Introdução a Aristóteles
Uma introdução ao pensamento de Aristóteles, da metafísica à compreensão filosófica do mundo natural.
Visão geral
Aristóteles nasceu em Estagira, nos confins da Macedônia, numa família de médicos ligada à corte macedônica. Passou vinte anos na Academia de Platão, exilou-se na Ásia Menor e em Lesbos, onde descreveu animais com um detalhe nunca visto, foi tutor de Alexandre e fundou o Liceu em Atenas. O curso começa por essa vida porque, como insiste o professor Erik Gramstrup, não se entende a obra sem o contexto humano e político em que ela nasceu.
Em seguida vem a obra: por que os escritos que chegaram até nós, cerca de um quinto do total, parecem anotações de aula, como ficaram guardados num porão e foram editados séculos depois por Andrônico de Rodes, e como Aristóteles dividia as ciências em teoréticas, práticas e poiéticas. A biografia se fecha com o segundo exílio, em Cálcis, onde ele morreu.
A metafísica entra como passagem obrigatória para a física: o ser dito em muitos sentidos, as quatro causas, substância e acidentes, as dez categorias, o primeiro princípio imóvel e o par ato e potência. Tudo é explicado a partir do zero, com exemplos do cotidiano e alertas contra leituras equivocadas, como a dos empiristas que imaginaram a substância como uma cebola sem núcleo.
O ponto de chegada é a filosofia da natureza: o universo de esferas concêntricas com a Terra no centro, os quatro elementos e seus lugares naturais, o éter dos céus, um Deus que move como causa final sem criar a matéria, e as almas vegetativa, sensitiva e intelectiva. O curso termina com um balanço do que a ciência moderna superou e do que continua de pé em Aristóteles.
O percurso do curso
A vida de Aristóteles (Aula 1)
Depois de uma breve apresentação, que anuncia o plano (vida, obra, metafísica e física), o curso começa pela biografia, porque, para Erik Gramstrup, não se entende Aristóteles sem o contexto humano e político em que ele viveu. Nascido em Estagira, nos confins da Macedônia, numa família de médicos (o pai fora médico do rei Amintas), ele chega aos 18 anos à Academia de Platão e fica ali vinte anos.
Com a morte do mestre, a divisão entre os discípulos e a expansão macedônica, Aristóteles parte para Assos, na Ásia Menor, e depois para Lesbos, onde descreve animais com um detalhe inédito; o professor defende essas observações de campo contra quem as chama de amadoras. Vêm então os cerca de três anos como tutor de Alexandre e a volta a Atenas, onde ele funda o Liceu, a escola dos peripatéticos, que partia das opiniões dos predecessores e da análise da linguagem.
A obra e os últimos anos (Aula 2)
Dos escritos de Aristóteles, só cerca de um quinto sobreviveu, e justamente os de uso interno do Liceu, com cara de anotações de aula; os diálogos escritos para o público se perderam. Os manuscritos ficaram num porão na Ásia Menor até serem levados de volta ao mundo clássico pelo general romano Sila e editados por Andrônico de Rodes, a quem se deve a ordem em que as obras são lidas até hoje e, provavelmente, a difusão do nome “metafísica”: os livros que vinham depois dos da física.
A aula percorre o conteúdo do corpus, do Órganon à zoologia, à física, à ética, à política e à Poética, conta a perseguição que levou Aristóteles ao exílio final em Cálcis, onde morreu menos de um ano depois, e termina com a divisão das ciências em teoréticas, práticas e poiéticas.
A metafísica como passagem (Aula 3)
A aula mais longa trata a metafísica como porta de entrada para a física. Diante do velho problema do uno e do múltiplo, Aristóteles responde que “ser” não tem um sentido só nem sentidos desconexos: é um termo analógico, como “saudável”, que se diz da pessoa e do alimento em sentidos ligados a um centro. Daí vêm as quatro causas, a distinção entre substância e acidentes, as dez categorias e a divisão das substâncias em corruptíveis, incorruptíveis (os astros) e suprassensíveis.
O professor desfaz a leitura empirista da substância como um núcleo que sobraria depois de retirados os acidentes, apresenta a demonstração de um primeiro princípio imóvel, ato puro, que atrai o mundo como causa final, e fecha com o par ato e potência: a mudança não vai do nada ao ser, mas do ser em potência ao ser em ato.
O cosmos e os viventes (Aula 4)
A última aula chega à filosofia da natureza dentro da cosmologia grega: esferas concêntricas com a Terra, esférica, no centro (Aristóteles o provou pela sombra na Lua durante os eclipses) e as estrelas fixas no firmamento. Abaixo da Lua, os quatro elementos buscam seus lugares naturais e tudo nasce e perece; acima dela, tudo é éter e nada se corrompe. Deus não cria a matéria, que é eterna: dá-lhe forma e move tudo como causa final, ponto que Tomás de Aquino teria de repensar.
Os seres vivos são compostos cuja forma é a alma, vegetativa nas plantas, sensitiva nos animais e intelectiva nos seres racionais: uma só em cada ser, e não almas somadas. O curso fecha com um balanço. Copérnico, Newton e a física do século XX derrubaram a astronomia grega e os lugares naturais, mas a busca dos elementos nasceu dessa tradição, e a pergunta de Aristóteles pelo ser como um todo continua de pé.
O que você vai aprender
- Situar a vida de Aristóteles (Estagira, a Academia, o exílio na Ásia Menor, a tutoria de Alexandre e o Liceu) no contexto da expansão macedônica
- Entender por que os escritos que sobreviveram, cerca de um quinto da obra, parecem anotações de aula e como chegaram até nós pela edição de Andrônico de Rodes
- Distinguir ciências teoréticas, práticas e poiéticas, e o sentido aristotélico de "prático"
- Compreender por que, para Aristóteles, "ser" é um termo analógico e como isso responde ao problema do uno e do múltiplo
- Explicar as quatro causas (material, formal, eficiente e final) e por que a palavra "causa" hoje diz menos que a aitia grega
- Diferenciar substância e acidentes, conhecer as dez categorias e reconhecer o erro da leitura empirista da substância
- Entender como o par ato e potência explica a mudança contra os que a julgavam impossível
- Descrever o cosmos aristotélico: esferas concêntricas, Terra no centro, quatro elementos e lugares naturais abaixo da Lua, éter nos céus e Deus como causa final
- Distinguir as almas vegetativa, sensitiva e intelectiva e o que cada uma explica nos seres vivos
- Separar o que a ciência moderna superou em Aristóteles do que dele permanece
Aula por aula
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Apresentação do curso Aristóteles, da vida à filosofia da natureza
Plano desta introdução a Aristóteles: a vida do filósofo em seu contexto, a obra, a metafísica e, por fim, a filosofia da natureza, com a visão grega do universo e das substâncias sensíveis.
O curso não pretende esgotar Aristóteles: escolhe o essencial para chegar, passo a passo, ao modo como ele via o mundo natural.
Aristótelesmetafísicafilosofia da naturezacosmologia grega Aristóteles3 min -
Aula 1 A vida de Aristóteles, da Academia ao Liceu
Biografia de Aristóteles em seu contexto político: a infância em Estagira, numa família de médicos ligada à corte macedônica, os vinte anos na Academia de Platão, o exílio na Ásia Menor e em Lesbos dedicado à zoologia, a tutoria de Alexandre e a fundação do Liceu.
Biólogos modernos chamaram de amadoras as descrições de animais feitas por Aristóteles; a aula mostra por que cobrar dele experimentos de laboratório é puro anacronismo.
biografia de AristótelesAcademia de Platãozoologiatutoria de AlexandreLiceu e peripatéticos AristótelesPlatãoFilipe da MacedôniaAlexandre MagnoSócrates35 min -
Aula 2 A obra de Aristóteles e seus últimos anos
Por que só cerca de um quinto dos escritos sobreviveu e por que eles parecem anotações de aula: a história dos textos de uso interno do Liceu até a edição de Andrônico de Rodes, o conteúdo do corpus, o exílio final em Cálcis e a divisão das ciências.
Uma placa de Delfos em homenagem a Aristóteles, achada quebrada no fundo de um poço, ajuda a entender a hostilidade que marcou seus últimos anos.
escritos esotéricosAndrônico de RodesÓrganonexílio em Cálcisclassificação das ciências AristótelesTeofrastoSilaAndrônico de Rodes39 min -
Aula 3 Metafísica de Aristóteles: ser, causas e substância
A metafísica como porta de entrada para a física: o ser como termo analógico diante do problema do uno e do múltiplo, as quatro causas, substância e acidentes, as dez categorias, os tipos de substância, a prova de um primeiro princípio imóvel e o par ato e potência.
Os empiristas imaginaram a substância como uma cebola que, descascada, não deixa núcleo nenhum; a aula mostra por que essa crítica acerta um espantalho, e não Aristóteles.
analogia do serquatro causassubstância e acidentescategoriasato e potência AristótelesPlatãoJonathan BarnesBoris HennigKant1h04 -
Aula 4 O cosmos aristotélico e as almas dos viventes
A física de Aristóteles dentro da cosmologia grega: esferas concêntricas com a Terra no centro, quatro elementos e lugares naturais no mundo sublunar, éter nos céus, um Deus que informa a matéria eterna sem criá-la e as almas vegetativa, sensitiva e intelectiva, com um balanço do que a ciência superou.
Os gregos não eram terraplanistas: Aristóteles deduziu a esfericidade da Terra da sombra curva que ela projeta na Lua durante os eclipses.
cosmologia gregalugares naturaiséterDeus como causa finalalma AristótelesTomás de AquinoCopérnicoNewton31 min
Autores, obras e figuras discutidos
Aristóteles · Platão · Filipe da Macedônia · Alexandre Magno · Sócrates · Teofrasto · Sila · Andrônico de Rodes · Jonathan Barnes · Boris Hennig · Kant · Tomás de Aquino · Copérnico · Newton