O Imaginário da Criança Moderna
Educar para quê? Como a rotina da casa, as telas, os filmes, os jogos e os livros formam o imaginário da criança.
Visão geral
Educar vem de conduzir, e ninguém conduz sem destino. O curso parte de uma pergunta que muitos pais evitam: educar para quê? Quem quer para o filho "uma educação de qualidade" sem saber aonde ela deve levar não fica sem resposta, apenas deixa que outros respondam. Depois de percorrer Esparta, Atenas, as artes liberais e a escola moderna, nascida para uniformizar e formar bons funcionários, Marcelo Gonzaga mostra o que cabe à família e ninguém mais pode fazer: preservar a individualidade de cada criança.
O percurso começa pelo diagnóstico, e o professor avisa que vai expor o problema em toda a sua crueza antes de oferecer remédios. Para a criança, que ainda não abstrai nem projeta o futuro, a rotina da casa é a medida do normal. Pais exaustos que tratam o filho como estorvo, escolas escolhidas por status e conveniência e uma casa que lida com uma "criança genérica", que não existe, ensinam mais do que parece.
Em seguida vem o imaginário, a "janela do possível" que livros, desenhos, filmes e jogos podem ampliar ou estreitar. O curso examina as piadas adultas de Shrek, as duas versões de Mulan, a Pequena Sereia original, a "zona cinzenta" de Malévola, o jogo como espelho da criança ou fuga da realidade e os livros pensados para uma criança concreta, como o Roverandom que Tolkien inventou para consolar o filho. Nenhuma dessas mídias é demonizada: todas são pesadas pelo que acrescentam e pelo que tiram.
A última parte é propositiva: brincar mais e corrigir menos, jogar junto sob as mesmas regras, entender o pedido de leitura como pedido de atenção, cantar em família, usar temperamentos e outras tipologias só como apoio, anotar o que se observa e ter prioridades claras. O curso termina lembrando que a meta é o melhor resultado possível, e não o perfeito, e que errar, retomar e seguir em frente faz parte da educação.
O percurso do curso
Educar para quê (Aula 1)
Educação vem de conduzir, e toda condução supõe um destino. Com a cena de Alice diante do Gato de Cheshire, o professor mostra que não saber aonde se quer chegar não elimina o destino, apenas o esconde. Esparta formava soldados; Atenas buscava o ideal do belo e do bom; as artes liberais queriam homens capazes de interpretar o mundo e escolher o próprio caminho. A escola moderna, nascida com o Estado centralizado e o utilitarismo, uniformiza para o mercado de trabalho: quem não escolhe outro rumo educa o filho para ser um bom funcionário, numa cultura que ainda confunde infância com infantilidade. Cabe à família preservar a individualidade.
A rotina da casa e da escola (Aulas 2 e 3)
Para a criança, a rotina da família é a medida do normal: ela ainda não abstrai nem projeta o futuro, e os pais são seu modelo e sua segurança. Por isso “faça isso para não ser como eu” não funciona, e cobrar leitura sem ler não convence. O professor critica a rotina de pais exaustos que disputam quem está mais cansado e lembra o pai de A Vida é Bela. Depois olha o dia da criança: a escola escolhida por status e conveniência, a primeira experiência social numa espécie de selva, a volta para uma casa sem tempo de ajudá-la a digerir o dia e o hábito de tratá-la como uma “criança genérica”.
O imaginário e as experiências virtuais (Aula 4)
Formar o imaginário é ampliar a “janela do possível”, aquilo que a pessoa consegue considerar real. Livros, filmes, desenhos e jogos são experiências virtuais valiosas, porque ninguém vive tudo o que precisaria conhecer, mas não substituem a vivência nem a vida em família. A “babá eletrônica”, o gosto pela leitura sem finalidade e a idealização do esporte entram na mesma balança de vantagens e desvantagens.
Desenhos, filmes e jogos (Aulas 5 e 6)
Desenhos e filmes conduzem a imaginação. As piadas adultas de Shrek ensinam à criança truques que depois serão repreendidos; a Mulan do desenho valoriza a mulher enquanto mulher, e a do filme recente, enquanto homem; os finais felizes da Disney contrastam com o desfecho da Pequena Sereia de Andersen; Malévola apresenta cedo demais ao pré-adolescente a “zona cinzenta” da vida adulta. A classificação indicativa não basta. Já os jogos, do xadrez ao videogame, fazem a criança agir e revelam, como o anel de Giges, o que ela faria sem ninguém olhando; o risco é o escapismo e a ilusão de que as habilidades passam sozinhas do jogo para a vida.
Livros para a criança concreta (Aula 7)
Livros infantis não são panaceia. Com C. S. Lewis, o professor distingue o modo ruim de escrever para crianças, o do adulto que decide o que a “criança genérica” deve ouvir, dos dois bons: escrever para uma criança específica, como Tolkien fez com Roverandom, ou escrever o que se quer numa linguagem que a criança acompanha. Pede liberdade de escolha sem moralismo, leitura em voz alta e repetição das histórias preferidas, e valoriza a “rigidez” do livro, cuja história segue seu curso e ensina a aceitar o que não depende de nós.
Brincar, ler, cantar e ter objetivos (Aulas 8 e 9)
A parte final oferece antídotos. Brincar é coisa séria: os pais devem estar mais disponíveis para brincar e menos dispostos a corrigir, jogar junto sob as mesmas regras, atender ao pedido de leitura como pedido de atenção, cantar em família e cuidar do gosto que transmitem. Temperamentos e outras tipologias servem só como acessório, partindo da criança concreta. O professor recomenda anotar observações, ter prioridades claras e objetivos que se possam sustentar até o fim, e buscar o melhor resultado possível, não o absoluto. Uma andorinha só não faz verão: nem um acerto nem um erro isolado decidem uma educação.
O que você vai aprender
- Por que educar é conduzir a um fim, e o que acontece quando os pais não sabem qual é
- Por que a escola, feita para uniformizar, não substitui a família, a quem cabe preservar a individualidade da criança
- A diferença entre valorizar a infância e valorizar a infantilidade
- Por que a rotina da casa é, para a criança, a medida do que é normal, e os pais precisam ser modelo do que pedem
- Como livros, filmes, desenhos e jogos ampliam a "janela do possível" como experiências virtuais, sem substituir a vivência
- Como avaliar desenhos e filmes infantis além da classificação indicativa: piadas adultas, finais sempre felizes e a "zona cinzenta"
- O que os jogos revelam sobre a criança e quando deixam de ser descanso para virar fuga
- Como escolher livros para a criança concreta, sem moralismo, e por que vale ler em voz alta e repetir as histórias
- Como brincar, jogar e cantar com os filhos, com mais disponibilidade para a brincadeira e menos vontade de corrigi-la
- Como usar temperamentos e outras tipologias só como acessório e buscar o melhor resultado possível, não o perfeito
Aula por aula
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Apresentação do curso Educação dos filhos: o que não se terceiriza
Apresentação do curso, que reúne orientações e críticas sobre o que se entende por boa educação e aonde ela quer chegar, e defende que parte do trabalho educativo cabe aos pais e não pode ser terceirizada nem comprada.
O professor conta que ele próprio teria sido mais bem aproveitado se seus pais tivessem recebido essas orientações e convida a adaptar o curso a cada criança.
educação familiarresponsabilidade dos paisinfância3 min -
Aula 1 Educar para quê? Estado, família e escola moderna
Educar é conduzir a um fim, e quem não o define acaba formando o filho para ser um bom funcionário. De Esparta e Atenas às artes liberais e à escola moderna, utilitária e uniformizadora, mostra por que cabe à família preservar a individualidade da criança.
O que os adultos com síndrome de Peter Pan revelam sobre uma cultura que passou a valorizar a infantilidade, e não a infância?
finalidade da educaçãoEsparta e Atenasescola modernaEstado e famíliainfância e infantilidade Alice no País das MaravilhasLicurgoPlatãoHomeroKarl Marx30 min -
Aula 2 A rotina da família como modelo para a criança
Para a criança, que ainda não abstrai nem projeta o futuro, a rotina da casa é a medida do normal. Os pais precisam ser modelo do que pedem, da leitura ao modo de lidar com conflitos, e rever a rotina de cansaço que faz do filho um estorvo.
Por que dizer ao filho 'faça isso para não ser como eu' costuma dar errado, e o que o pai de A Vida é Bela ensina a pais exaustos?
rotina familiarexemplo dos paisleitura em casadivórciovocação paterna A Vida é BelaRetratos da Leitura23 min -
Aula 3 A criança entre a escola e a casa
A escola costuma ser escolhida por status e conveniência, e é lá que a criança vive sua primeira experiência social, sob outra autoridade e numa espécie de selva. Em casa, pais cansados não a ajudam a digerir o dia e a tratam como uma 'criança genérica', que não existe.
Ensina a ler o 'não sei' da criança à pergunta 'o que você aprendeu hoje?' como sinal de que algo na conversa com os pais precisa mudar.
escolha da escolaautoridadeideologiadiálogo em famíliacriança genérica Plutarco26 min -
Aula 4 A janela do possível: mídias, esporte e lazer
Formar o imaginário é ampliar a 'janela do possível'. Livros, televisão e jogos são experiências virtuais úteis, mas não substituem a vivência nem a vida em família. Sem demonizar a tecnologia, critica a 'babá eletrônica', o gosto pela leitura sem finalidade e a idealização do esporte.
Usa a indignação com desvios de milhões, quantias que quase ninguém consegue imaginar, para mostrar por que a vivência, mesmo imaginativa, precisa ampliar a noção de real.
janela do possívelexperiência virtualtecnologiababá eletrônicaesporte23 min -
Aula 5 O que desenhos e filmes infantis ensinam
Desenhos e filmes infantis conduzem o imaginário, com pautas e piadas adultas que a criança absorve sem entender. Compara as duas versões de Mulan, contrasta os finais felizes da Disney com o desfecho triste da Pequena Sereia original e aponta a 'zona cinzenta' que Malévola apresenta cedo demais ao pré-adolescente.
Mostra, a partir de uma cena de Shrek, como a risada dos pais ensina à criança um truque para chamar atenção que depois será repreendido.
desenhos e filmes infantispiadas para adultosfinais felizeszona cinzentaclassificação indicativa ShrekMulanA Pequena SereiaMalévolaC. S. Lewis29 min -
Aula 6 Jogos eletrônicos entre autoconhecimento e escapismo
Filmes e livros mostram o outro; já os jogos, do xadrez ao videogame, fazem a criança agir e conhecer a si mesma, revelando ao educador, como o anel de Giges, o que ela faria sem constrangimento social. Os riscos são o escapismo e a ilusão de transferir habilidades automaticamente.
Parte da ideia de que é muito mais difícil viver do que jogar para distinguir o jogo como descanso ou preparação do jogo como fuga da realidade.
jogos eletrônicosfaz de contaautoconhecimentoescapismoxadrez Platão20 min -
Aula 7 Livros infantis e a criança concreta
Livros infantis não são panaceia: valem quando pensados para a criança concreta, não para a 'criança genérica', como fez Tolkien ao escrever Roverandom para o filho. Defende liberdade de escolha sem moralismo, leitura em voz alta, repetição e a 'rigidez' do livro, que ensina a aceitar o real.
Conta que C. S. Lewis negou ter adaptado para crianças uma cena de refeição em Nárnia: descreveu os quitutes porque era o que ele próprio queria ver.
livros infantiscriança genéricaleitura em voz altamoralismoformação do gosto EsopoC. S. LewisJ. R. R. TolkienRoverandomHomero23 min -
Aula 8 Brincar, ler e cantar com os filhos
Brincar é coisa séria para a criança. Os pais devem estar mais disponíveis para brincar e menos dispostos a corrigir, jogar junto sob as mesmas regras, tratar o pedido de leitura como pedido de atenção, cantar em família e cuidar do gosto que transmitem, sem cair em regras rígidas.
Explica por que corrigir a brincadeira em que a criança reencena uma professora ríspida pode atrapalhar, em vez de ajudar, o modo como ela digere a experiência.
brincadeirajogos em famílialeitura e atençãoeducação do gostomúsica em família A Vida é BelaC. S. LewisMundo Bita23 min -
Aula 9 Tipologias, objetivos e o melhor resultado possível
Tipologias como os quatro temperamentos de Hipócrates servem só como acessório, partindo da criança concreta, e não o contrário. Recomenda anotar observações, ter prioridades claras e objetivos que se possam sustentar, e buscar o melhor resultado possível, não o absoluto, aceitando com flexibilidade os imprevistos e os próprios limites.
Diante de quem aponta a santidade como meta da educação, pergunta se os pais estão dispostos a ver um filho mártir: todo objetivo precisa ser sustentado até o fim.
criança concretatemperamentostipologiasobjetivos da educaçãoflexibilidade HipócratesAristóteles27 min
Autores, obras e figuras discutidos
Alice no País das Maravilhas · Licurgo · Platão · Homero · Karl Marx · A Vida é Bela · Retratos da Leitura · Plutarco · Shrek · Mulan · A Pequena Sereia · Malévola · C. S. Lewis · Esopo · J. R. R. Tolkien · Roverandom · Mundo Bita · Hipócrates · Aristóteles