O Fim da Educação
Da selva escura da escola atual à finalidade da educação: um diagnóstico da crise guiado pela Divina Comédia.
Visão geral
"Fim" tem aqui dois sentidos: a decadência da educação atual e a finalidade que ela deveria ter. Para percorrer os dois, o professor Fausto Zamboni toma como guia a Divina Comédia. Como Dante, que começa perdido numa selva escura e precisa atravessar o inferno antes de subir, o curso parte da situação concreta da escola de hoje, que o professor conheceu por dentro, e só depois procura a saída.
O diagnóstico começa pelos números da escola brasileira (proficiência em leitura, violência, militância em sala) e passa aos problemas que o professor considera estruturais: a instrução obrigatória de massa, que rompeu a relação livre entre mestre e discípulo, os livros didáticos descartáveis e os currículos padronizados. Em seguida vem a selva escura intelectual: o relativismo que nega o conhecimento objetivo e o ativismo que quer refazer o mundo.
A genealogia dessas ideias ocupa o centro do curso: a mentalidade gnóstica descrita por Eric Voegelin, Kant e Fichte, o mito do progresso e a mentalidade revolucionária, o nascimento da escola estatal na Prússia e na França, a massificação, as técnicas de controle do comportamento estudadas no século XX, a ocupação da educação pela intelectualidade marxista, as diretrizes da Unesco e, por fim, a fragmentação do homem e a perda da verdade.
As duas últimas aulas fazem a subida. Com Dante como guia, o curso volta à tradição antiga e medieval: a poesia como primeiro degrau, a vida ativa e a contemplativa figuradas em Lia e Raquel, e a escada do conhecimento de Santo Agostinho e Boécio, dos sentidos ao intelecto. O ponto de chegada é a educação como busca amorosa da sabedoria: esse é o fim, no sentido de finalidade, que dá nome ao curso.
O percurso do curso
Dois sentidos de “fim” (Apresentação e Aula 1)
O curso nasce da experiência do professor Fausto Zamboni diante de uma escola caótica e se organiza como a viagem de Dante: primeiro conhecer o mal, depois subir. A primeira aula explica o título, fim como decadência e fim como finalidade, e lê a Divina Comédia como percurso educativo: a selva escura da ignorância, o inferno como conhecimento do mal, o purgatório como recuperação das virtudes e os céus como as ciências, das artes liberais à metafísica.
O diagnóstico (Aulas 2 a 4)
Os dados vêm primeiro: segundo o Saeb de 2017, a proficiência em leitura cai de 11% no quinto ano para 1,6% no fim do ensino médio, embora o país invista muito em educação; somam-se a violência contra professores, a insegurança dos alunos e a militância em sala. Na Aula 3, o professor sustenta que esses males não são falhas de gestão, mas decorrem da própria instrução obrigatória de massa, que rompeu a relação livre entre mestre e discípulo e trouxe professores sem vocação, livros didáticos descartáveis e currículos cada vez mais padronizados.
A Aula 4 passa da escola à universidade. Da ideia de Wittgenstein de que os limites da linguagem são os do mundo nasceria um relativismo que nega o conhecimento objetivo e desemboca no elogio autocontraditório da diversidade, na tolerância repressiva de Marcuse e na dissolução da identidade.
A genealogia (Aulas 5 a 9)
Para entender como se chegou aí, o curso recua alguns séculos. Com Eric Voegelin, descreve a mentalidade gnóstica do intelectual moderno, descontente com um mundo tido como estruturalmente mau e certo de ter a fórmula para refazê-lo; com Julien Benda, a traição dos intelectuais que, desde Maquiavel, passaram a justificar o mal por fins práticos. Kant separa conhecer e agir, Fichte faz o eu absorver o não eu, e a ideia de progresso, de Schelling e Hegel a Marx e Darwin, transforma o passado em atraso e a educação em ferramenta da mentalidade revolucionária.
É nesse clima que nasce a escola estatal: na Prússia, para uniformizar a cultura e unificar a nação; na França revolucionária, para mudar a mentalidade das crianças. A instrução obrigatória fica para as massas, enquanto as elites seguem com a educação liberal. A Aula 9 mostra o paradoxo dessa liberdade moderna: a tábua rasa empirista e o determinismo positivista tratam o aluno como matéria-prima, quando nenhum grande homem pode ser fabricado de fora.
Controle e ocupação da escola (Aulas 10 a 13)
No século XX, técnicas estudadas pela psicologia (as máquinas de ensinar de Skinner, os experimentos de Asch, Milgram e Sherif, a dissonância cognitiva de Festinger) chegam à sala de aula, sobretudo pela dinâmica de grupo, que pouco ajuda a aprender, mas serve para mudar atitudes.
Ao mesmo tempo, a intelectualidade marxista passa a ver a educação como área-chave da revolução, de Horkheimer e Lukács a Bourdieu e maio de 68, e diretrizes da Unesco transferem à escola o papel moral da família e propõem um currículo mundial. A Aula 13 fecha o “inferno” com a fragmentação do homem moderno, da especialização a Derrida e Nietzsche: sem verdade objetiva, restam narrativas.
A subida (Aulas 14 e 15)
Por fim, Dante reconduz à tradição antiga e medieval: os quatro sentidos da leitura, Orfeu como imagem do canto civilizador do sábio, a poesia como primeiro degrau e, no sonho de Lia e Raquel, a vida ativa que prepara a contemplativa. A última aula sobe, com Santo Agostinho, Boécio e os vitorinos, dos sentidos ao intelecto e apresenta a sabedoria, busca amorosa da verdade, como o fim, isto é, a finalidade, da educação.
O que você vai aprender
- Distinguir os dois sentidos do título: a decadência da educação atual e a sua finalidade
- Ler a Divina Comédia como percurso educativo, da selva escura à contemplação da verdade
- Examinar dados da escola brasileira e os problemas que o curso considera estruturais no ensino obrigatório de massa
- Reconhecer o relativismo e o ativismo intelectual que, segundo o professor, marcam a cultura universitária
- Identificar a mentalidade gnóstica descrita por Eric Voegelin e seus desdobramentos em Kant, Fichte, na ideia de progresso e na mentalidade revolucionária
- Conhecer a origem da escola estatal na Prússia e na França e o papel da instrução obrigatória na uniformização cultural
- Entender como técnicas de controle do comportamento (Skinner, Asch, Milgram, Festinger) chegaram à sala de aula pela dinâmica de grupo
- Acompanhar a leitura que o curso faz da ocupação da educação pela intelectualidade marxista e das diretrizes da Unesco
- Compreender a escada do conhecimento em Santo Agostinho e Boécio: sentidos, imaginação, razão e intelecto
- Ver a educação como busca amorosa da sabedoria, em que a vida ativa prepara a contemplativa
Aula por aula
-
Apresentação do curso O percurso de Dante e a educação
Educação como formação da personalidade e busca de sentido: inspirado na Divina Comédia, o curso parte da selva escura da escola atual, rastreia as origens modernas de suas ideias e práticas e chega à educação de outras épocas.
O ponto de partida é pessoal: como professor, Fausto Zamboni encontrou uma escola caótica, com falta de conhecimento e de boas relações humanas.
Divina Comédiaselva escurafilosofia da educaçãocrise da escola Dante AlighieriPlatãoEric Voegelin7 min -
Aula 1 Os dois sentidos do fim, com Dante
O título tem dois sentidos: a decadência da educação atual e a sua finalidade. Tomando Dante como guia, a aula lê a Divina Comédia como percurso educativo: a selva escura, o inferno como conhecimento do mal, o purgatório como recuperação das virtudes e os céus como as ciências.
Por que Beatriz faz Dante atravessar o inferno, em vez de levá-lo direto ao alto do monte, e o que isso ensina a quem quer entender a escola de hoje?
Divina Comédiafinalidade da educaçãoselva escuraartes liberaisvirtude Dante AlighieriEric VoegelinPlatãoJean Guitton13 min -
Aula 2 Retrato da escola brasileira em números
A crença de que mais escola é sempre melhor, confrontada com dados do Brasil: proficiência em leitura quase nula ao fim do ensino médio, investimento alto sem melhora nos testes, recorde de violência contra professores, insegurança dos alunos, militância política e o que o professor chama de ideologia de gênero.
Quanto mais tempo na escola, pior a leitura: pelo Saeb de 2017, a proficiência cai de 11% no quinto ano para 1,6% no último ano do ensino médio.
crise escolarproficiência em leituraSaebviolência escolarmilitância política21 min -
Aula 3 Problemas estruturais do sistema escolar
Contra a ideia de que os males da escola são falhas de gestão, a aula sustenta que decorrem da natureza do sistema: a instrução obrigatória de massa rompeu a relação livre entre mestre e discípulo e trouxe professores sem vocação, livros didáticos descartáveis e currículos padronizados.
A pergunta de George Steiner que embaraçou o professor abre a discussão: o que confere a alguém o poder de educar outra pessoa?
sistema escolarmestre e discípulovocação docentelivro didáticopadronização curricular George SteinerSócratesContra a Escola20 min -
Aula 4 Relativismo e ativismo: a selva escura intelectual
A selva escura também é intelectual: da ideia de Wittgenstein de que os limites da linguagem são os do mundo deriva, segundo o professor, um relativismo que nega o conhecimento objetivo e leva ao elogio autocontraditório da diversidade, à tolerância repressiva de Marcuse e à dissolução da identidade.
O exemplo das muitas palavras esquimós para a neve serve para discutir se a língua nos aprisiona ou nasce do contato com a realidade.
relativismolinguagem e realidadejogos de linguagemdiversidadeidentidade WittgensteinHerbert MarcuseSimone de Beauvoir24 min -
Aula 5 A mentalidade gnóstica do intelectual moderno
A mentalidade gnóstica descrita por Eric Voegelin une o descontentamento com um mundo tido como estruturalmente mau, a crença numa fórmula salvadora e o imperativo de transformá-lo no futuro. Com Julien Benda, a aula mostra como, desde Maquiavel, intelectuais passaram a justificar o mal em nome de fins práticos.
Como um peixe que saísse da água para julgá-la: a imagem resume a crítica de Voegelin a quem pretende refazer o mundo por inteiro.
gnosticismointelectual modernoativismoideia de progressomentalidade revolucionária Eric VoegelinJulien BendaMaquiavelKarl MarxO Mito do Mundo Novo15 min -
Aula 6 Kant, Fichte e o primado da ação
A crítica do conhecimento de Kant limita o saber ao fenômeno, mas mantém livre a ação moral; para o professor, isso separa saber e agir e favorece uma educação voltada à ação e ao gosto individual. Em Fichte, o eu que absorve o não eu, restringindo outros eus, prepara a mentalidade revolucionária.
Até o peso do vestibular nas decisões sobre educação é lido como herança da valorização kantiana da ação.
crítica do conhecimentocoisa em siprimado da açãogosto individualeu e não eu KantFichte14 min -
Aula 7 O mito do progresso e a mentalidade revolucionária
A ideia de progresso, de Schelling e Hegel a Marx e Darwin, desvaloriza o passado, cria a noção de atraso e faz da educação instrumento para moldar as crianças. Com textos de Olavo de Carvalho e Isaiah Berlin, a aula descreve a mentalidade revolucionária, que fala em nome do futuro e, prometendo liberdade, concentra poder.
Para fazer a omelete da sociedade perfeita, não haveria limite de ovos a quebrar: é assim que Isaiah Berlin resume a fé de Lenin, Trotsky e Mao.
ideia de progressonoção de atrasomentalidade revolucionáriaconcentração de podereducação como instrumento HegelKarl MarxDarwinOlavo de CarvalhoIsaiah Berlin22 min -
Aula 8 Prússia, França e o nascimento da escola estatal
O sistema estatal de ensino nasce na Prússia, para uniformizar culturas e unificar a nação, e na França revolucionária serve para mudar a mentalidade das crianças, substituindo escolas religiosas e da sociedade civil. A instrução obrigatória de massa, voltada ao trabalho, conviveu com a educação liberal reservada às elites.
Napoleão resumiu a lógica do novo sistema: se o menino não aprende desde a infância a ser republicano ou monarquista, o Estado nunca formará uma nação.
escola estatalPrússiauniformização culturalinstrução obrigatóriaeducação liberal Napoleão BonaparteWoodrow Wilsonvon Stein19 min -
Aula 9 O aluno como matéria-prima
A liberdade moderna se revela paradoxal: políticas de massa, a tábua rasa empirista e o determinismo positivista tratam o aluno como matéria-prima a ser modelada, criando uma classe que manipula e outra manipulada. Grandes homens, argumenta o professor, não se fabricam de fora: a educação só pode ajudá-los a se formar.
Georges Gusdorf resume a crítica: a pedagogia dos organizadores é uma pedagogia de massa, voltada à fabricação em série de produtos humanos semiacabados.
massificaçãotábua rasadeterminismomanipulaçãograndes homens FichteGeorges GusdorfHelvétius19 min -
Aula 10 Técnicas de controle do comportamento na escola
Técnicas de controle do comportamento estudadas no século XX chegam à escola, sobretudo pela dinâmica de grupo. A aula percorre os planos de ditadura científica que o professor atribui a Bertrand Russell, as máquinas de ensinar de Skinner, os experimentos de Asch, Milgram e Sherif e a dissonância cognitiva de Festinger.
O celular na mão de uma criança é apresentado como a versão atual, portátil e muito mais eficaz, da máquina de ensinar de Skinner.
controle do comportamentodinâmica de grupobehaviorismoconformidade socialdissonância cognitiva Bertrand RussellB. F. SkinnerSolomon AschStanley MilgramLeon Festinger31 min -
Aula 11 A intelectualidade marxista e a conquista da educação
Sem a esperada consciência de classe do proletariado, a intelectualidade marxista passa a ver a educação como área-chave da revolução. A aula percorre Horkheimer e a crítica da autoridade familiar, Lukács, a Revolução Cultural chinesa, o capital cultural de Bourdieu e a revolução sexual que, depois de maio de 68, chega à escola.
A aula relembra a revolução sexual tentada na União Soviética dos anos 1920, que fracassou e foi revertida pelo próprio Stalin.
Escola de Frankfurtconsciência de classeautoridade familiarcapital culturalrevolução sexual Max HorkheimerGyörgy LukácsPierre BourdieuMichel FoucaultKarl Marx24 min -
Aula 12 Escola, Unesco e modificação de comportamento
O sistema escolar como instrumento de modificação de comportamento: pedagogia centrada no aluno, dinâmicas de grupo e diretrizes da Unesco que transferem à escola o papel moral da família e propõem um currículo mundial. Reduzida a controle de comportamentos, a educação vira seu contrário, e a resposta terá de ser pessoal.
O caos nas escolas, sustenta a aula, não é mero acidente: planejadores da Unesco já o previam como fase de transição dos valores familiares para outros.
modificação de comportamentopedagogia centrada no alunoUnescocurrículo mundialpapel da família Paulo FreireMichel FoucaultDeclaração Mundial sobre Educação para Todos25 min -
Aula 13 A fragmentação do homem e a perda da verdade
A fragmentação do homem moderno, da especialização e da exclusão positivista dos juízos de valor à crítica de Derrida a Husserl e ao "não há fatos, só interpretações" de Nietzsche. Sem verdade objetiva, restam narrativas, subjetivismo e ação revolucionária; como Dante, é preciso sair do inferno e buscar outro guia.
Como uma cultura que confiava nos fatos acabou tratando ciência e filosofia como fábulas, e o que isso tem a ver com a checagem de fatos no noticiário?
fragmentação do homempositivismodesconstruçãonarrativasrelativismo Edmund HusserlJacques DerridaFriedrich NietzscheHeráclitoKant29 min -
Aula 14 Dante como guia: poesia, ação e contemplação
Dante como guia para além da modernidade: os quatro sentidos da leitura, a alegoria de Orfeu como canto civilizador do sábio e a poesia como primeiro degrau da educação, do sensível ao inteligível. O sonho com Lia e Raquel resume a relação entre vida ativa e vida contemplativa.
Por que Jacó precisou casar primeiro com Lia para só depois ter Raquel? A leitura alegórica faz disso o caminho que vai da virtude à contemplação.
Dantepoesiaalegoriavida ativavida contemplativa Dante AlighieriConvívioOrfeuLia e RaquelOlavo de Carvalho15 min -
Aula 15 Dos sentidos à sabedoria: o fim da educação
A educação como ascensão do conhecimento, dos sentidos e da imaginação à razão e ao intelecto, segundo Santo Agostinho, Boécio e os vitorinos. A virtude e a ciência, próprias da vida ativa, preparam a sabedoria contemplativa, busca amorosa da verdade que a modernidade perdeu e verdadeiro fim da educação.
O intelecto humano é como uma lente que precisa ser polida para receber a luz: a imagem mostra por que a virtude importa para conhecer.
graus do conhecimentointelectosabedoriavida contemplativafinalidade da educação Santo AgostinhoBoécioRicardo de São VítorAristótelesDante Alighieri20 min
Autores, obras e figuras discutidos
Dante Alighieri · Platão · Eric Voegelin · Jean Guitton · George Steiner · Sócrates · Contra a Escola · Wittgenstein · Herbert Marcuse · Simone de Beauvoir · Julien Benda · Maquiavel · Karl Marx · O Mito do Mundo Novo · Kant · Fichte · Hegel · Darwin · Olavo de Carvalho · Isaiah Berlin · Napoleão Bonaparte · Woodrow Wilson · von Stein · Georges Gusdorf · Helvétius · Bertrand Russell · B. F. Skinner · Solomon Asch · Stanley Milgram · Leon Festinger · Max Horkheimer · György Lukács · Pierre Bourdieu · Michel Foucault · Paulo Freire · Declaração Mundial sobre Educação para Todos · Edmund Husserl · Jacques Derrida · Friedrich Nietzsche · Heráclito · Convívio · Orfeu · Lia e Raquel · Santo Agostinho · Boécio · Ricardo de São Vítor · Aristóteles