História das Mentalidades
Mitos, lendas, catedrais, quadros e canções lidos como fontes para entender como cada época via o mundo.
Visão geral
A história que se aprende na escola costuma ser uma sequência de nomes, datas e fatos encadeados: um esqueleto necessário, mas que pouco diz sobre como as pessoas de cada época viam o mundo. Este curso toma outro caminho. Como a história não pode repetir experiências em laboratório, ela se aproxima mais da arte que da ciência, e a história das mentalidades, na linha de Georges Duby e Jacques Le Goff, procura aquilo que todos numa sociedade pensam e creem, muitas vezes sem perceber.
As fontes privilegiadas são as que guardam essa mentalidade comum: mitos, lendas, arte popular, poemas e canções. Com elas, o professor Evandro Faustino percorre o mito egípcio de Osíris e Ísis, o mito grego de Teseu, os contos da Legenda Áurea, a Divina Comédia e a catedral gótica, lida como “escolástica de pedra e de luz”. Seguem o humanismo do Renascimento, visto em A Primavera de Botticelli, e as Grandes Navegações, compreendidas pela Mensagem de Fernando Pessoa e por Sérgio Buarque de Holanda.
Da Europa moderna, o curso passa ao romantismo e à tentação da modernidade no Fausto de Goethe, à autoimagem norte-americana nas ilustrações de Norman Rockwell e, por fim, ao Brasil: a tristeza trágica e a saudade do sertão na música caipira e o cotidiano do Rio do início do século XIX nas gravuras de Debret, com suas irmandades, promessas, escravos de ganho e devoções populares.
O método é sempre o mesmo: narrar o mito ou descrever a obra e depois perguntar o que ela revela de quem a produziu, sem julgar o passado pelos valores de hoje. O tom é de conversa, e a leitura simbólica é assumida com clareza, como caminho para entender o passado por dentro.
O percurso do curso
O método: história como arte (Aulas 1 a 3)
Sem experimentação possível, a história se aproxima mais da arte que da ciência, e a história das mentalidades é a sua modalidade mais próxima da arte. Com Georges Duby e Jacques Le Goff, o curso define seu objeto, as crenças e juízos que todos numa sociedade partilham, e suas fontes preferidas: arte popular, mitos e lendas. Essas fontes funcionam por pensamento analógico, que o medieval levava ao extremo: o céu era um grande feudo, as abelhas tinham rei, e matéria e espírito não tinham fronteira, como mostram as relíquias, a Santa Capela e o Monte Saint-Michel.
Mitos antigos: Egito e Grécia (Aulas 4 e 5)
O mito de origem egípcio é contado como um egípcio o ouviria: Rá e seu nome secreto, a traição de Set, o pranto de Ísis que vira o Nilo, Osíris recomposto como primeira múmia e juiz dos mortos, Hórus como primeiro faraó. Daí vem a teocracia egípcia: o faraó é deus. O mito de Teseu, do menino educado por Quíron ao Minotauro e às velas pretas, revela a mentalidade grega: cidades minúsculas com reis-sacerdotes, o pai como sacerdote da casa, deuses locais e antropomórficos, heróis protegidos num mundo cheio de riscos.
A Idade Média: santos, Dante e catedrais (Aulas 6 a 8)
Os contos da Legenda Áurea mostram um céu que intervém na terra com toda a naturalidade, e a lenda do Frei Ave Maria lembra que a religiosidade popular precede a teologia. A Divina Comédia é narrada do amor por Beatriz à visão de Deus, e a gradação dos castigos revela uma escala moral surpreendente: a luxúria é o pecado mais leve, e a traição, o mais grave. O bloco sobre o gótico vai da estrutura, com arcos, ogivas e arcobotantes que abrem as paredes à luz, às três fases do estilo e ao simbolismo de cada elemento, da fachada de Notre-Dame às gárgulas e aos vitrais, lidos com Paul Claudel.
Renascimento e Grandes Navegações (Aulas 9 e 10)
O humanismo renascentista aparece como mentalidade de elite, enquanto o povo seguia medieval: o homem no centro, a razão e a Antiguidade cultuadas, o ideal de virtù, fortuna e glória. A leitura de A Primavera de Botticelli, guiada por Edgar Wind, mostra como um quadro podia cifrar uma teoria do amor. Nas Grandes Navegações, o curso recusa como anacronismo a explicação só econômica, ouve as fontes da época (Colombo, Caminha, o regimento de Tomé de Sousa), lê a Mensagem de Fernando Pessoa e contrasta, com Sérgio Buarque de Holanda, o espanhol ladrilhador e o português semeador.
Romantismo e modernidade (Aula 11)
O romantismo é tratado como modo de ser e filosofia da Revolução Francesa: o artista vira gênio, a imaginação supera a razão, e a valsa toma o lugar do minueto. Com Marshall Berman, a modernidade aparece como promessa de aventura que ameaça destruir tudo o que somos. A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, e o Fausto de Goethe mostram essa tentação, e Gretchen, seduzida e destruída, é o seu preço. O filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, leva o mesmo drama ao interior brasileiro.
Estados Unidos e Brasil (Aulas 12 a 14)
As ilustrações de Norman Rockwell revelam como os norte-americanos gostam de se ver, e essa autoimagem ajuda a entender sua política internacional. No Brasil, as letras da música caipira mostram uma melancolia que desemboca em tragédia, o fatalismo, a saudade do sertão e a desilusão do migrante. O curso termina com uma longa leitura das gravuras de Debret sobre o Rio do início do século XIX: rótulas, irmandades, promessas e ex-votos, o viático que fazia a rua parar, o sincretismo, a malhação do Judas e uma escravidão entranhada em toda a sociedade.
O que você vai aprender
- O que distingue a história das mentalidades da história política e por que ela se aproxima da arte.
- Como usar mitos, lendas, arte popular, poemas e canções como fontes históricas.
- O que é o pensamento analógico medieval e onde ele aparece, das relíquias e bestiários à catedral.
- Que traços das mentalidades egípcia e grega se leem nos mitos de Osíris e de Teseu, como o faraó-deus e a religião doméstica.
- Como a Legenda Áurea e a Divina Comédia mostram um céu próximo da terra e uma escala de pecados diferente da nossa.
- A estrutura, as três fases e o simbolismo da catedral gótica, dos arcobotantes aos vitrais.
- Os traços do humanismo renascentista e uma leitura de A Primavera de Botticelli como alegoria do amor.
- Por que as Grandes Navegações não se explicam só pelo lucro, com a Mensagem de Fernando Pessoa e Raízes do Brasil.
- Como o romantismo e o Fausto de Goethe ajudam a entender a promessa e o preço da modernidade.
- Que imagem de si norte-americanos e brasileiros deixaram nas ilustrações de Rockwell, na música caipira e nas gravuras de Debret.
Aula por aula
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Aula 1 História como arte: a proposta das mentalidades
Sem experimentação possível, a história se aproxima mais da arte que da ciência. Contra a história política de nomes e datas, a história das mentalidades, com Georges Duby e Jacques Le Goff, busca as crenças e juízos partilhados por toda uma sociedade e faz da imprecisão um atrativo.
Por que um quadro de Monet, impreciso de propósito, pode dizer mais sobre o olhar humano do que uma cronologia exata?
história das mentalidadeshistória políticahistória como arteimprecisãofontes históricas Georges DubyJacques Le GoffMonetLeonardo da VinciMillet21 min -
Aula 2 Arte popular, lendas e o pensamento analógico
A história positivista é o esqueleto, necessário mas escondido; a história das mentalidades prefere a arte popular, como as gravuras de Debret, e sobretudo mitos e lendas, que funcionam por pensamento analógico, visível no céu medieval imaginado como um grande feudo e nos bestiários.
Quem chama a raposa de astuta ou põe uma águia no escudo do time continua pensando por analogia, como os autores dos bestiários medievais.
fontes históricasarte popularmitos e lendaspensamento analógicoIdade Média Jean-Baptiste DebretJacques Le GoffSão Bernardo de Claraval24 min -
Aula 3 Analogia medieval: matéria e espírito sem fronteira
Um simples copo d'água, lido por várias analogias à luz da quarta via de Tomás de Aquino, abre a mentalidade medieval. Com Huizinga, as relíquias, a Santa Capela de São Luís e o Monte Saint-Michel mostram um mundo sem fronteira entre matéria e espírito.
Uma iluminura do Monte Saint-Michel, com anjos e demônios combatendo ao redor da abadia, revela o que nossos “óculos mentais” já não enxergam.
pensamento analógicorelíquiasSanta CapelaMonte Saint-Michelmatéria e espírito Johan HuizingaTomás de AquinoSão Luís22 min -
Aula 4 Mito de origem egípcio: Osíris, Ísis e Hórus
O mito de origem egípcio é narrado do nascimento de Rá à rivalidade entre Set e Osíris, com o pranto de Ísis que vira o Nilo e a primeira múmia. Dele se deduzem traços da mentalidade egípcia, como o faraó-deus, herdeiro de Hórus, e o julgamento dos mortos.
Um mito comanche, em que Deus assa os homens num forno até acertar o ponto, mostra com humor como todo mito de origem exalta o próprio povo.
mito de origemEgito antigoOsíris e Ísisfaraó e teocraciajulgamento dos mortos RáÍsisOsírisSetHórus3 partes nesta aula
- Parte 1: Criação egípcia: Rá, Ísis e o nome secreto · 25 min Mitos de origem revelam como um povo se vê. Na versão do mito egípcio reunida pelo professor, Rá nasce do ovo primordial, Thoth rouba cinco dias para Nut e Geb, Ísis obtém o nome secreto de Rá e Set, preterido na partilha do mundo, planeja vingança.
- Parte 2: Osíris no sarcófago e o nascimento de Hórus · 20 min Set atrai Osíris a uma festa e o prende num sarcófago sob medida, e o Egito escurece. O pranto de Ísis vira o Nilo, que arrasta o sarcófago rumo a Tiro; ela escapa do escorpião de Set, dá à luz Hórus e, sem poder fora do Egito, recorre à astúcia.
- Parte 3: Ísis em Tiro, Osíris juiz e o faraó-deus · 19 min Em Tiro, Ísis conquista a rainha, tenta dar a imortalidade ao príncipe e recupera a coluna com o sarcófago. Set despedaça Osíris; Ísis o recompõe como primeira múmia, e ele se torna juiz dos mortos. Hórus vira o primeiro faraó, o que explica a teocracia egípcia: o faraó é deus.
1h03 -
Aula 5 O mito de Teseu e a mentalidade grega
O mito de Teseu é narrado da infância em Trezena ao Minotauro, ao fio de Ariadne e às velas pretas que levam Egeu à morte. Depois, o comentário extrai a mentalidade grega: cidades minúsculas com reis-sacerdotes, religião doméstica, deuses locais e antropomórficos, heróis protegidos num mundo cheio de riscos.
O gesto do pai que entrega a noiva no casamento seria um vestígio da antiga religião doméstica, em que ser filho era pertencer ao culto da casa.
mito de TeseuMinotauromentalidade gregareligião domésticadeuses antropomórficos TeseuEgeuAriadneMinosPoseidon3 partes nesta aula
- Parte 1: Juventude de Teseu e a viagem a Atenas · 25 min Explicado o vínculo do rei grego com os deuses de seu território, o mito de Teseu é narrado da viagem iniciática de Egeu a Trezena ao menino educado por Quíron, à espada sob a pedra, aos monstros vencidos no caminho e ao reconhecimento pelo pai diante do veneno de Medeia.
- Parte 2: Teseu, o Minotauro e a dívida de sangue · 22 min Egeu narra a origem da dívida de sangue: a morte do cretense Androgeu, armada por jovens atenienses, e a vingança de Poseidon contra Minos, da qual nasce o Minotauro. Teseu o mata com o fio de Ariadne, abandona-a e, ao não trocar as velas pretas, provoca a morte do pai.
- Parte 3: O que Teseu revela da mentalidade grega · 22 min Para os gregos, o mito não era dogma nem superstição. Dele se extraem traços da mentalidade grega: cidades-Estado minúsculas com reis-sacerdotes quase camponeses, o pai como sacerdote doméstico que “levanta” o filho ao nascer, deuses locais e antropomórficos, heróis protegidos e um mundo politeísta cheio de riscos.
1h08 -
Aula 6 Legenda Áurea: o céu perto da terra
Contos da Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze, como o do devedor que jura em falso diante de São Nicolau e o da relíquia de São Pancrácio, mostram o céu intervindo com naturalidade na terra. A lenda do Frei Ave Maria e o Milagre de Calanda ilustram a candura da fé popular.
Quem conhece a literatura de cordel ou o Auto da Compadecida vai reconhecer, nesses contos medievais, histórias que parecem tipicamente brasileiras.
Legenda Áureavidas de santosmilagresreligiosidade popularliteratura de cordel Jacopo de VarazzeHilário Franco JúniorSão NicolauTomás de AquinoVittorio Messori3 partes nesta aula
- Parte 1: Legenda Áurea: o céu próximo da terra · 20 min A Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze, um dos livros mais lidos da Idade Média, é apresentada em dois contos: o devedor que jura em falso diante de São Nicolau e o bispo salvo por Santo André do demônio disfarçado. Ambos mostram o céu intervindo com naturalidade na terra.
- Parte 2: Legenda Áurea: esmolas, relíquias e candura medieval · 21 min Contos da Legenda Áurea, como São Félix desafiando Apolo, a cura do prefeito Cromácio por São Sebastião, o pão atirado que salva um avarento e a relíquia de São Pancrácio nos tribunais, ilustram a candura e o pensamento analógico medievais, pouco importando se os fatos são verídicos.
- Parte 3: Frei Ave Maria, Calanda e a fé popular · 21 min A lenda do Frei Ave Maria, cruzado que perde a razão e só sabe repetir “Ave Maria”, mostra a religiosidade popular que, segundo Tomás de Aquino, precede a teologia. O Milagre de Calanda, atestado em cartório e pesquisado por Vittorio Messori, convida a abrir a mente a esses relatos.
1h01 -
Aula 7 A Divina Comédia e o imaginário medieval
O enredo da Divina Comédia é contado do amor de Dante por Beatriz à visão de Deus: o cosmos medieval, os nove círculos do inferno, a montanha do purgatório e os céus do paraíso. A gradação dos castigos revela uma escala moral bem diferente da nossa.
Por que, para o medieval, a luxúria era o pecado mais leve e usurários e falsificadores sofriam mais que assassinos?
Divina Comédiacosmos medievalinfernopurgatório e paraísohierarquia dos pecados Dante AlighieriBeatrizVirgílioSão Bernardo de ClaravalBoccaccio3 partes nesta aula
- Parte 1: Divina Comédia: Beatriz e a entrada no inferno · 24 min O amor idealizado de Dante por Beatriz explica a origem da Divina Comédia, cujo enredo começa a ser contado: o sentido de “comédia”, os três guias, o cosmos medieval com o inferno em cone e a montanha do purgatório, e a descida, da selva escura à travessia do rio.
- Parte 2: Círculos do inferno e a gravidade dos pecados · 23 min Dante e Virgílio descem os nove círculos do inferno, do limbo aos traidores congelados junto a Lúcifer. A gradação dos castigos revela critérios medievais distintos dos nossos: a luxúria é o pecado mais leve, enquanto usurários, adivinhos e falsificadores sofrem mais que assassinos, e papas avarentos aparecem condenados.
- Parte 3: Purgatório, Beatriz e paraíso na Divina Comédia · 22 min Saindo do inferno pelo centro da Terra, Dante sobe a montanha do purgatório, onde os pecados aparecem em ordem inversa e as almas purgam sem desespero. Atravessa o fogo por amor a Beatriz, figura simbólica numa procissão alegórica, percorre os céus e, pela oração de São Bernardo, contempla Deus.
1h08 -
Aula 8 O gótico, escolástica de pedra e de luz
Do românico ao gótico, arcos cruzados, ogivas e arcobotantes liberam as paredes para a luz. Depois das três fases do estilo, primitivo, radiante e flamejante, a catedral é lida como símbolo: planta em cruz, fachada de Notre-Dame, gárgulas, labirinto, sinos, vitrais e colunas que inspiram uma imagem da educação.
Estátuas perfeitas esculpidas a dezenas de metros do chão, onde ninguém as veria, recebem do medieval uma resposta simples: Deus está vendo.
arquitetura góticaromânicovitrais e rosáceassimbolismo da catedralNotre-Dame de Paris Paul ClaudelViollet-le-DucRafaelSanta Capela de ParisCatedral de Notre-Dame de Paris6 partes nesta aula
- Parte 1: Do românico ao gótico: a busca da luz · 21 min O gótico aperfeiçoa os estilos anteriores, do templo egípcio ao românico de paredes grossas e interior escuro. Arcos cruzados, arcobotantes e ogivas distribuem o peso até pilares externos, dispensam as paredes e abrem espaço para vitrais e rosáceas: a essência do estilo é a busca da luz.
- Parte 2: Gótico primitivo, radiante e flamejante · 24 min O gótico evolui em três fases: o primitivo, ainda próximo do românico, com rosáceas pesadas e estátuas presas à coluna; o radiante, de rosáceas leves, colunas em feixe e vitrais amplos, como na Santa Capela; e o flamejante, de curvas e contracurvas, excesso decorativo e obsessão pela morte.
- Parte 3: Leitura simbólica da catedral gótica · 27 min Leitura analógica do gótico: a planta em cruz latina, a flecha como oração nascida do sacrifício, a fachada de Notre-Dame em proporção áurea, a Galeria dos Reis e o Juízo Final. A hierarquia dos elementos aparece como função, não opressão, e o detalhe invisível, como trabalho oferecido a Deus.
- Parte 4: Gárgulas, labirintos e sinos na catedral gótica · 24 min Mais símbolos da catedral gótica: gárgulas como demônios forçados a trabalhar para Deus, o labirinto como peregrinação, a rosácea que coroa Nossa Senhora, a pia batismal à entrada e os sinos e relógios que marcavam as horas de oração e davam ritmo religioso à vida medieval.
- Parte 5: Vitrais e rosáceas: teologia feita de luz · 22 min Defesa da leitura simbólica aplicada ao vitral, inspirada em Paul Claudel: teologia em imagens para o povo, retrato dos ofícios medievais, chumbo oculto como humildade e vidro intacto como imagem da virgindade de Maria. A rosácea representa uma sociedade ordenada em torno de Cristo.
- Parte 6: As colunas góticas como imagem da educação · 5 min As colunas em feixe da igreja da Imaculada Conceição, em Madri, lidas por um professor: cada nervura é uma alma única unida às outras, e o impulso vertical que explode em leque de pedra inspira uma educação que respeita as diferenças e encaminha para o céu.
2h -
Aula 9 O humanismo renascentista e A Primavera de Botticelli
O humanismo renascentista, mentalidade de elite enquanto o povo seguia medieval, põe o homem no centro, cultua a razão e a Antiguidade e faz da virtù, da fortuna e da glória seu ideal. A Primavera de Botticelli, lida com Edgar Wind, cifra essas ideias numa teoria do amor.
Se o medieval é a criança que não larga a mão do pai, o renascentista é o adolescente que quer se virar sozinho.
humanismoRenascimentovirtùBotticelli, A Primaveraalegoria do amor Sandro BotticelliEdgar WindThomas MoreHenrique VIIIPico della Mirandola3 partes nesta aula
- Parte 1: O humanismo renascentista e seu ideal de homem · 23 min O humanismo renascentista como mentalidade de elite, enquanto o povo continuava medieval: o homem no centro de um universo interligado, visão laica que não nega Deus mas dispensa sua ajuda, culto à razão e à Antiguidade, ideal de virtù, fortuna e glória e obras cifradas para iniciados.
- Parte 2: A Primavera de Botticelli: descrição e primeiras chaves · 24 min As obras humanistas têm camadas de sentido, e A Primavera de Botticelli é lida segundo Edgar Wind: o quadro exporia uma teoria do amor, com Zéfiro, Clóris e Flora figurando o amor carnal e Cupido vendado indicando dois amores cegos, o do desejo e o diante do divino.
- Parte 3: As Três Graças e o círculo do amor · 26 min Conclusão da leitura de A Primavera segundo Edgar Wind: a Castidade, entre Volúpia e Beleza, apaixona-se pelo conhecimento que Mercúrio desvela afastando as nuvens; o movimento circular entre Zéfiro, que desce, e Mercúrio, que sobe, mostra o humanista que contempla a verdade e volta para transformar o mundo.
1h12 -
Aula 10 Grandes Navegações e a mentalidade ibérica
Contra a explicação só econômica das Grandes Navegações, fontes como Colombo e Caminha revelam a força da missão religiosa. A Mensagem, de Fernando Pessoa, dá a chave simbólica da vocação portuguesa, e o semeador e o ladrilhador de Sérgio Buarque de Holanda contrastam Portugal e Espanha.
Um diálogo imaginário com um analista de mercado mostra por que nenhum investidor bancaria, só pelo lucro, um projeto de quase um século.
Grandes Navegaçõesanacronismomissão religiosaMensagem, de Fernando PessoaRaízes do Brasil Cristóvão ColomboPero Vaz de CaminhaJanice TheodoroFernando Pessoa, MensagemSérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil3 partes nesta aula
- Parte 1: O que movia as caravelas, além do lucro · 19 min Crítica à explicação apenas econômica das Grandes Navegações, atribuída ao viés marxista dos livros didáticos: projetar valores atuais no passado é anacronismo, e fontes como Colombo, a carta de Caminha e Sérgio Buarque de Holanda mostram a força da motivação religiosa e missionária.
- Parte 2: Fernando Pessoa, Mensagem e a missão de Portugal · 27 min A Mensagem, de Fernando Pessoa, como chave da mentalidade das navegações: as cinco condições para entender símbolos, Portugal como rosto da Europa voltado ao Ocidente, reis que prepararam a obra sem vê-la e os poemas Mar Português e O Mostrengo, sobre a vocação vivida apesar do medo.
- Parte 3: O semeador e o ladrilhador: Portugal e Espanha · 19 min O colonizador espanhol, ladrilhador e quixotesco, diante do português, semeador e mais próximo de Sancho, segundo Sérgio Buarque de Holanda: cidades planejadas no interior e universidades precoces de um lado; praticidade, litoral, centralização e gosto pelo funcionalismo público do outro, traços que ajudariam a entender o Brasil.
1h05 -
Aula 11 Romantismo, Fausto e a tentação da modernidade
O romantismo, mais modo de ser que estilo, aparece como filosofia da Revolução Francesa e raiz da modernidade, que promete aventura e ameaça destruir tudo, segundo Marshall Berman. A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, o Fausto de Goethe e o filme Bye Bye Brasil mostram o preço dessa promessa.
O minueto se dança para quem assiste; a valsa faz o casal girar e perder as referências de fora: eis a ruptura romântica em miniatura.
romantismomodernidadeFaustoprogresso e velocidadeêxodo rural Goethe, FaustoMarshall BermanEça de Queirós, A Cidade e as SerrasCacá Diegues, Bye Bye BrasilJ. Guinsburg (org.), O Romantismo4 partes nesta aula
- Parte 1: O romantismo como modo de ser moderno · 27 min O romantismo, mais modo de ser que estilo, seria a filosofia da Revolução Francesa e a raiz da modernidade. O artista vira gênio que traduz o sentimento do povo, a imaginação supera a razão, e o contraste entre minueto clássico e valsa romântica resume a ruptura.
- Parte 2: Modernidade, Berman e A Cidade e as Serras · 22 min A modernidade, segundo Marshall Berman, promete aventura e poder mas ameaça destruir tudo o que somos. O século XIX exalta e teme o progresso, e A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, mostra Jacinto, infeliz entre as máquinas de Paris, encantando-se aos poucos com a serra.
- Parte 3: Fausto e o pacto da modernidade · 21 min O Fausto de Goethe retoma o mito medieval do pacto com o demônio: o sábio que sabe tudo, frustrado com a falta de sentido, troca “no princípio era o Verbo” por “no princípio era a ação” e aceita de Mefistófeles poder e velocidade, a tentação própria da modernidade.
- Parte 4: Gretchen, as joias e o preço da modernidade · 23 min No Fausto, a promessa moderna age como droga que exige excitação crescente: Gretchen troca a segurança de seu mundo simples pela sedução de Fausto e é destruída, e o Fausto construtor sacrifica um casal de velhos. Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, mostra o mesmo drama no interior brasileiro.
1h31 -
Aula 12 Norman Rockwell e a autoimagem norte-americana
As ilustrações de Norman Rockwell para o Saturday Evening Post mostram como os norte-americanos gostam de se ver: salvadores da Europa, defensores da liberdade de expressão e de religião, comunidade que admite o racismo mas promete convivência e, com o homem na Lua, representante da humanidade.
Entender essa autoimagem, defende o professor, ajuda a explicar episódios da política internacional, como o Tratado de Versalhes e o fracasso da Liga das Nações.
Norman Rockwellmentalidade norte-americanaautoimagemliberdade religiosaracismo Norman RockwellSaturday Evening PostMartin Luther King2 partes nesta aula
- Parte 1: Norman Rockwell e a autoimagem norte-americana · 22 min As ilustrações de Norman Rockwell para o Saturday Evening Post revelam como os norte-americanos gostam de se ver: salvadores da Europa, defensores da liberdade de expressão, heróis comunitários e benfeitores armados, convictos de que o modo americano de viver é o melhor para o mundo.
- Parte 2: Rockwell: racismo, liberdade religiosa e a Lua · 22 min Mais ilustrações de Norman Rockwell: cenas sobre o racismo que admitem o problema mas prometem convivência, imagens de tolerância religiosa como Dando Graças e o homem na Lua sob a bandeira americana, que resume a convicção de que os Estados Unidos representam a humanidade.
44 min -
Aula 13 A mentalidade brasileira na música caipira
Letras de canções caipiras de grande sucesso servem de fonte para o Brasil do interior: uma melancolia que desemboca em tragédia, o fatalismo do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, a saudade do sertão e a desilusão do migrante, atraído pela cidade idealizada da televisão, além do pobre que vence o rico.
Até o canto do sabiá soa triste nessas letras, sinal de que a tristeza está em quem ouve, não na natureza.
música caipiramentalidade brasileiramelancolia e fatalismocidade e sertãoêxodo rural Monteiro Lobato, UrupêsAriano SuassunaCacá Diegues, O Futuro PassouCatulo da Paixão Cearense, Luar do SertãoChico Mineiro2 partes nesta aula
- Parte 1: A tristeza trágica na música caipira · 23 min As letras da música caipira como fonte da mentalidade do Brasil interiorano: de Tristeza do Jeca a Chico Mineiro, uma melancolia que desemboca em tragédia, ligada a um fatalismo que desanima empreendimentos, como no Jeca Tatu de Monteiro Lobato, e deixa o povo à mercê do paternalismo político.
- Parte 2: Cidade e sertão na música caipira · 25 min A oposição entre cidade e sertão nas canções caipiras: Luar do Sertão e Saudade da Minha Terra cantam a roça perdida e a desilusão do migrante, atraído, segundo Cacá Diegues, pela cidade idealizada das novelas. Surgem ainda o pobre que vence o rico e a religiosidade popular.
47 min -
Aula 14 O Brasil nas gravuras de Debret
As gravuras de Jean-Baptiste Debret, lidas prancha a prancha e descontado o olhar preconceituoso do francês, revelam o Rio do início do século XIX: rótulas, irmandades, promessas e ex-votos, viático e sincretismo, malhação do Judas, escola, escravidão entranhada em toda a sociedade e um catolicismo popular vivido sem conflito com a religião oficial.
Até promessas não pagas passavam aos herdeiros: a dívida com o santo era um contrato que nem a morte anulava.
Debretreligiosidade popularirmandadesescravidãocotidiano do Rio Jean-Baptiste Debret, Viagem Pitoresca e Histórica ao BrasilGilberto Freyre, Casa-Grande & SenzalaFustel de Coulanges, A Cidade AntigaCarla Camurati, Carlota JoaquinaLuiz Gama7 partes nesta aula
- Parte 1: Debret: esmolas, rótulas e promessas aos santos · 26 min As gravuras de Jean-Baptiste Debret, francês que viveu cerca de vinte anos no Rio, servem de fonte, descontado seu olhar preconceituoso. A prancha dos pedintes revela rótulas herdadas dos árabes, vendedoras de balas, escravos da municipalidade, esmolas para irmandades e a relação pessoal do brasileiro com santos especializados.
- Parte 2: Irmandades, sepulturas e ex-votos em Debret · 21 min A prancha 6 de Debret mostra o sepultamento nas igrejas garantido pelas irmandades, a ostentação da senhora rica seguida por escravos e o escravo de ganho vendendo cravos. Náufragos levando a vela do barco como ex-voto ilustram a intimidade extraoficial do brasileiro com os santos.
- Parte 3: Arruda, viático e batismo nas gravuras de Debret · 24 min As pranchas 11 e 12 de Debret mostram escravas cobertas de arruda contra o mau-olhado, sinal da crença no combate entre bem e mal; a procissão do viático, que fazia a rua parar diante de Deus; e uma ama de leite ricamente enfeitada levando um bebê ao batismo.
- Parte 4: Sincretismo e religiosidade popular em Debret · 23 min Nas pranchas 15 e 16 de Debret, o casamento de escravos e o enterro festivo de um chefe africano a caminho da igreja revelam um catolicismo popular sincrético, vivido sem sentimento de contradição com a religião oficial; o enterro de anjinhos mostra costumes escravos tolerados pela sociedade.
- Parte 5: Caridade, malhação do Judas e cultura popular · 22 min Pranchas de Debret mostram a caridade das irmandades, que levavam víveres aos presos, e a malhação do Judas no Sábado de Aleluia, festa popular à margem da religião oficial. A análise chega ao intercâmbio entre cultura erudita e popular, como a quadrilha nascida do minueto.
- Parte 6: Escola, hierarquia e escravidão no Rio de Debret · 22 min Pranchas de Debret sobre a vida escolar mostram a menina rica com seu escravo particular e meninos colhendo aprovações de passantes para suas redações. A mulata comerciante seguida por escravas em fila hierarquizada revela uma camada intermediária e uma escravidão entranhada em toda a sociedade.
- Parte 7: Rapé, dejetos e patuás no Rio de Debret · 21 min Uma gravura de Debret mostra escravos acorrentados que levavam ao mar os barris de dejetos das casas, serviço municipal dado como castigo, e inspira uma reflexão sobre higiene e cheiros. Outra traz escravos de ganho vendendo aves vivas e um patuá, amuleto da religiosidade popular.
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Autores, obras e figuras discutidos
Georges Duby · Jacques Le Goff · Monet · Leonardo da Vinci · Millet · Jean-Baptiste Debret · São Bernardo de Claraval · Johan Huizinga · Tomás de Aquino · São Luís · Rá · Ísis · Osíris · Set · Hórus · Teseu · Egeu · Ariadne · Minos · Poseidon · Jacopo de Varazze · Hilário Franco Júnior · São Nicolau · Vittorio Messori · Dante Alighieri · Beatriz · Virgílio · Boccaccio · Paul Claudel · Viollet-le-Duc · Rafael · Santa Capela de Paris · Catedral de Notre-Dame de Paris · Sandro Botticelli · Edgar Wind · Thomas More · Henrique VIII · Pico della Mirandola · Cristóvão Colombo · Pero Vaz de Caminha · Janice Theodoro · Fernando Pessoa, Mensagem · Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil · Goethe, Fausto · Marshall Berman · Eça de Queirós, A Cidade e as Serras · Cacá Diegues, Bye Bye Brasil · J. Guinsburg (org.), O Romantismo · Norman Rockwell · Saturday Evening Post · Martin Luther King · Monteiro Lobato, Urupês · Ariano Suassuna · Cacá Diegues, O Futuro Passou · Catulo da Paixão Cearense, Luar do Sertão · Chico Mineiro · Jean-Baptiste Debret, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil · Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala · Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga · Carla Camurati, Carlota Joaquina · Luiz Gama