As Virtudes Fundamentais
Prudência, justiça, fortaleza e temperança: o que é virtude e como se forma o caráter, de Aristóteles a Pieper.
Visão geral
O curso parte da tradição central da filosofia moral do Ocidente, de Platão e Aristóteles a Santo Tomás de Aquino e Josef Pieper, e de uma definição: virtude é hábito operativo bom, uma segunda natureza que o homem, livre e inteligente, vai construindo pelas próprias escolhas. Mauro Keller começa mostrando o que distingue o hábito do instinto e a que faculdade corresponde cada virtude cardeal: a prudência à inteligência, a justiça à vontade, a fortaleza e a temperança aos apetites irascível e concupiscível. A abordagem é filosófica, não teológica, e atenta desde o início à educação moral das crianças.
Duas aulas são dedicadas à prudência, que para Aristóteles é a principal das virtudes. Ela fixa o meio-termo de todas as outras e não trabalha com regras prontas: delibera sobre o caso concreto, tem como medida o homem prudente e decide sem a certeza de um cálculo, mas também sem relativismo. Daí a distinção entre prudência e técnica, a doutrina da conexão das virtudes (não há virtude sem prudência, nem prudência sem virtude) e a explicação do autoengano e da falsa consciência, pessoal e coletiva.
Seguem-se as outras três virtudes cardeais. A justiça, dar a cada um o seu, aparece com suas três formas, seus vícios opostos, a injustiça e o legalismo, e seus limites diante da gratidão, da piedade e do amor. A fortaleza se desdobra em atacar e resistir, da coragem, que não é ausência de medo, à paciência e à perseverança. A temperança, por fim, é a virtude do equilíbrio: não combate o prazer, mas o ordena pela razão, e sua falta cega a inteligência.
Advogado e ex-procurador do estado, como se apresenta na abertura, o professor recorre ao direito romano, à jurisprudência e a casos da própria vida profissional e familiar, ao lado de Antígona, Medeia e das distopias Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451. O curso termina com uma bibliografia básica (Aristóteles, Santo Tomás, Pieper e Dietrich von Hildebrand) e o convite a seguir estudando por conta própria.
O percurso do curso
O que é uma virtude (Apresentação e Aula 1)
O curso começa pela pergunta mais básica. Na tradição clássica, virtude é um hábito operativo bom, algo que só existe num ser dotado de inteligência e vontade livre. O animal tem instintos, que respondem sempre do mesmo modo; o homem, com potências abertas a muitas direções, forma hábitos, uma segunda natureza entre a potência e o ato. O bebê que “caminha” por instinto nos primeiros dias perde esse reflexo e volta a andar, mais tarde, por hábito.
Vem então o mapa do curso. A inteligência tem suas virtudes (técnica, ciência, sabedoria, intelecto dos primeiros princípios e prudência); a vontade, apetite racional, tem a justiça; os apetites irascível e concupiscível, comuns a homens e animais, têm a fortaleza e a temperança. A criança que aceita o remédio amargo já descobriu que há dores boas e prazeres maus: entrou na idade da razão. Daí a insistência na educação moral desde cedo, porque escolher é escolher-se.
A prudência, mãe das virtudes (Aulas 2 e 3)
Para Aristóteles, a prudência é a mais importante das virtudes: intelectual e moral ao mesmo tempo, impera sobre a vontade e fixa o meio-termo de cada virtude entre dois vícios. Não funciona como o mecânico, que conhece de antemão a solução de cada defeito: diante do ladrão que invade a casa, enfrentar ou fugir pode ser o ato corajoso, e só a deliberação sobre as circunstâncias decide. A medida é o homem prudente, sem relativismo, pois há ações que nunca devem ser praticadas, e decidir exige um “salto”, sem a certeza de uma demonstração.
A segunda aula separa prudência e técnica: uma torna bom o agente, a outra torna boa a obra. Segue-se o ponto que o professor considera central em toda a ética, a conexão das virtudes: não há virtude sem prudência, nem prudência sem justiça, fortaleza e temperança. Sem vontade reta, a inteligência fabrica boas razões para o que deseja, e surge a falsa consciência, que pode tomar sociedades inteiras, como, para o professor, na antiga defesa da escravidão e na atual defesa do aborto. A aula fecha com as partes potenciais (eubulia, sínese e gnome, raiz do juízo de equidade) e as oito partes integrantes da prudência.
A justiça e seus limites (Aula 4)
A justiça, virtude da vontade, consiste em dar a cada um o seu, isto é, o seu direito, que vem antes da lei; o professor prefere a fórmula completa de Ulpiano, no Digesto: viver honestamente, não prejudicar ninguém, dar a cada um o que é seu. Mais ligada ao bem comum, vem logo depois da prudência. Um triângulo organiza suas formas: comutativa, entre particulares; distributiva, do poder público para os cidadãos; legal, dos cidadãos para a comunidade. Seus vícios são a injustiça e o legalismo, e a gratidão, a piedade e o amor mostram até onde a justiça estrita não chega.
A fortaleza: atacar e resistir (Aula 5)
Nenhuma virtude se adquire sem esforço, e por isso a fortaleza está em todas; temperamento calmo ainda não é paciência. Ela aperfeiçoa o apetite irascível no atacar (coragem, laboriosidade, magnanimidade, ira justa) e no resistir (paciência, perseverança, fidelidade). Coragem não é ausência de medo, e sem causa justa não há fortaleza, como ensinam Santo Tomás e Pieper. Antígona diante de Creonte, os resistentes das distopias, a paciência de Annie Sullivan com Helen Keller e episódios da carreira do professor dão corpo à exposição.
A temperança e o prazer ordenado (Aula 6)
A temperança não é inimiga do prazer, que é bom e necessário: ela o ordena pela razão. É a virtude do equilíbrio, e Aristóteles a chamava sentinela da prudência, porque a intemperança cega a inteligência. A aula passa pela castidade, que não se confunde com abstinência, pela sobriedade, pela austeridade diante do dinheiro e pela humildade, verdadeiro conhecimento de si, contra a soberba, o pior dos vícios. Critica tanto o hedonismo quanto o puritanismo, estende a temperança ao desejo de poder e à curiosidade vã e termina com leituras para quem quiser ir adiante.
O que você vai aprender
- Definir virtude como hábito operativo bom e distingui-la do instinto, do simples temperamento e da mera continência.
- Relacionar cada virtude cardeal à sua sede: a prudência na inteligência, a justiça na vontade, a fortaleza e a temperança nos apetites irascível e concupiscível.
- Entender por que, para Aristóteles, a prudência é a principal virtude e por que ela não se reduz a regras fixas, mas exige deliberação e o “salto” da decisão.
- Distinguir a prudência da técnica, da ciência e da sindérese, e ver o que se perde quando a vida moral é tratada como problema técnico.
- Explicar a doutrina da conexão das virtudes e sua relação com o autoengano e a falsa consciência.
- Reconhecer as partes potenciais da prudência (eubulia, sínese e a gnome, raiz do juízo de equidade) e suas oito partes integrantes, da memória à cautela.
- Compreender a justiça como dar a cada um o seu direito, distinguir justiça comutativa, distributiva e legal e identificar seus vícios opostos, a injustiça e o legalismo.
- Identificar as manifestações da fortaleza no atacar e no resistir e entender por que coragem não é ausência de medo nem existe sem causa justa.
- Ver a temperança como virtude do equilíbrio, que ordena o prazer sem suprimi-lo, e entender como a intemperança cega a inteligência.
Aula por aula
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Apresentação do curso As quatro virtudes cardeais
A virtude como hábito bom pelo qual o homem, livre e inteligente, constrói a própria excelência, e as quatro virtudes cardeais, prudência, justiça, fortaleza e temperança, na tradição que vai de Platão e Aristóteles a Santo Tomás de Aquino.
Por que “cardeais”? A palavra vem de cardo, gonzo: são os eixos em torno dos quais gira todo o bom comportamento humano.
virtudes cardeaisvirtude como hábitoexcelência humanafilosofia moral PlatãoAristótelesSanto AgostinhoSanto Tomás de Aquino5 min -
Aula 1 Virtude como hábito: inteligência, vontade e apetites
A virtude como hábito operativo bom, “segunda natureza” entre a potência e o ato, própria de um ser com inteligência e vontade livre. Distingue os apetites irascível e concupiscível, apresenta as virtudes intelectuais de Aristóteles e liga cada faculdade a uma virtude cardeal, com ênfase na educação moral da infância.
Do bebê que “caminha” por instinto e depois reaprende a andar por hábito à máxima “escolher é escolher-se”, exemplos cotidianos mostram como o caráter se forma.
virtude como hábitointeligência e vontadevirtudes intelectuaisvirtudes cardeaiseducação moral AristótelesÉtica a NicômacoSanto Tomás de AquinoJoaquín García-Huidobro35 min -
Aula 2 Prudência: o homem prudente como medida do agir
Para Aristóteles, a prudência é a principal das virtudes: impera sobre a vontade e fixa o meio-termo entre os vícios. Sem regras fixas, seu critério é o homem prudente, que delibera e dá o “salto fronético”, sem relativismo nem certeza absoluta; ela também formula fins intermediários, como o respeito à propriedade privada.
Diante de um ladrão que invade a casa à noite, enfrentá-lo ou fugir pode ser o ato corajoso: só a prudência, atenta às circunstâncias, decide qual.
prudênciameio-termodeliberaçãosalto fronéticorelativismo moral AristótelesSanto Tomás de AquinoPierre AubenqueJosef PieperDaniel Mark Nelson1h -
Aula 3 Prudência, técnica e a conexão das virtudes
A prudência, reta razão do agir, torna bom o agente; a técnica, reta razão do fazer, torna boa a obra. Pela conexão das virtudes, não há virtude sem prudência nem prudência sem virtude, o que explica a falsa consciência. Fecha com as partes potenciais e integrantes da prudência.
Por que pessoas brilhantes em sua técnica podem ser moralmente pérfidas, e por que atletas e artistas não deveriam ser tomados como modelos de vida?
prudência e técnicaconexão das virtudesfalsa consciênciapartes da prudênciaequidade AristótelesSanto Tomás de AquinoJosef PieperLeopoldo Eulogio PalaciosDietrich von Hildebrand1h01 -
Aula 4 Justiça: dar a cada um o seu
A justiça, virtude da vontade, consiste em dar a cada um o seu, isto é, o seu direito, que antecede a lei. Segunda em importância e a mais ligada ao bem comum, divide-se em comutativa, distributiva e legal, opõe-se à injustiça e ao legalismo e encontra seus limites no amor.
Uma vizinha que toca a campainha com um bolo, no dia seguinte à mudança, ilustra o que nenhuma lei obriga e a justiça sozinha não alcança.
justiçabem comumformas de justiçadireito naturallegalismo AristótelesUlpianoDigesto de JustinianoSanto Tomás de AquinoDietrich von Hildebrand59 min -
Aula 5 Fortaleza: atacar e resistir, da coragem à paciência
Necessária à aquisição de qualquer virtude, a fortaleza aperfeiçoa o apetite irascível no atacar (coragem, laboriosidade, magnanimidade, ira justa) e no resistir (paciência, perseverança, fidelidade). Coragem não é ausência de medo, e sem causa justa não há fortaleza; Antígona, distopias e casos pessoais ilustram a exposição.
Uma bronca dura num amigo, que em vez de se afastar se tornou ainda mais próximo, ilustra por que a ira justa é virtude e não cólera.
fortalezacoragemira justapaciênciamagnanimidade Josef PieperSanto Tomás de AquinoAntígona, de SófoclesAldous HuxleyHelen Keller e Annie Sullivan54 min -
Aula 6 Temperança: o prazer ordenado pela razão
A temperança, virtude do equilíbrio, não combate o prazer, bom e necessário, mas o ordena pela razão, como sentinela da prudência. Trata de castidade, sobriedade, austeridade e humildade, critica o puritanismo e mostra como a intemperança cega a inteligência, da falsa consciência coletiva ao desejo desmedido de poder.
Santo Tomás, citado por Pieper, sustenta que a intensidade do prazer sexual, se ordenada pela razão, não fere a virtude e que teria sido ainda maior no paraíso.
temperançaprazercastidadehumildade e orgulhopuritanismo Santo Tomás de AquinoJosef PieperAristótelesEpicuroNicolau Maquiavel50 min
Autores, obras e figuras discutidos
Platão · Aristóteles · Santo Agostinho · Santo Tomás de Aquino · Ética a Nicômaco · Joaquín García-Huidobro · Pierre Aubenque · Josef Pieper · Daniel Mark Nelson · Leopoldo Eulogio Palacios · Dietrich von Hildebrand · Ulpiano · Digesto de Justiniano · Antígona, de Sófocles · Aldous Huxley · Helen Keller e Annie Sullivan · Epicuro · Nicolau Maquiavel