Os Francos e o Nascimento da Cristandade
Da queda de Roma a Carlos Magno: como os francos deram à Igreja sua força de instituição no Ocidente.
Visão geral
Quando o Império Romano do Ocidente cai, em 476, a Europa não mergulha simplesmente no caos. Desde o século III, povos germânicos vinham entrando em suas terras férteis, muitas vezes em invasões silenciosas, e suas instituições se misturavam às romanas numa fusão que mais tarde se chamaria feudalismo. Entre esses povos, os francos se destacam pela coesão e pela organização, e é a partir deles que o curso conta o nascimento da cristandade.
Em cinco aulas, o percurso vai de Meroveu, que une os clãs francos, à conversão de Clóvis, preparada por Clotilde e pelo bispo Remígio; passa pelos reis indolentes e pelos prefeitos do palácio, pela vitória de Carlos Martel sobre os muçulmanos em Poitiers, em 732, e pela fundação da dinastia carolíngia por Pepino, o Breve, cuja doação de terras ao papa dá origem aos Estados Pontifícios. O fio condutor é uma tese: a Igreja, que tinha em Roma o seu centro, criou raízes como instituição política no reino dos francos, graças a quatro marcos que o curso acompanha um a um.
O ponto alto é Carlos Magno, coroado imperador em 800 e lido à luz da noção de cristandade de Christopher Dawson. O contraste com o cesaropapismo de Bizâncio, onde o imperador concentrava o poder político e o religioso, ajuda a entender por que só no Ocidente a Igreja se firmou como instituição. A última aula mostra o império por dentro (o Renascimento carolíngio, a nobreza de duques, condes, marqueses e barões, os missi dominici e as Capitulares) e sua divisão no Tratado de Verdun, em 843, que abre caminho para a fragmentação feudal.
O percurso do curso
O fim do Ocidente romano
O curso começa no século III, quando povos germânicos atravessam as fronteiras de um Império Romano do Ocidente enfraquecido pela corrupção. Chamados de bárbaros por não partilharem a língua e a cultura romanas, eram agricultores em busca de terras férteis, e por isso miraram o Ocidente, e não o Oriente comercial. Ao mesmo tempo, os éditos de Milão e de Tessalônica dão ao cristianismo tolerância e, depois, o status de religião oficial. Após a queda de Roma, em 476, instituições romanas e germânicas se fundem naquilo que mais tarde se chamará feudalismo, e os francos avançam sem subjugar a fé cristã das populações locais.
Clóvis e o primeiro pilar
Meroveu une os clãs francos, e seu neto Clóvis funda a dinastia merovíngia. Casado com Clotilde, católica fervorosa da Borgonha, num arranjo do bispo Remígio, de Reims, Clóvis promete converter-se se vencer os alamanos em Tolbiac; vence e leva todo o povo franco ao batismo. Para o professor, é o primeiro de quatro marcos que dão à Igreja força de instituição. O cristianismo resiste à divisão do reino entre os filhos de Clóvis, e no fim da dinastia os reis indolentes deixam o governo nas mãos dos prefeitos do palácio.
Carlos Martel, Pepino e as terras da Igreja
Um desses prefeitos, Carlos Martel, enfrenta a expansão islâmica, que a partir de 622 se espalhara pelo Norte da África e pela Península Ibérica. Em Poitiers, em 732, sua infantaria detém a cavalaria moura: é o segundo marco. Seu filho, Pepino, o Breve, põe fim aos merovíngios, funda a dinastia carolíngia e, depois de vencer os lombardos, doa ao papa terras na Itália. Nasce o Patrimônio de São Pedro, origem dos Estados Pontifícios e terceiro marco, que fará da Igreja uma grande senhora de terras até a unificação italiana, no século XIX.
Carlos Magno e a cristandade
A quarta aula chega a Carlos Magno, que, a partir de Aachen, amplia o domínio franco com força e diplomacia e impõe o cristianismo aos povos conquistados. Coroado imperador pela Igreja em 800, ele encarna o que Christopher Dawson chama de cristandade, a civilização europeia que, na leitura adotada pelo curso, vai de 476 a 1453. O contraste com Bizâncio, onde o cesaropapismo reunia nas mãos do imperador o poder político e o religioso, explica por que só no Ocidente a Igreja se firmou como instituição. De passagem, a aula conta a história da Hagia Sophia.
O império por dentro e o caminho para o feudalismo
A última aula mostra o império por dentro: o Renascimento carolíngio, com sábios, escolas e mosaicistas vindos de Constantinopla; a distribuição de terras a famílias de confiança, origem da hierarquia de duques, condes, marqueses e barões; os missi dominici, duplas de um clérigo e um leigo a serviço do imperador; e as Capitulares, leis escritas do império. Com o Tratado de Verdun, de 843, os netos de Carlos Magno dividem o império. O poder se fragmenta em feudos, unidos por laços de fidelidade entre suseranos e vassalos, e os Capetos acabam por suceder os carolíngios na França.
O curso fecha com uma imagem: se Grécia, Roma e o cristianismo são grandes nós da trama histórica, os francos são um nó menor, mas decisivo, entre o fim do mundo romano e a Idade Média. Para entender o poder institucional da Igreja medieval, conclui o professor, é preciso passar por eles.
O que você vai aprender
- Por que os povos germânicos buscaram o Ocidente agrícola e o que foram as invasões silenciosas
- Por que o feudalismo, em sua essência, é uma fusão de instituições romanas e germânicas
- Como a conversão de Clóvis, preparada por Clotilde e São Remígio, levou todo o povo franco ao cristianismo
- Os quatro marcos que, segundo o curso, firmaram a Igreja como instituição: Clóvis, Poitiers, a doação de Pepino e o império de Carlos Magno
- Quem eram os reis indolentes e os prefeitos do palácio no fim da dinastia merovíngia
- Como nasceram a dinastia carolíngia e os Estados Pontifícios, que fizeram da Igreja uma grande senhora de terras
- O que é a cristandade para Christopher Dawson e em que o cesaropapismo bizantino difere do Ocidente
- Como Carlos Magno organizou o império: Renascimento carolíngio, nobreza, missi dominici e Capitulares
- Por que o Tratado de Verdun abre caminho para os feudos e para os laços entre suserano e vassalo
Aula por aula
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Aula 1 Invasões bárbaras e a queda do Ocidente romano
Panorama das invasões bárbaras no Império Romano do Ocidente e do fortalecimento do cristianismo com os éditos de Milão e de Tessalônica. Mostra a queda de Roma em 476, a organização tribal dos francos, com um rei guerreiro escolhido entre os clãs, e a fusão romano-germânica que daria origem ao feudalismo.
Responde por que as tribos germânicas miraram o Ocidente agrícola, e não o Oriente comercial, e por que muitos historiadores falam em invasões silenciosas.
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Aula 2 Clóvis, Clotilde e a conversão dos francos
Da unificação dos clãs francos sob Meroveu à conversão de Clóvis, preparada por Clotilde e pelo bispo Remígio e prometida antes da batalha contra os alamanos. A conversão de todo o povo franco é o primeiro pilar institucional da Igreja, preservado mesmo com a divisão do reino e os reis indolentes.
Traz detalhes como a inscrição que marca o batismo de Clóvis na catedral de Reims e sua reação furiosa ao ouvir o relato da Paixão de Cristo.
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Aula 3 Carlos Martel, Poitiers e os Estados Pontifícios
A expansão islâmica a partir de 622 até a Península Ibérica e a vitória de Carlos Martel em Poitiers, em 732, segundo pilar da Igreja. Pepino, o Breve, funda a dinastia carolíngia e doa ao papa terras tomadas dos lombardos, criando os Estados Pontifícios, terceiro pilar do poder eclesiástico.
Mostra como uma infantaria franca deteve a cavalaria moura em Poitiers e por que se diz que a Igreja foi a maior senhora feudal da Idade Média.
expansão islâmicabatalha de PoitiersCarlos MartelEstados Pontifíciosdinastia carolíngia MaoméCarlos MartelPepino, o Breve16 min -
Aula 4 Carlos Magno, Bizâncio e a Igreja no Ocidente
Carlos Magno, lido à luz da noção de cristandade de Christopher Dawson, expande o domínio franco com força e diplomacia e é coroado imperador em 800. O contraste com o cesaropapismo do Império Bizantino de Justiniano sustenta a tese de que só no Ocidente a Igreja se firmou como instituição.
Inclui um parêntese sobre a Hagia Sophia, igreja erguida sob Justiniano que virou mesquita com os otomanos, museu com Atatürk e de novo mesquita em 2020.
Carlos MagnocristandadeSacro ImpérioImpério Bizantinocesaropapismo Christopher DawsonCarlos MagnoJustiniano15 min -
Aula 5 Renascimento carolíngio, nobreza e o nascimento do feudalismo
A organização interna do império de Carlos Magno: o Renascimento carolíngio, a distribuição de terras que dá origem à hierarquia nobiliárquica, os missi dominici e as Capitulares. Com o Tratado de Verdun, o império se fragmenta em feudos, e os francos aparecem como elo entre Roma e a Idade Média.
Explica a origem de títulos como duque, conde, marquês e barão, e até por que os mais importantes chegavam por último aos bailes da corte.
Renascimento carolíngionobrezafeudalismoTratado de VerdunCarlos Magno Carlos MagnoJustinianoLuís, o Piedoso18 min
Autores, obras e figuras discutidos
Constantino · Teodósio · Odoacro · Rômulo Augusto · Cômodo · Meroveu · Clóvis · Clotilde · São Remígio · Maomé · Carlos Martel · Pepino, o Breve · Christopher Dawson · Carlos Magno · Justiniano · Luís, o Piedoso