Baixa Idade Média
Das cruzadas a Dante: o auge da cristandade medieval e a crise do século XIV, que abre caminho ao Renascimento.
Visão geral
Muita gente ouve “Baixa Idade Média” e imagina um tempo de decadência. Este curso mostra o contrário: entre os séculos X-XI e XV, com o renascimento do comércio e das cidades, a Idade Média vive o seu auge intelectual, arquitetônico e teológico. Continuação direta do curso Alta Idade Média, ele acompanha uma Europa em que a Igreja segue como a grande instituição, mas os reis ganham cada vez mais poder.
O percurso começa pelas cruzadas, convocadas por Urbano II em 1095. Elas não deram terras à nobreza nem grande prestígio à Igreja, mas abriram a Europa a novos saberes, como o Aristóteles que chega pelas mãos de Averróis e passa a ser estudado nas universidades. Na mesma época se erguem as catedrais góticas, de Saint-Denis à Sainte-Chapelle, lidas no curso como um livro aberto em pedra e vitral e como um caminho de elevação espiritual.
Em seguida vêm as tensões entre o poder espiritual e o temporal: os cismas do Oriente e do Ocidente, a querela das investiduras, o século XIII de São Francisco e São Tomás de Aquino e, logo depois, Filipe, o Belo, que destrói os templários, e as coroas da França e da Inglaterra, entrelaçadas até a Guerra dos Cem Anos.
O curso termina no “terrível século XIV” de que fala a historiadora Barbara Tuchman: a Peste Negra mata cerca de um terço da Europa e abala a autoridade da Igreja, às voltas com o papado de Avignon. No mesmo século, a Comédia de Dante, herdeira dos romances de cavalaria, põe um pé no mundo medieval e outro numa nova realidade. A despedida fica com uma tese que o professor toma de Paul Johnson: o Renascimento, tema do curso seguinte, foi a última fase da Idade Média.
O percurso do curso
O auge da Idade Média
A primeira aula retoma o fio do curso Alta Idade Média: com o arado e a retomada do comércio, as cidades renascem, e começa a Baixa Idade Média, mais ou menos do século X-XI ao XV. A Igreja continua a ser a grande instituição, mas os reis ganham poder. O nome engana: “baixa” não quer dizer pequena nem decadente. Para o professor, é aqui que está a “Grande Idade Média”, com o auge da produção intelectual, arquitetônica e teológica.
Cruzadas, universidades e Averróis
As cruzadas, convocadas por Urbano II em 1095, querem retomar as Terras Santas, no plural: Jerusalém e os lugares por onde passaram Cristo e os apóstolos, então sob domínio islâmico. Não trazem terras à nobreza que as financiou nem grande prestígio à Igreja, e a nobreza sai delas enfraquecida diante dos reis. Seu fruto é outro: novos saberes chegam à Europa e às universidades, de Bolonha, Paris e Oxford a Coimbra e Salamanca, nascidas sob a tutela da Igreja. Entre eles está Aristóteles, cujas obras circulam com os manuscritos de Averróis e de seus discípulos e serão amplamente usadas por São Tomás de Aquino na Suma Teológica.
A catedral como livro aberto
O gótico, que nasce na França com a igreja de Saint-Denis, deixa para trás as paredes grossas e as janelas pequenas do românico. As catedrais se erguem no horizonte como as pirâmides no deserto, e cada detalhe é símbolo: as gárgulas do lado de fora representam o mundo, agressivo e pesado; lá dentro, as naves altas, os arcobotantes e os vitrais fazem da construção um caminho de elevação espiritual. A aula termina na Sainte-Chapelle, que Luís IX mandou erguer como relicário para a coroa de espinhos, e propõe entrar nela como um camponês ou um peixeiro da época, para quem os vitrais eram a Bíblia aberta.
A Igreja entre cismas e reis
A segunda aula mostra a Igreja no auge e sob tensão. O cisma do Oriente, no século XI, separa Roma de Constantinopla e dá origem à Igreja Ortodoxa; no século XIV, o papado deixa Roma e se instala em Avignon. Na querela das investiduras, o rei Henrique chega a pedir perdão ao papa descalço e vestido de penitente. O século XIII é o de São Francisco, com sua humildade, e de São Tomás de Aquino, com sua profundidade intelectual: assim como Santo Agostinho encampara Platão nas bases da patrística, Tomás apoia-se em Aristóteles e dá à escolástica a sua base. Com Alberto Magno e, mais tarde, Duns Escoto e Guilherme de Ockham, a doutrina cristã ganha uma leitura cada vez mais filosófica; na pintura, Cimabue e Giotto trazem profundidade e leveza às figuras.
Filipe, o Belo, e a força dos reis
Filipe, o Belo, rei da França, marca a virada. Diante do poder e da fortuna dos templários, acusa a ordem de vários crimes, que a historiografia considera infundados, e a leva aos tribunais da Inquisição; o grão-mestre Jacques de Molay acaba morto. É o poder temporal avançando sobre o espiritual. A filha do rei, Isabel, casa-se com Eduardo II, filho de Eduardo I, o rei inglês do filme Coração Valente; com Eduardo III, França e Inglaterra mergulham na Guerra dos Cem Anos, que durou 116 anos. A Igreja, que no tempo de São Tomás estava no ápice, perde terreno para os reis.
O terrível século XIV
A terceira aula chega à Peste Negra, que, trazida pelo comércio das repúblicas italianas com o Oriente, entra pelos portos da Itália e, a partir de 1348, mata cerca de um terço dos europeus. Muitos a viam como castigo para os pecadores, mas a população via morrerem também padres e fiéis, e as explicações da Igreja perdem força. O papado está em Avignon, com uma sequência de papas franceses, e a disputa entre papas e antipapas só termina com a volta a Roma. Os reis se fortalecem, a caminho das monarquias absolutistas. É o século que Barbara Tuchman retratou em Um espelho distante: peste, jacqueries, Guerra dos Cem Anos e cisma.
Dante e a passagem ao Renascimento
O lado luminoso do século é a literatura. A Comédia, que Dante escreve no exílio, é a grande obra poética da cristandade e tem um pé no mundo medieval e outro numa nova realidade; com Cavalcanti, Petrarca e Boccaccio, ela prepara o Renascimento. Por trás dela estão os romances de cavalaria, do Cantar de mio Cid a Tristão e Isolda e ao amor cortês de André Capelão, e o ideal do cavaleiro disciplinado e guiado pela honra, que o professor reencontra em O Sétimo Selo, de Bergman. O curso se encerra com a tese, tomada de Paul Johnson, de que o Renascimento foi a última fase da Idade Média.
O que você vai aprender
- Por que a Baixa Idade Média, dos séculos X-XI ao XV, é o auge do período medieval, e não a sua decadência
- O que as cruzadas trouxeram e o que não trouxeram, e por que a nobreza saiu delas enfraquecida diante dos reis
- Como as cruzadas se ligam ao nascimento das universidades e à chegada de Aristóteles pelas mãos de Averróis
- Como ler uma catedral gótica: o contraste com o românico, as gárgulas, os vitrais como livro aberto e a busca de elevação
- O que foram os cismas do Oriente e do Ocidente e a querela das investiduras
- Por que o século XIII, de São Francisco e São Tomás de Aquino, tem grande fôlego teológico, e o que distingue a patrística de Agostinho da escolástica de Tomás
- Como Filipe, o Belo, e o processo contra os templários marcam o avanço do poder temporal sobre o espiritual
- Como a Peste Negra, o papado de Avignon e a Guerra dos Cem Anos abalaram a autoridade da Igreja no século XIV
- Por que a Comédia de Dante, herdeira dos romances de cavalaria e do ideal do cavaleiro, é vista como porta de entrada do Renascimento
Aula por aula
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Aula 1 Cruzadas, universidades e catedrais góticas
Com o renascimento do comércio e das cidades, a Baixa Idade Média vive o auge do período medieval. As cruzadas, iniciadas em 1095, não trazem terras nem prestígio, mas abrem a Europa a novos saberes, como o Aristóteles de Averróis, estudado nas universidades; as catedrais góticas traduzem em pedra e vitral a elevação espiritual.
Propõe um exercício de imaginação: entrar na Sainte-Chapelle como um camponês ou um peixeiro medieval e ver a Bíblia contada nos vitrais, do chão ao teto.
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Aula 2 Cismas, escolástica e a força dos reis
Os cismas do Oriente e do Ocidente e a querela das investiduras marcam as tensões entre a Igreja e os reis. O século XIII, de São Francisco e São Tomás de Aquino, é o auge teológico, mas Filipe, o Belo, ao destruir os templários, mostra o poder temporal avançando sobre o espiritual.
Do filme Coração Valente à Guerra dos Cem Anos, que durou 116 anos, mostra como as coroas da França e da Inglaterra se entrelaçam rumo ao “terrível século XIV”.
cismas da Igrejaquerela das investiduraspatrística e escolásticatempláriospoder temporal e espiritual São Francisco de AssisSanto Tomás de AquinoSanto AgostinhoFilipe, o BeloJacques de Molay15 min -
Aula 3 Peste Negra, o terrível século XIV e Dante
A Peste Negra, que entra pelos portos italianos e se espalha a partir de 1348, mata um terço da Europa e abala a autoridade da Igreja, às voltas com o papado de Avignon, enquanto os reis se fortalecem. No mesmo século, a Comédia de Dante, herdeira dos romances de cavalaria, abre caminho para o Renascimento.
Das máscaras bicudas dos médicos da peste ao cavaleiro que joga xadrez com a Morte em O Sétimo Selo, de Bergman, reconstrói o imaginário do “terrível século XIV”.
Peste Negrapapado de Avignonséculo XIVDante Alighieriromances de cavalaria Barbara TuchmanUm espelho distanteDante AlighieriIngmar BergmanPaul Johnson14 min
Autores, obras e figuras discutidos
Urbano II · Averróis · Aristóteles · Santo Tomás de Aquino · Luís IX · São Francisco de Assis · Santo Agostinho · Filipe, o Belo · Jacques de Molay · Barbara Tuchman · Um espelho distante · Dante Alighieri · Ingmar Bergman · Paul Johnson