiador segundo Peter Burke e as funções da história em Burke e Carlo Ginzburg
- Como narrativas recortadas manipulam a memória e por que ler autores de linhas diferentes
- Por que começar por obras narrativas e fontes primárias antes das interpretações críticas
- Um roteiro de 21 passos: metas diárias, leitura simultânea, meditação, resumos à mão, idiomas e checagem de autores e bibliografias
- Uma lista inicial de clássicos, de Heródoto e Tucídides a Frei Vicente do Salvador e aos historiadores do Brasil
Aula por aula
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Aula 1 Conceito de história: de Heródoto a Le Goff
A história é ciência em movimento, não exata: reconstrói o passado por aproximação e muda com novos documentos, como o Manuscrito de Chinon. Contra a visão positivista, adota-se a definição de Le Goff, estudo do homem e sua ação no tempo, e Heródoto ilustra o uso formativo do passado.
A história dos dois espartanos que foram à Pérsia oferecer a vida, mas não a honra, mostra como Heródoto narrava para formar os jovens.
conceito de históriapositivismoHeródototempláriosdocumentos HeródotoJacques Le GoffAuguste ComteBarbara FraleClemente V34 min -
Aula 2 Cronologia: o primeiro passo para estudar história
Separada da filosofia só no século XIX, a história tem método próprio, mas não dita o futuro, como argumenta Marc Bloch. Tucídides aparece como criador do primeiro método crítico, a cronologia como primeiro passo de estudo, e a Nova História como visão mais completa que a leitura sociológica materialista.
Kant, Mendel e o Teorema de Tales ilustram como conhecer o contexto histórico de um autor ou descoberta facilita entender até filosofia e matemática.
filosofia da históriacronologiaTucídidesNova Históriaideologia Marc BlochSanto Agostinho (A Cidade de Deus)TucídidesKantJacques Le Goff34 min -
Aula 3 Tempo cronológico, tempo histórico e anacronismo
Entre positivismo, Escola dos Annales e Nova História, esta aparece como a corrente mais abrangente, e Tucídides, ao analisar criticamente a Guerra do Peloponeso, vai além da narração de Heródoto. O tempo cronológico, de divisões arbitrárias, difere do tempo histórico, das permanências, e o anacronismo é o grande inimigo.
As Congadas, com cantos sobre lutas entre católicos e muçulmanos, aparecem como herança medieval viva no Brasil, um país que não teve Idade Média.
correntes historiográficastempo históricoperiodizaçãoanacronismopermanências Marc BlochJacques Le GoffHeródotoTucídidesDante (Divina Comédia)36 min -
Aula 4 Estudo sem atalhos e o bom historiador
Longe das receitas rápidas, estudar é, como diz Santo Agostinho, um processo lento e doloroso de purificação moral, que exige disciplina e autoconhecimento. Georges Duby e Peter Burke embasam a discussão sobre o valor da história e o bom historiador, com critérios para avaliar autores e fontes.
Ler Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas ajuda a estudar história, defende o professor, porque alimenta a imaginação que Burke considera essencial ao bom historiador.
vida intelectualdisciplina de estudofunção da históriapapel do historiadorfontes Santo Agostinho (De Magistro)Georges DubyPeter BurkeJaime BalmesFrancisco Bethencourt47 min -
Aula 5 Funções da história e manipulação da memória
Segundo Peter Burke, a história deve preencher lacunas, analisar evidências com neutralidade e atentar aos detalhes, como mostram as exumações de Dom Pedro I e Leopoldina. Narrativas recortadas manipulam a memória, e a defesa é ler autores diversos, sem apologia nem criticismo cegos; Carlo Ginzburg completa as funções da história.
O mito de que o papa Gregório IX mandou matar os gatos e assim espalhou a peste negra é desmontado com uma pergunta simples: onde está o documento?
funções da históriamanipulação da memóriamitos históricosmicro-históriaDom Pedro II Peter BurkeCarlo GinzburgDom Pedro IIDan Brown (O Código Da Vinci)Gregório IX39 min -
Aula 6 Militância no ensino e a verdade histórica
Com o ensino de história ideologizado e professores que se veem mais como agentes políticos que como mestres, o melhor é estudar por conta, sem confrontos, e compartilhar o que se aprende. Aprender fatos antes de interpretações, argumentar com base sólida e cultivar humildade e constância completam o percurso.
Quando estudante, o professor passou a tirar só nota seis depois de confrontar um docente que trocava filosofia política pela história de um partido.
ideologização do ensinomilitânciafatos e narrativasGalileuhumildade intelectual Tomás de AquinoGalileu GalileiMariano ArtigasWilliam SheaSócrates30 min -
Aula 7 Ler, interpretar e meditar: caminhos para estudar história
Estudar história exige leitura diária, esforço interpretativo e cruzamento de informações, meditando sobre o lido, com o objetivo de tornar-se melhor, e não só acumular dados. Somam-se a leitura simultânea de vários livros, a distinção entre bibliografia primária e secundária e os primeiros de 21 passos, como honestidade intelectual.
Freiras que beijavam a abadessa ao professar votos e o 'selinho' dos juramentos feudais mostram como gestos mudam de sentido ao longo do tempo.
leiturainterpretaçãomeditaçãoleitura simultâneahonestidade intelectual Mortimer Adler (Como Ler Livros)Garrigou-LagrangeTomás de AquinoGeorge Orwell (1984)36 min -
Aula 8 Clássicos, metas e hábitos para estudar história
A segunda parte dos 21 passos para estudar história inclui montar uma lista de clássicos, de Heródoto a Frei Vicente do Salvador, buscar pares e mentores, fixar metas de leitura, resumir à mão, explorar outras áreas, música e idiomas, aproveitar o tempo, checar autores e bibliografias e confrontar visões divergentes.
Santo Afonso de Ligório lendo enquanto fazia a barba e um livro sobre a Idade Média que usava ficção como fonte ilustram dois dos conselhos finais.
clássicosmetas de leituraanotaçõesidiomasanálise de bibliografia Santo AgostinhoGeorges DubyHugo de São Vítor (Didascálicon)Frei Vicente do SalvadorCamões (Os Lusíadas)52 min
Autores, obras e figuras discutidos
Heródoto · Jacques Le Goff · Auguste Comte · Barbara Frale · Clemente V · Marc Bloch · Santo Agostinho (A Cidade de Deus) · Tucídides · Kant · Dante (Divina Comédia) · Georges Duby · Peter Burke · Jaime Balmes · Francisco Bethencourt · Carlo Ginzburg · Dom Pedro II · Dan Brown (O Código Da Vinci) · Gregório IX · Tomás de Aquino · Galileu Galilei · Mariano Artigas · William Shea · Sócrates · Mortimer Adler (Como Ler Livros) · Garrigou-Lagrange · George Orwell (1984) · Hugo de São Vítor (Didascálicon) · Frei Vicente do Salvador · Camões (Os Lusíadas)